O Corinthians de Dorival Júnior, campeão da Supercopa do Brasil ao vencer o Flamengo, por 2 a 0, no último domingo, é muito mais do que apenas um time vencedor. É uma afronta direta à lógica mais difundida do futebol brasileiro contemporâneo, aquela que prega que organização administrativa, saúde financeira e estabilidade política são pré-requisitos absolutos para o sucesso esportivo.
O Timão, hoje, é exatamente o oposto disso fora de campo e, paradoxalmente, um exemplo quase perfeito dentro das quatro linhas. E o grande responsável por essa inversão de valores atende pelo nome de Dorival Júnior.
Desde o ano passado, o Corinthians conquistou três títulos: Campeonato Paulista, Copa do Brasil e agora a Supercopa do Brasil. Tudo isso em meio a um cenário caótico nos bastidores. O clube mais endividado do país, mergulhado em denúncias, casos de corrupção envolvendo o último presidente eleito e uma estrutura administrativa que beira o colapso, encontrou no futebol um refúgio, uma trincheira de resistência.
Dorival Júnior blindou o elenco de tudo isso, após a queda de rendimento depois do título paulista com Ramón Díaz. Criou uma bolha. Fez o simples virar sofisticado. Transformou um grupo desacreditado em um verdadeiro Timão, no sentido mais literal da palavra: forte, solidário e impossível de ser empurrado para trás.
O Corinthians de Dorival não é um time de brilho individual exagerado ou de futebol plástico. É um time coeso, compacto, solidário e extremamente competitivo. Cada jogador sabe exatamente o que fazer, quando pressionar, quando baixar linhas, quando acelerar o jogo e, principalmente, como se ajudar.
A defesa funciona como um bloco, o meio-campo é combativo e inteligente, e o ataque é cirúrgico quando precisa ser. Esse Corinthians quase não joga bonito, mas joga sério sempre. E no futebol de alto nível, ser sério costuma resultar em títulos.
No meio desse processo, Dorival também mostrou sua principal virtude como treinador: potencializar jogadores. O surgimento de Breno Bidon é um símbolo disso. Um achado, um jogador que ganhou confiança, minutos e protagonismo, crescendo em jogos grande e dando sinais claros que pode se tornar um craque. Memphis Depay, a referência do time, encontrou no Corinthians um ambiente ideal para exercer liderança técnica e emocional, sendo decisivo quando mais importa. Yuri Alberto, tantas vezes questionado, virou o guerreiro do ataque, entregando não apenas gols, mas pressão e sacrifício coletivo.
Ainda mais emblemática é a evolução de jogadores que já estiveram bem em baixa. Matheus Bidu e Matheuzinho são exemplos claros do trabalho de recuperação feito por Dorival. Jogadores que já estiveram desacreditados, foram tratados com paciência, encaixados em um sistema que valoriza suas virtudes e protege suas limitações. Hoje, ambos são peças confiáveis e importantes dentro do esquema corintiano. Isso não é acaso.
Dorival Júnior forjou um Timão em batalhas diante de gigantes organizados

Os títulos não vieram em caminhos fáceis. Pelo contrário. O Corinthians de Dorival venceu quem estava no topo. Superou o poderoso Palmeiras e o Cruzeiro em uma trajetória duríssima na Copa do Brasil e, agora, bateu o Flamengo, apontado por todos como “o melhor time do Brasil”, na decisão da Supercopa. Não há discurso que sustente que esses resultados são sorte ou acaso. Eles são consequência direta de um trabalho de primeira prateleira.
Dorival Júnior conseguiu algo raríssimo no futebol brasileiro: criar um time que cresce em jogos grandes. Quanto maior o desafio, mais concentrado e competitivo o Corinthians se mostra. Isso é mentalidade vencedora. Isso é treino. Isso é filosofia de trabalho.
E o futuro, ao que tudo indica, promete ainda mais. Os novos reforços chegam para elevar o nível do elenco. Gabriel Paulista, que já deixou sua marca com gol em decisão, traz liderança, experiência internacional e solidez defensiva. Kaio Cesar agrega velocidade e profundidade pelos lados, oferecendo novas alternativas ofensivas. David Milans chega como peça de versatilidade, capaz de atuar em mais de uma função, enquanto Matheus Pereira é uma aposta que pode dar certo.
Com essas peças, Dorival ganha mais repertório, opções e capacidade de adaptação. O Corinthians tende a se tornar ainda mais competitivo, sem perder sua principal identidade: o jogo coletivo, solidário e aguerrido. Um Timão que não se intimida, que enfrenta qualquer adversário de igual para igual, mesmo quando tudo ao redor parece ruir.
O Corinthians atual é a prova viva de que o futebol ainda pode ser decidido no campo. Que um grande treinador, com ideias claras, liderança e leitura de grupo, ainda é capaz de desafiar estruturas milionárias, elencos badalados e projetos aparentemente muito mais corretos. Dorival Júnior fez do caos combustível e do Corinthians um Timão dentro de campo.
(Imagem de capa: Mauricio De Souza/AGIF)
