No início da temporada, o clima no centro de treinamentos de Kirkby era de confiança absoluta. Nas paredes, imagens de gols decisivos iam se acumulando como fonte de motivação diária para o elenco do Liverpool. Cada foto representava um momento de superação, quase sempre nos minutos finais, reforçando a ideia de um time mentalmente forte e fisicamente preparado para decidir partidas até o último segundo.
A primeira imagem foi a comemoração de Federico Chiesa, autor do gol aos 88 minutos contra o Bournemouth, em Anfield, na estreia da Premier League. Depois, veio Mohamed Salah fechando o placar nos acréscimos. Na rodada seguinte, o jovem Rio Ngumoha marcou aos 100 minutos no St James’ Park e garantiu uma vitória dramática sobre o Newcastle. Dominik Szoboszlai decidiu contra o Arsenal com uma falta aos 83 minutos, e Salah voltou a ser decisivo ao converter um pênalti aos 95 contra o Burnley, no Turf Moor.
Com cinco jogos, o Liverpool tinha 15 pontos, 100% de aproveitamento e liderava o campeonato. A narrativa parecia perfeita para Arne Slot, que acabara de assumir o lugar de Jurgen Klopp. Até na Champions League, a equipe venceu o Atlético de Madrid com um gol aos 92 minutos, apesar de ter desperdiçado uma vantagem de dois gols no Metropolitano.
De protagonistas do fim do jogo a vítimas do próprio roteiro
Cinco meses depois, aquele mural praticamente não ganhou novas imagens. O roteiro mudou, e de forma cruel. O Liverpool deixou de ser o time que decide nos acréscimos para se tornar aquele que sofre justamente nesse período.
Após o início avassalador, os Reds enfrentaram Crystal Palace, Chelsea e Manchester United na Premier League e, nos três jogos, sofreram gols decisivos a partir dos 84 minutos. No último domingo, em Anfield, Erling Haaland converteu um pênalti nos acréscimos e selou mais uma derrota tardia, desta vez contra o Manchester City.
Foi a quarta vez na temporada que o Liverpool sofreu um gol decisivo nos acréscimos no campeonato inglês, um recorde negativo. Apenas Burnley, Leeds e Newcastle sofreram mais gols nos últimos dez minutos de jogo somados aos acréscimos. Nenhuma equipe perdeu mais pontos nesse recorte do que o Liverpool: oito ao todo.
Esses pontos fariam a equipe dividir a terceira colocação com o Aston Villa. Em vez disso, o time ocupa apenas o sexto lugar, quatro pontos atrás do Chelsea, último integrante do G-5.
“Ficamos desleixados” e “cansamos”, admitem os jogadores
Virgil Van Dijk não fugiu da autocrítica ao longo da temporada. Após o empate com o Burnley, em janeiro, o zagueiro foi direto ao ponto. Disse que o time ficou “sloppy”, ou desleixado, depois dos 60 minutos, algo que não estava acontecendo pela primeira vez.
Dias depois, em Milão, o lateral Milos Kerkez reforçou o discurso. Segundo ele, o Liverpool perde foco e disciplina tática entre os 60 e 70 minutos, sem conseguir explicar exatamente o motivo. O cansaço aparece como hipótese mais evidente.
A ironia é que Arne Slot foi contratado justamente por sua fama de manter equipes fisicamente competitivas. No Feyenoord, ao lado do preparador Ruben Peeters, o treinador desenvolveu um modelo de treinos mais longos, porém menos intensos, com carga ajustada individualmente. Isso ajudou o Liverpool a ser campeão inglês na temporada passada com poucos desfalques.
Mudanças táticas, lesões e falta de profundidade
Neste ano, o cenário é diferente. O Liverpool sofreu com um aumento de lesões musculares e, em campo, passou a se expor mais. A ideia de atacar com muitos jogadores dentro da área deixou espaços para contra-ataques. Rivais passaram a explorar bolas longas, forçando duelos físicos e corridas em transição, algo que desgastou o elenco.
Slot tentou corrigir o problema com um sistema mais cauteloso, diminuindo o ritmo das partidas. O efeito colateral foi a dificuldade para marcar gols cedo, o que mantém os jogos abertos até o fim.
Contra o Manchester City, no Etihad Stadium, a diferença de elenco ficou clara. Pep Guardiola lançou Rayan Cherki e mudou o panorama ofensivo. Slot, por sua vez, só conseguiu responder com Curtis Jones no lugar de Cody Gakpo aos 85 minutos, além da entrada tardia de Chiesa.
Um Liverpool consciente dos problemas, mas sem soluções claras
O gol de Szoboszlai, um golaço de falta, deveria ter sido mais uma imagem no mural de Kirkby. Em outras temporadas, teria sido. Desta vez, não foi suficiente. O Liverpool liderou até os minutos finais e mesmo assim perdeu, algo inédito em 109 jogos de Premier League em Anfield quando marcava primeiro.
Historicamente, nenhum clube inglês marcou mais gols decisivos nos acréscimos do que o Liverpool. São 47, à frente de Arsenal e Manchester United. O problema é que, no presente, o clube está escrevendo um capítulo oposto da própria história.
Como resumiu Arne Slot após mais uma derrota tardia: o time está quase se acostumando a sofrer gols no fim. E esse, definitivamente, é o sinal mais preocupante da temporada.
