As recentes declarações de Virna Jandiroba ao site MMA Fighting reacendem um debate antigo, mas cada vez mais atual: afinal, o que o público espera do MMA? Em um cenário onde o entretenimento muitas vezes parece sobrepor a técnica, a brasileira foi direta ao ponto ao classificar como “triste e absurdo” o crescente desdém de parte dos fãs e analistas pelo grappling, justamente um dos pilares fundamentais das artes marciais mistas.
Mais do que uma simples reclamação, o posicionamento de Jandiroba escancara um conflito entre essência e espetáculo. E, neste caso, é impossível não concordar com ela. O MMA existe para mostrar a supremacia entre todas as artes marciais e o grappling é chave nisso.
A lutadora, faixa-preta de jiu-jítsu e uma das principais especialistas na arte suave dentro do UFC, destacou que o MMA está caminhando perigosamente para privilegiar o entretenimento em detrimento da excelência técnica.
Segundo Jandiroba, há uma tendência crescente de críticas a atletas que dominam adversários no solo, mesmo quando executam performances impecáveis sob o ponto de vista técnico. E realmente isso vem acontecendo de forma constante.
Virna Jandiroba citou, inclusive, exemplos de lutadores consagrados, como Demian Maia e Charles Oliveira, para reforçar que o grappling sempre foi parte essencial do mais alto nível do esporte. Entretanto, o problema não é a luta agarrada, é a expectativa do público.
O incômodo levantado por Jandiroba não surge do nada. Nos últimos anos, consolidou-se uma cultura de valorização quase exclusiva do nocaute, dos golpes plásticos e das trocas francas em pé. Influências de modalidades como o boxe e o kickboxing acabaram moldando parte da percepção popular, como se o MMA devesse seguir esse mesmo caminho.
Mas essa visão ignora o próprio significado da sigla: Mixed Martial Arts. O MMA nunca foi, e nem deveria ser, apenas striking. Ele nasce justamente da interseção entre diferentes disciplinas, onde o grappling, o controle posicional e as finalizações têm o mesmo peso que socos e chutes. Reduzir isso é, na prática, descaracterizar o esporte.
Quando um atleta domina outro no chão, controla posições, ameaça com finalizações e neutraliza completamente o adversário, ele não está “fazendo uma luta chata”. Está, na verdade, impondo superioridade técnica absoluta. E isso deveria ser celebrado com a mesma intensidade que um nocaute.
A própria carreira de Jandiroba é um exemplo disso. Com múltiplas vitórias por finalização e números expressivos de controle no solo, ela representa um tipo de excelência que exige anos de refinamento técnico, muitas vezes invisível para o olhar leigo.

Um dos pontos mais interessantes da entrevista é que Jandiroba reconhece a necessidade de adaptação. Ela admite que tenta ajustar aspectos do seu jogo, como maior volume de golpes ou ground and pound, para atender às demandas do público e da organização.
No entanto, ela também deixa claro que não pretende abandonar sua identidade como grappler. Inclusive, essa é uma linha tênue e perigosa. Até que ponto um lutador deve mudar seu estilo para agradar? E em que momento isso compromete sua própria essência como artista marcial?
Se todos os atletas passarem a priorizar apenas o striking para evitar críticas, o MMA perde sua diversidade técnica. E, mais grave, perde sua autenticidade.
O caso citado por Jandiroba de lutadores que evitam usar seu wrestling ou jiu-jítsu para não desagradar o público é sintomático. Isso não é evolução do esporte, é limitação imposta por pressão externa.
Como Jandiroba quis dizer, valorizar o grappling é preservar o MMA
Concordar com Virna Jandiroba é, acima de tudo, defender o MMA como ele deve ser. Um esporte completo, plural e técnico. Afinal, tudo começou com o jiu-jítsu da família Gracie, como esquecer essa história fascinante?
O grappling pode não ser sempre o aspecto mais “plástico” ou facilmente compreensível para quem assiste, mas é frequentemente o mais decisivo. É no chão que muitas lutas são definidas, onde erros são punidos de forma irreversível e onde a superioridade se torna incontestável.
Ignorar isso em nome do entretenimento imediato é um caminho perigoso. Afinal, o que diferencia o MMA de outras modalidades é justamente essa complexidade. O público pode, e deve, aprender a valorizar mais do que apenas o espetáculo visual.
Entender uma raspagem, uma transição de guarda ou uma tentativa de finalização é compreender o jogo em sua totalidade. Portanto, Virna Jandiroba não apenas defendeu seu estilo. Ela ratificou, de forma correta, o próprio espírito do esporte.
(Imagem de capa: Divulgação UFC)