A Ferrari voltou ao centro do debate na Fórmula 1 de 2026. Desta vez, não por inovações técnicas ou performances surpreendentes, mas por uma filosofia enraizada que pode estar custando títulos à equipe mais famosa da categoria. A mentalidade “Win-or-Nothing (Ganhar ou Nada) que define a cultura da Ferrari pode estar atrapalhando o desenvolvimento eficiente e penalizando o desempenho da Scuderia em uma era em que a consistência e a adaptação se tornaram tão importantes quanto o ímpeto por vitórias absolutas.
No início da temporada, o novo Ferrari SF-26 suscitou otimismo entre a torcida e até entre os pilotos. Lewis Hamilton, recém-chegado à equipe, elogiou a “mentalidade vencedora” predominante em Maranello após a sessão de testes em Barcelona, sugerindo que havia uma energia e uma crença internas de que a Ferrari poderia rivalizar com os melhores, como a Mercedes, por exemplo.
Entretanto, esse entusiasmo pode mascarar uma dificuldade mais profunda: replicar consistência e progresso técnico ao longo de uma temporada inteira. Historicamente, a Ferrari frequentemente começa forte em testes, mas perde competitividade sob o peso das exigências reais de corrida — um padrão que está ligado à cultura de grandes expectativas e pouca paciência para objetivos parciais ou programas de desenvolvimento adaptativo.
Cultura de “tudo ou nada” x realidade competitiva
O conceito de “vença ou não venha” remonta aos primórdios da própria Ferrari, moldado por uma obsessão de Enzo Ferrari com a vitória a qualquer preço. Essa filosofia tão extrema, embora parte importante da identidade da marca, pode ser contraproducente no atual cenário de Fórmula 1 — onde a eficácia de estratégias, o progresso tecnológico incremental e a gestão racional de recursos pesam tanto quanto o desejo de triunfar.
Essa mentalidade também pode ter afetado a recepção de Lewis Hamilton, cuja reputação como um dos maiores da história já foi colocada à prova em 2025. O britânico terminou a temporada sem um pódio de Grande Prêmio — algo inédito em sua carreira. Parte desse resultado se deve não apenas às características do carro, mas às dificuldades de adaptação a processos internos mais rígidos e tradicionais na Ferrari.
Assim, a forma como a Ferrari estrutura seus processos e tomada de decisões pode criar inércia organizacional: uma resistência, mesmo inconsciente, a mudanças rápidas necessárias para ajeitar um carro durante a própria temporada. E quando os resultados esperados não aparecem, essa pressão interna pode levar à histeria coletiva — uma tendência humana de “forçar” ainda mais tentativas de vitória no curto prazo, em vez de se concentrar em progresso estável.
Oportunidade e risco em 2026
O novo ciclo de regulamentos em 2026 pode ser uma chance de recomeço. A chegada de uma nova normativa e o desenvolvimento de motores renovados oferecem um terreno fértil para a Ferrari tentar reescrever a narrativa e fazer valer sua história de vitórias.
Ainda assim, o risco de que tanto Hamilton quanto Charles Leclerc possam frustrar suas ambições — e, eventualmente, considerar outras oportunidades fora de Maranello — está presente. A temporada de 2026 será um termômetro crítico: ou a Ferrari converte sua enorme paixão e tradição em vitórias consistentes, ou continuará a ser lembrada como um quase eterno desafiante.
O desafio da Ferrari em 2026, portanto, vai muito além de velocidade em pista — trata-se de uma cultura que talvez precise evoluir tanto quanto seus carros.
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