Durante boa parte da última década, dominar a posse de bola virou quase sinônimo de controlar uma partida na Premier League. A influência de Pep Guardiola e do Manchester City ajudou a transformar o futebol inglês, com equipes cada vez mais preocupadas em manter a bola, empurrar o adversário para trás e reduzir os riscos defensivos por meio do controle territorial.
Os números da atual temporada, porém, levantam uma questão interessante. Nos primeiros 50 jogos da Premier League, os times que registraram pelo menos 60% de posse venceram apenas 36,4% dessas partidas. Em 2023/24, o aproveitamento era bem maior: 53,5%.
Isso significa que o futebol de posse está desaparecendo? Não necessariamente. Muitas equipes terminam com menos bola porque conseguem abrir o placar cedo e passam a explorar os espaços deixados pelo adversário. Ainda assim, existe uma mudança clara na maneira como diferentes times estão tentando controlar os jogos.
O Chelsea de Xabi Alonso é um dos exemplos mais interessantes. Os Blues venceram Fulham por 3 a 2 e Brighton por 4 a 3 mesmo ficando menos tempo com a bola. Depois, quando tiveram bastante posse diante de Hull e Brentford, empataram com o primeiro e foram derrotados pelo segundo na Premier League.
Chelsea mostra como menos posse pode ser mais eficiente
Contra o Brighton, o Chelsea teve apenas 25,6% de posse e completou 146 passes, seus menores números em uma partida de Premier League desde que esses dados começaram a ser registrados, em 2003/04. Apesar disso, marcou quatro gols.
Três deles nasceram de jogadas em que a equipe acelerou rapidamente, seja após cobranças de lateral ou em contra-ataques. Ao atacar antes que o Brighton conseguisse reorganizar sua defesa, o Chelsea conseguiu aproveitar espaços muito maiores.
O perfil do setor ofensivo também favorece esse estilo. João Pedro, Cole Palmer, Pedro Neto e Morgan Rogers possuem características que combinam com um futebol de transições, velocidade e conduções em direção ao gol.
O problema aparece quando grandes equipes precisam enfrentar adversários completamente fechados na Premier League. Clubes como Chelsea e Manchester United carregam uma expectativa de controlar partidas com a bola. Porém, nem sempre os jogadores disponíveis conseguem ser tão eficientes diante de defesas compactas quanto são atacando espaços.

Grandes clubes enfrentam um dilema de estilo
O Manchester United de Michael Carrick também apresenta números curiosos. A equipe possui média de 1,5 ponto por jogo quando termina com mais de 50% de posse. Quando tem menos da metade da bola, essa média sobe para 2,6 pontos.
Equipes como Brentford, Leeds e Hull não convivem com a mesma cobrança. Elas podem entregar a posse, proteger a própria área e montar seus elencos pensando justamente em contra-ataques, bolas paradas e jogadores capazes de defender grandes períodos sem a bola.
A tabela da Premier League reforça essa variedade. Manchester City possui média de 63,2% de posse, Brighton chega a 64,8% e Arsenal tem 59,8%. Ao mesmo tempo, Brentford aparece com 45,2%, Leeds com 45,4%, Everton com 43,7% e Hull com somente 32,2%.
Ou seja, não existe apenas um caminho para vencer. O mais importante passou a ser montar um estilo que potencialize as características do elenco. Ter a bola continua sendo valioso, mas posse sem soluções ofensivas pode acabar significando pouco.

Pressão homem a homem mudou a Premier League
Outro fator importante é a evolução das estratégias defensivas. Nos últimos anos, cresceu o uso de pressão individual, dificultando bastante a saída curta desde a defesa. Como resposta, as equipes começaram a procurar maneiras diferentes de superar a primeira linha de marcação.
Uma delas é utilizar lançamentos mais longos. Outra é encontrar jogadores capazes de receber e carregar a bola por vários metros, como Nico O’Reilly, do Manchester City, ou Declan Rice, do Arsenal na Premier League.
Essas soluções funcionam muito bem contra pressão alta, mas podem criar outro problema. Times montados com jogadores físicos e fortes em grandes espaços nem sempre possuem o mesmo número de atletas capazes de combinar rapidamente diante de uma defesa fechada.
A marcação individual também aparece mais perto da área. Quando praticamente todos os jogadores estão acompanhados, encontrar um homem livre se torna mais difícil. Nessas situações, dribladores e jogadores capazes de vencer duelos de um contra um passam a ter ainda mais importância.
Arsenal consegue jogar de maneiras diferentes
O Arsenal apresenta um bom exemplo de equilíbrio. A equipe conta com jogadores como Bukayo Saka e Max Dowman, capazes de quebrar linhas através do drible, além de meias com grande capacidade de passe.
Martin Odegaard, Martin Zubimendi, Bruno Guimarães e Christos Tzolis oferecem diferentes formas de atacar adversários fechados na Premier League.
Quando abre o placar, porém, o Arsenal também sabe diminuir seu controle sobre a bola. Sua posse cai de 60,4% para 56,6% quando está vencendo, permitindo que jogadores defensivos assumam maior responsabilidade na proteção do resultado na Premier League.
O Manchester City segue uma lógica diferente. Mesmo quando está na frente, mantém 64,9% de posse. É uma herança do estilo desenvolvido por Guardiola e agora mantido por Enzo Maresca: em vez de defender repetidamente perto da própria área, a equipe tenta proteger a vantagem ficando com a bola.

Controlar o jogo não significa necessariamente ter a bola
O próprio Chelsea mostra como o placar pode alterar completamente os números. Nos primeiros cinco jogos, os Blues tiveram 51,4% de posse quando a partida estava empatada, apenas 34,5% quando estavam vencendo e 67,2% quando precisavam buscar o resultado.
Isso explica por que analisar apenas a posse final pode ser enganoso. Uma equipe pode ter pouca bola porque marcou cedo e encontrou exatamente o cenário que desejava: adversários avançando e deixando espaços para contra-ataques.
No fundo, o futebol vencedor continua buscando a mesma coisa: levar a partida para um cenário confortável para seus jogadores e desconfortável para o adversário. Algumas equipes conseguem isso mantendo a bola. Outras fazem exatamente o contrário.
Por isso, o futebol de posse provavelmente não está desaparecendo da Premier League. O que parece estar mudando é a ideia de que dominar a bola automaticamente significa dominar o jogo. Em 2026, os times mais completos são justamente aqueles capazes de encontrar soluções tanto em espaços pequenos quanto em campos abertos.



