Bap Flamengo
Futebol Brasileirão

O que aconteceria se o Flamengo fosse comandado por pessoas que entendem de futebol?

É uma pergunta simples. Quase ingênua. O que aconteceria se o Flamengo fosse comandado por pessoas que realmente entendem de futebol? Não de marketing. Não de política interna. Não de guerra de ego em coletiva. Mas de futebol. Da bola rolando. Da construção de elenco. De ciclo esportivo. De timing.

A resposta, ironicamente, é óbvia: o Flamengo seria dominante. Não por acaso, não por impulso financeiro, não por uma arrancada emocional. Dominante de maneira estrutural. Um clube com orçamento bilionário, torcida gigante, CT de ponta e poder de atração continental deveria viver ciclos longos de hegemonia. Deveria transformar finais em rotina. Deveria planejar títulos, não reagir a crises.

Mas o Flamengo parece ter desenvolvido um talento raro: sabotar a si próprio.

A demissão de Filipe Luís é a exposição do amadorismo

Quando demite treinadores no calor do momento, mesmo aqueles que entregaram resultados expressivos, o clube não passa a mensagem de exigência. Passa a mensagem de instabilidade. A saída de Filipe Luís, por exemplo, foi um sintoma. A ruptura ocorreu sem coerência esportiva clara, sem um plano visível de sucessão, sem explicação técnica convincente. O Flamengo não age como quem constrói projeto. Age como quem reage à manchete do dia seguinte.

E não é caso isolado. Basta lembrar a saída de Dorival Júnior. Em vez de consolidar um ciclo, optou-se por recomeçar, mais uma vez, sob a lógica de que sempre existe algo “melhor” disponível no mercado. O resultado? Reinícios constantes. Ajustes intermináveis. E uma sensação de que o clube vive em permanente transição, mesmo quando deveria estar colhendo estabilidade.

Se fosse comandado por pessoas que entendem futebol, o Flamengo entenderia algo básico: continuidade gera identidade. Identidade gera desempenho sustentável. E desempenho sustentável gera títulos.

Mas o problema não para nas demissões. Ele se expande para as declarações performáticas que custam caro — literalmente.

Quando o presidente Luiz Eduardo Baptista, o Bap, fala publicamente sobre ter cifras astronômicas para gastar e sobre “ganhar tudo”, ele não fortalece o clube. Ele infla o mercado contra o próprio Flamengo. Nenhum dirigente experiente anuncia poder de fogo antes de sentar à mesa. Isso transforma negociações em leilões. E leilões raramente favorecem quem compra.

É nesse contexto que surgem contratações inflacionadas. O exemplo mais simbólico foi o retorno de Lucas Paquetá por cerca de 42 milhões de euros. Um valor que ultrapassava com folga qualquer avaliação racional de mercado. Paquetá é talentoso? Sim. Mas 42 milhões por um atleta que não valia nem 25? Isso não é visão estratégica. É movimento guiado por narrativa, por marketing, por necessidade de impacto imediato.

Um clube comandado por especialistas em futebol teria feito perguntas simples: encaixa no sistema? Resolve carência estrutural? Está no auge físico? Há alternativas mais eficientes por valor inferior? Mas quando o discurso público é movido por ego e demonstração de poder, o critério técnico perde espaço para a simbologia.

Como se não bastasse, houve ainda a declaração de José Boto de que, “com dinheiro, o scouting não é determinante”. Essa frase, isoladamente, já seria preocupante. Em um clube do tamanho do Flamengo, ela é assustadora. Scouting não é luxo. É ferramenta básica de gestão moderna. É o que impede erros caros. É o que transforma orçamento alto em elenco inteligente, não apenas caro.

Ignorar scouting porque há dinheiro é como dizer que planejamento é dispensável quando o caixa está cheio. É justamente o contrário. Quanto maior o orçamento, maior deve ser o rigor. Caso contrário, você não monta um supertime, monta um mosaico de talentos desconectados.

Flamengo pode viver 2026 à deriva, e qual será a desculpa?

O Flamengo tem estrutura para dominar. Tem receita, torcida, visibilidade e capacidade de atrair jogadores que outros clubes brasileiros sequer sonham negociar. Mas em vez de maximizar essa vantagem, frequentemente a dilui em decisões impulsivas.

Um clube comandado por quem entende futebol saberia que hegemonia não se constrói com manchetes. Se constrói com coerência. Não demitiria técnicos por pressão momentânea. Não transformaria coletiva em palco de bravata financeira. Não pagaria sobrepreço apenas para provar força no mercado.

Saberia, também, que futebol é ciclo. Que derrotas fazem parte. Que o importante não é reagir a cada tropeço, mas entender a trajetória. Manter a espinha dorsal. Ajustar pontualmente. Blindar o elenco de ruído político.

O Flamengo poderia ser o Bayern do Brasil. O Manchester City sul-americano. Poderia impor padrão técnico tão alto que finais se tornariam quase protocolo. Em vez disso, alterna momentos de brilho com reinícios abruptos.

O mais irônico é que o clube prova, vez ou outra, que sabe fazer certo. Quando acerta treinador, quando escolhe reforços por necessidade tática, quando dá tempo ao processo, o resultado aparece. Mas a constância escapa. Porque a gestão parece oscilar entre profissionalismo e vaidade.

Se fosse comandado por pessoas que entendem futebol, o Flamengo provavelmente seria menos barulhento fora de campo, e muito mais implacável dentro dele. Haveria menos declarações de impacto e mais planejamento silencioso. Menos demissões e mais continuidade. Menos contratações midiáticas e mais encaixe técnico.

O potencial está lá. O dinheiro está lá. A torcida está lá. O que falta, talvez, é algo mais simples e mais difícil ao mesmo tempo: gestão com humildade técnica.

Porque, no fim das contas, o Flamengo não é impedido pelos rivais. É frequentemente impedido por ele mesmo.

(Foto: Reprodução/Flamengo TV)