A ascensão de Rafael Guanaes no cenário nacional tem provocado um debate cada vez mais relevante: até que ponto o futebol brasileiro está refém do “resultadismo”? Em meio a um ambiente historicamente marcado pela urgência por vitórias, o treinador surge como um contraponto ao defender a construção de um modelo de jogo sólido, mesmo que isso demande tempo e enfrente oscilações diversas na atual temporada do Brasileirão, com uma indigesta sequência de resultados negativos na véspera da estreia pela Libertadores diante do Lanús?
No comando de suas equipes, Rafael Guanaes tem priorizado processos em vez de atalhos. Sua proposta passa por organização estrutural, ocupação racional dos espaços e um jogo apoiado que valoriza a posse com propósito. Não se trata de ter a bola por ter, mas de utilizá-la como ferramenta para controlar o jogo e criar vantagens progressivas, e essa abordagem, embora alinhada ao que há de mais moderno no futebol global, esbarra em uma cultura local que, muitas vezes, mede o sucesso apenas pelo placar final.
Rafael Guanaes resiste aos resultados negativos de 2026
O conceito de “resultadismo” ganha força em contextos de pressão, como calendários apertados, cobrança de torcidas e instabilidade política nos clubes. Nesse cenário, treinadores que propõem mudanças estruturais acabam sendo testados constantemente, pois cada derrota é interpretada como um sinal de falha no modelo, mesmo quando há evolução perceptível no desempenho coletivo. Não por acaso, já temos a incrível marca de dez técnicos demitidos em dez rodadas do Brasileirão.
Rafael Guanaes , porém, parece disposto a sustentar suas convicções, mantendo o Mirassol com suas características muito claras: saída de bola estruturada, aproximações curtas entre setores, pressão coordenada após perda e busca constante por superioridade numérica em zonas importantes do campo. Esses elementos exigem repetição, entendimento e confiança, fatores que dificilmente se consolidam sob a lógica da troca constante de comando.
Mais do que uma questão tática, o trabalho do treinador levanta um debate cultural. O futebol brasileiro vive um dilema entre tradição e modernidade. De um lado, a herança de improviso, talento individual e decisões rápidas; de outro, a necessidade de organização coletiva, leitura de jogo e planejamento a médio e longo prazo. Rafael Guanaes se insere justamente nesse ponto de tensão, tentando provar que é possível aliar competitividade a um projeto consistente.
Os resultados, naturalmente, continuam sendo parte essencial do futebol, pois ignorá-los seria ingênuo, ainda mais com as questões culturais do Brasileirão. No entanto, a discussão proposta pelo treinador amplia o olhar: é possível perder jogando melhor e vencer jogando pior. A questão central passa a ser qual caminho oferece mais sustentabilidade ao longo de uma temporada.
Ao colocar o “resultadismo” à prova, Rafael Guanaes não desafia apenas adversários em campo, mas também a lógica dominante fora dele. Seu sucesso ou fracasso pode servir como termômetro para entender até onde o futebol brasileiro está disposto a evoluir, e quanto ainda está preso à urgência de ganhar a qualquer custo.
As respostas começarão a aparecer aos poucos, e o resultado diante do Lanús será determinante para avaliar como o Mirassol estará lidando com a falta de resultados no início da temporada 2026.
Imagem: AGIF