A possível chegada de Jesse Lingard ao Corinthians representa um movimento que mistura oportunidade de mercado e risco esportivo. Aos 33 anos, o meia-atacante inglês vive uma fase completamente diferente daquela que o colocou como peça importante do Manchester United e da seleção inglesa entre 2017 e 2019.
Depois de temporadas marcadas por irregularidade, perda de espaço na elite europeia e uma passagem discreta pelo FC Seoul, Lingard surge como uma contratação que exige análise cuidadosa sobre seu momento técnico, físico e mental.
Durante seu auge no Manchester United, Lingard se destacou pela mobilidade, intensidade sem bola e capacidade de atacar espaços, características muito valorizadas no futebol moderno. Na temporada 2017/18, por exemplo, ele disputou 48 partidas, marcou 13 gols e distribuiu seis assistências, números expressivos para um jogador que atuava majoritariamente como meia avançado ou ponta de movimentação.
Mais do que os números, sua importância estava na função tática: Lingard era o jogador que equilibrava pressão, transição ofensiva e recomposição defensiva. Tinha boa visão de jogo e capacidade de drible.
Entretanto, a partir de 2019, sua produção caiu drasticamente. Entre 2019 e 2021, Lingard marcou apenas dois gols em mais de 70 jogos pelo Manchester United, reflexo de uma perda de confiança e também de mudanças táticas que reduziram sua relevância no elenco.
O ponto fora da curva nesse período aconteceu durante o empréstimo ao West Ham United, em 2021, quando viveu um curto renascimento: foram nove gols e quatro assistências em apenas 16 jogos na Premier League. Esse desempenho mostrou que, em um sistema que lhe oferecesse liberdade para atacar espaços e jogar próximo da área, Lingard ainda conseguia produzir em alto nível.
Mesmo assim, a retomada não se sustentou. Após retornar ao Manchester United e, posteriormente, transferir-se para o Nottingham Forest, o inglês voltou a apresentar números modestos. No Forest, disputou 20 partidas e não marcou gols, além de sofrer com problemas físicos e irregularidade técnica. A partir desse momento, sua carreira entrou em uma fase clara de transição.
A ida para o FC Seoul, em 2024, representou uma tentativa de recomeço fora do eixo principal do futebol europeu. Em duas temporadas no futebol sul-coreano, Lingard somou cerca de 60 jogos e 15 gols, números razoáveis, mas distantes do impacto esperado para um atleta com seu histórico.

Além disso, a influência de Lingard dentro dos jogos oscilou bastante: alternava partidas em que mostrava qualidade técnica e visão de jogo com atuações apagadas, especialmente quando o ritmo físico aumentava. Esse fator é crucial para entender o momento atual do jogador.
O encaixe possível de Lingard no Corinthians
O interesse do Corinthians por Lingard está diretamente ligado a um movimento recente do clube: aumentar o nível técnico do setor ofensivo através de jogadores com experiência internacional. Nesse contexto, a presença de Memphis Depay e Zakaria Labyad ajuda a explicar a aposta no inglês.
O objetivo parece claro: criar um núcleo ofensivo com leitura tática europeia, maior repertório técnico e versatilidade posicional, enquanto combina visibilidade e inúmeras possibilidades de faturar com marketing.
Mesmo em declínio físico, Lingard ainda apresenta características interessantes para o futebol brasileiro. Sua principal qualidade continua sendo o timing de infiltração. Ele não é um meia organizador clássico, mas sim um jogador de aceleração curta, que se movimenta entre linhas e finaliza bem quando pisa na área.
Em um cenário onde Memphis Depay tende a atuar como referência móvel, Lingard pode funcionar como elemento de conexão e chegada surpresa, sendo uma alternativa para Garro ou Breno Bidon, que não deve ficar muito tempo no Timão.
Outro ponto importante é o ritmo de jogo. O futebol brasileiro oferece mais espaço e menor intensidade média quando comparado às grandes ligas europeias. Isso pode favorecer Lingard, que atualmente não sustenta mais o mesmo nível físico para atuar em sistemas de pressão constante. Em jogos com mais transições e espaços intermediários, ele ainda consegue ser útil.
Por outro lado, existem riscos claros. O principal deles é a consistência. Nos últimos cinco anos, Lingard apresentou apenas um período realmente produtivo, justamente o curto empréstimo ao West Ham. Além disso, sua minutagem recente mostra queda progressiva.
No FC Seoul, por exemplo, ele raramente completava 90 minutos com regularidade, o que indica necessidade de gestão física. E o pior, isso em uma liga menos competitiva do que a brasileira e sem chegadas mais fortes de adversários.
Taticamente, o Corinthians também precisará adaptar o sistema para extrair o melhor do inglês. Lingard rende mais quando atua centralizado ou partindo do lado direito para dentro, com liberdade para atacar o espaço sem responsabilidade constante de criação. Se for utilizado como armador fixo, sua produção tende a cair.
A possível contratação, portanto, não deve ser vista como a chegada de um protagonista absoluto, mas sim como uma aposta estratégica. O Corinthians busca agregar experiência internacional e aumentar o repertório ofensivo, enquanto Lingard enxerga no futebol brasileiro uma oportunidade de reconstruir sua carreira em um ambiente competitivo, porém menos exigente fisicamente do que a elite europeia.
Se conseguir manter regularidade física e atuar em um sistema que potencialize sua movimentação sem bola, Lingard ainda pode ser uma peça relevante. Caso contrário, o risco é repetir o padrão recente: lampejos técnicos sem continuidade.
Para o Corinthians, o desafio será transformar um nome de impacto em rendimento consistente dentro de campo, como fez com Memphis Depay e pretende fazer com o recém-chegado Labyad. Se Lingard é uma incógnita dentro de campo, sobre o ponto de vista midiático, a curiosidade é certa.
(Imagem de capa: Getty Images)



