Se você piscou, talvez tenha perdido um dos surgimentos mais interessantes do Santos nos últimos tempos. Gabriel Bontempo não é, e nunca foi aquele jogador de capa de jornal, muito menos de chuva de highlights no TikTok. Não tem números exuberantes, não vive de jogadas plásticas e tampouco carrega o rótulo de craque em formação.
Mas tem algo que, no futebol brasileiro atual, parece cada vez mais raro: faz o time jogar. E talvez seja exatamente por isso que ele esteja sendo negligenciado.
Na temporada passada, Bontempo apareceu sem fazer barulho e, quando se percebeu, já era uma peça útil dentro da rotação. Foram cerca de 25 jogos na Série A, com menos de dez como titular, mas com uma minutagem relevante que beirou os mil minutos em campo. Não era protagonista, mas também nunca foi um simples coadjuvante. Era o tipo de jogador que melhorava o coletivo, que dava fluidez e que ajudava o time a funcionar.
Só que, no Santos, aparentemente, ser funcional não garante espaço, não parece ser o suficiente, ainda mais numa equipe que tem entregue bom pouco em 2026.
O cenário atual escancara isso de forma clara. O meio-campo titular gira em torno de Willian Arão, Christian Oliva e Neymar. É um trio que, no papel, entrega experiência, intensidade e talento individual. Na prática, porém, deixa um vazio evidente naquilo que mais sustenta um time competitivo: organização.
Arão oferece liderança e leitura defensiva, mas não é um articulador, se apresenta bem longe desta realidade. Oliva agrega intensidade e combate, mas não dita o ritmo, é o atleta que leva as coisas mais para o físico. Neymar, mesmo sendo o jogador mais talentoso do elenco, não tem muita fisicalidade, então muitas vezes, seus pontos positivos, apresentam negativos para o restante do grupo. Ele resolve jogos, mas não necessariamente constrói o jogo de forma contínua.
O resultado disso é um meio-campo desequilibrado, está longe de se redondo, muitos menos consistentemente positivo.
O Santos virou um time que corre, mas não controla. Que tenta acelerar, mas não sabe quando pausar. Que depende de talento individual, mas não constrói coletivamente. Em muitos momentos, a equipe parece perdida dentro das próprias ideias, sem um fio condutor claro que organize as ações.
E é justamente nesse cenário que a ausência de Bontempo se torna ainda mais difícil de entender.
Um meio-campo que não se sustenta
A insistência no trio titular não se explica pelo desempenho, o que com certeza faz os torcedores esgoelarem na Vila Belmiro pela entrada de Gabriel Bontempo, o que tem sido recorrente. Pelo contrário, ela escancara um problema estrutural. O Santos montou um meio-campo que, na teoria, cobre funções básicas, mas que na prática não se complementa.
Falta alguém que organize o jogo, mas também, consiga ocupar espaços, e Neymar não tem tido a sequência necessária para ser esse cara, no passado, até poderia se imaginar, mas atualmente é impossível. Falta alguém que dê ritmo. Falta alguém que conecte as ações de forma natural. E esse alguém está no elenco.
Bontempo é o tipo de jogador que ocupa espaços com inteligência, facilita a saída de bola e aproxima os setores. Ele não aparece tanto para o torcedor mais apressado, mas é o tipo de peça que melhora o coletivo sem precisar dominar a narrativa do jogo.
Mesmo assim, segue fora. A leitura que fica é incômoda: o Santos prefere insistir em um modelo que não funciona plenamente do que ajustar o time para aproveitar um jogador que pode justamente corrigir esse desequilíbrio. Não é falta de opção. É escolha.
E, até aqui, uma escolha difícil de defender.
Bontempo e a chance do Santos de não errar de novo
Os números recentes ajudam a reforçar essa sensação. Em 2026, Bontempo segue com minutagem limitada, raramente começando entre os titulares e sem conseguir construir sequência. Sua última aparição mais relevante veio no empate em 2 a 2 contra o Mirassol, novamente participando sem assumir protagonismo. É sempre o mesmo roteiro: entra, mantém o nível, mas nunca se torna prioridade.
E sem prioridade, não há consolidação.
Com a chegada de Cuca, surge uma oportunidade de mudança. O treinador costuma valorizar jogadores com inteligência tática e capacidade de organização, o que naturalmente recoloca Bontempo no radar. Ainda assim, não existe garantia de espaço, porque o problema do Santos não tem sido apenas técnico, tem sido de leitura.
E é aí que mora o risco.
O clube pode simplesmente repetir um padrão já conhecido no futebol brasileiro: ter um jogador útil, promissor, pronto para dar um passo além… e não saber o que fazer com ele. Bontempo já mostrou que pode contribuir. Já mostrou que pode elevar o nível coletivo.
Mas segue sendo tratado como alternativa. No fim das contas, a situação não é sobre potencial. Isso ele já provou que tem. É sobre decisão.
E, até aqui, o Santos parece estar decidindo ignorar justamente o jogador que poderia ajudar o time a deixar de parecer perdido em campo.
Foto: Raul Baretta/Santos