Há amores que simplesmente não acabam. Quem acompanha a Roma sabe exatamente do que estamos falando. Eles dão a volta, testam o tempo, vivem com o espaço, enfrentam silêncios incômodos… e voltam. Francesco Totti e o clube da capital italiana nunca deixaram de existir um no imaginário do outro, isso é algo que o mundo do futebol tem consciência e noção. E agora, tudo indica que esse reencontro histórico está cada vez mais próximo de se tornar oficial.
Nas últimas semanas, o Estádio Olímpico voltou a receber um rosto que jamais deveria ter se tornado visitante. Totti apareceu nas arquibancadas para acompanhar jogos da Roma, algo que não acontecia havia anos. E, como era de se esperar, bastou a imagem surgir no telão para o estádio vir abaixo. Aplausos, contos para a lenda e aquela sensação coletiva de que o tempo simplesmente deu uma pausa.
Um amor eterno que nunca foi embora
A trilha sonora perfeita para essa história vem de Antonello Venditti, voz eterna da Roma e da sua torcida. Em “Amici mai”, lançada em 1991, ele canta: “Certos amores não terminam nunca, dão voltas imensas e no fim retornam”. Não é um hino romanista, mas poderia ser, cairia como uma luva neste caso. Porque Francesco Totti é isso: um amor que nunca acabou.
O eterno capitão se despediu dos gramados em 2017, entre lágrimas dele e da Curva Sud. Foram quase 30 anos vestindo a mesma camisa, recusando propostas milionárias, levantando um Scudetto histórico e se tornando, para muitos, o maior símbolo de fidelidade do futebol moderno. O “Oitavo Rei de Roma” deixou o campo, mas jamais saiu do coração da cidade.
Após a aposentadoria, Totti assumiu um cargo diretivo durante a gestão de James Pallotta. A ideia parecia lógica: quem conhece mais a Roma do que Francesco Totti? Mas a realidade foi bem menos romântica. Em 2019, ele deixou o clube de forma abrupta, durante uma coletiva no CONI, alegando divergências profundas com a diretoria, algo que não ajudou nenhum pouco a quem ficou, porque simplesmente se encontravam do lado contrário a uma lenda da equipe.
Na época, Totti foi claro e duro. Disse que estava completamente excluído das decisões técnicas e operacionais e que sua permanência havia se tornado “inimaginável”. Aquela saída marcou uma ruptura dolorosa. Desde então, Roma e Totti seguiram caminhos paralelos, quase como dois ex-amores que evitam cruzar olhares para não reabrir feridas.
O reencontro no Olímpico e os primeiros sinais
Mas, como todo grande romance, o destino gosta de dar uma ajudinha, um empurrãozinho. A primeira grande pista surgiu quando Totti voltou ao Olímpico para acompanhar a Roma na Europa League contra o Stuttgart. Pouco depois, esteve presente também no jogo da Serie A diante do Cagliari. Coincidência? Difícil acreditar.
Entre uma aparição e outra, surgiram declarações que jogaram ainda mais lenha na fogueira da esperança romanista, dando mais corda ainda para todos que acreditam em fofocas, sinais, e em finais felizes. Claudio Ranieri, hoje senior advisor do clube, admitiu publicamente que a diretoria está refletindo sobre um possível retorno de Totti em um novo papel.
E não foi só isso. Em campo, o impacto foi sentido. Donyell Malen, autor de dois gols na vitória pela liga, resumiu o sentimento geral:
“É lindo marcar um gol no estilo Totti no estádio de Totti. Eu sabia que ele estava ali. Vi muitos gols dele no passado.”
Não é só nostalgia. É presença, acaba falando por si só no final das contas.
Friedkin, centenário e o timing perfeito
O momento não poderia ser mais simbólico. Em setembro, Francesco Totti completa 50 anos. Em 2027, a Roma celebrará seu centenário. Paralelamente, o clube avança nos planos para a construção do novo estádio em Pietralata, um projeto que representa uma nova era institucional.
Para os Friedkin, donos do clube, esse contexto cria o cenário ideal para resgatar a maior figura da história romanista. Frederic Massara, diretor esportivo, deixou isso bem claro em entrevista à Sky Sports:
“Totti é a história deste clube. Ele tem uma excelente relação com os Friedkin, e eles saberão quando será o momento certo para trazê-lo de volta.”
Nos bastidores, o diálogo já existe. E não é de agora.
Qual será o papel de Totti na nova Roma?
Esse é o ponto mais delicado, e também o mais interessante. A diretoria não quer um retorno simbólico, protocolar ou apenas emocional. A ideia é estruturar um cargo claro, com funções definidas e responsabilidades reais. Nada de confusão, nada de interferências mal explicadas.
Entre as possibilidades estudadas, Totti poderia atuar como uma espécie de elo entre treinador, diretor esportivo e diretoria. Um “diretor técnico” à moda antiga, alguém que entende o vestiário, o peso da camisa e o que significa jogar pela Roma. Uma realidade meio semelhante com a de Zlatan Ibrahimovic no Milan, mas é claro, não dá para companhar o tamanho dos dois para os seus respectivos times.
Outra opção é que ele atue diretamente ao lado de Massara, auxiliando em estratégias de mercado, avaliação de jogadores e até processos de scouting. Afinal, poucos conhecem tão bem o DNA romanista quanto ele.
O retorno de Totti acaba indo muito além da bola. É sobre identidade, pertencimento e reconexão com a própria história. Em um futebol cada vez mais corporativo, ter um símbolo vivo dentro do clube é um diferencial enorme, especialmente para uma torcida que valoriza tanto a alma quanto os resultados.
Ainda não há anúncio oficial, data ou cargo confirmado. Mas os sinais estão todos ali. Visitas ao estádio, falas públicas, contatos nos bastidores e um timing quase cinematográfico.
Se certos amores realmente nunca terminam, a Roma está prestes a provar isso mais uma vez. E Francesco Totti, finalmente, pode voltar para casa.
Foto: Divulgação/Gazzetta

