A possível venda de André para o Milan escancarou um conflito estrutural dentro do Corinthians: de um lado, a visão esportiva defendida por Dorival Júnior; do outro, a condução administrativa da diretoria, representada publicamente por Marcelo Paz. E, diante do cenário, é difícil não concluir que o treinador está correto, tanto na análise técnica quanto na crítica implícita à condução do clube.
Dorival foi claro após a eliminação no Campeonato Paulista: não veio ao Corinthians para “refazer equipes a todo momento”. A frase não é apenas um desabafo emocional pós-derrota. Ela revela uma preocupação estrutural. O técnico entende que a formação de um time competitivo exige continuidade, maturação e estabilidade. Vender um jovem talento com pouquíssimos jogos como profissional não é apenas abrir mão de um ativo, é interromper um processo técnico antes que ele atinja seu ápice.
André ainda está em fase de consolidação. Volantes, especialmente os que desempenham funções híbridas entre marcação e construção, costumam atingir maturidade plena apenas após sequência consistente de jogos. Ao negociá-lo agora, o Corinthians não apenas reduz seu potencial esportivo imediato, como também limita a possibilidade de valorização futura. O futebol brasileiro já viu inúmeros exemplos de atletas que dobraram ou triplicaram seu valor de mercado após uma temporada sólida como titulares.
Dorival enxerga isso. Ele compreende que o Corinthians precisa formar um núcleo competitivo capaz de disputar títulos, e não apenas sobreviver financeiramente. Um clube do tamanho do Corinthians não pode assumir postura de vitrine apressada. Precisa ser protagonista. Precisa estabelecer o momento da venda, e não reagir a ele.
O amadorismo da diretoria do Corinthians
É nesse ponto que a fala de Marcelo Paz se torna ainda mais preocupante. Sua declaração mostra que o Corinthians não sabe valorizar um jogador, e o dirigente não apenas tentou contextualizar a negociação. Ele expôs um nível de improviso que beira o amadorismo. Em um mercado globalizado, onde clubes europeus operam com departamentos de análise, métricas avançadas e projeções financeiras detalhadas, admitir desconhecimento sobre o valor do próprio ativo é alarmante.
Valor de mercado não é número subjetivo. Ele pode variar, claro, mas é estimado com base em idade, posição, potencial técnico, tempo de contrato, interesse de outros clubes, contexto competitivo e projeções de desenvolvimento. Não dominar essas variáveis significa negociar em desvantagem. Significa permitir que o comprador dite os termos.
Quando um dirigente afirma publicamente que não sabe se o valor oferecido é adequado, a mensagem enviada ao mercado é devastadora: o clube não tem convicção sobre o próprio patrimônio. Isso fragiliza futuras negociações, enfraquece poder de barganha e transmite insegurança institucional.
O contraponto (e a sensatez) de Dorival
Dorival, ao contrário, demonstrou clareza estratégica. Ele sabe que estabilidade técnica gera resultado esportivo, e resultado esportivo gera valorização financeira. Vender por necessidade imediata pode aliviar o caixa, mas não constrói projeto. E o Corinthians precisa de projeto.
A crítica de Dorival não é contra vendas. Todo clube brasileiro vende. A questão é o momento e a estratégia. Jogadores jovens precisam atingir estágio mínimo de consolidação antes de serem negociados, tanto para retorno técnico quanto financeiro. Manter André por mais uma temporada poderia representar ganho esportivo imediato e valorização significativa em caso de convocação para seleções de base ou destaque em competições nacionais.
A diretoria, ao priorizar a venda agora, parece agir mais pela urgência financeira do que por planejamento estruturado. E urgência constante não pode ser modelo de gestão. Clubes organizados antecipam necessidades de caixa, estruturam contratos longos e definem metas claras de desenvolvimento e venda.
A declaração de Marcelo Paz reforça essa percepção de improviso. Em vez de demonstrar domínio sobre o ativo, a entrevista revelou insegurança. Em um ambiente profissionalizado como o futebol atual, isso é inadmissível. Grandes clubes europeus monitoram cada variável antes de formalizar proposta. O Corinthians deveria fazer o mesmo antes de aceitar.
Dorival está certo porque pensa futebol como processo. Porque entende que competitividade contínua gera receita sustentável. Porque sabe que a torcida não se satisfaz apenas com balanços equilibrados. Ela quer títulos, identidade e projeto de longo prazo.
A venda de André pode até se concretizar e gerar receita significativa. Mas a maneira como está sendo conduzida levanta questionamentos profundos sobre governança, planejamento e visão estratégica. O Corinthians não pode agir como clube que apenas reage a ofertas. Precisa agir como instituição que define seu próprio valor.
Ao se posicionar publicamente, Dorival assume risco político. Técnicos raramente confrontam diretoria de forma tão clara. Mas sua fala ecoa sentimento de parte da torcida: é preciso parar de desmontar elencos em formação antes que eles amadureçam.
No fim, o debate vai além de um jogador específico. Trata-se de identidade institucional. O Corinthians quer ser protagonista esportivo ou fornecedor recorrente de talentos em fase embrionária? Quer construir ciclos vencedores ou equilibrar contas a cada janela?
Se a diretoria não sabe o valor de mercado de André, talvez o problema seja mais profundo do que uma simples negociação. Talvez seja reflexo de gestão que ainda não compreendeu plenamente o tamanho do clube que administra. E, nesse contexto, Dorival Júnior não apenas está certo. Ele está defendendo algo que deveria ser óbvio: planejamento, coerência e respeito ao projeto esportivo.
Marcello Zambrana/AGIF