Roberto De Zerbi foi o nome escolhido pelo Tottenham para salvar a temporada. Depois de se encontrar com quase todo o corpo engolido pela areia movediça, decidi por contratar o italiano, que já teve uma passagem interessantíssima pela Inglaterra, mas estava longe de viver algo nos moldes atuais do clube londrino.
Sete jogos. Só isso separa os Spurs de um possível desastre histórico. E, no meio do caos, a diretoria resolveu apostar em um nome que passa longe do “arroz com feijão”. Se a lógica diz que times ameaçados pelo rebaixamento precisam de pragmatismo, organização defensiva e zero firula… De Zerbi é praticamente o oposto disso tudo. E é exatamente aí que mora o grande enigma dessa reta final de Premier League.
Um técnico que não abre mão das ideias
De Zerbi não é do tipo que muda o estilo conforme o vento sopra. Desde o início da carreira, lá nas divisões inferiores da Itália, ele construiu uma identidade clara: posse de bola, coragem e um certo gosto pelo risco.
Nem sempre deu certo. No comando do Palermo, por exemplo, teve dificuldades e acabou demitido. Depois, no Benevento, veio o rebaixamento.
Mas o curioso é que, mesmo com esses tropeços, sua reputação cresceu. E não é à toa. Com o tempo, o italiano refinou seu modelo e brilhou em equipes como o Brighton, encantando a Europa com um futebol ofensivo e, principalmente, ousado.
Agora, a pergunta é: esse estilo funciona quando o objetivo não é brigar lá em cima… mas simplesmente sobreviver?
Construção desde trás: emoção garantida (para o bem e para o mal)
Quem já assistiu aos times de De Zerbi sabe: sair jogando nunca é só sair jogando. A ideia é atrair o adversário, quase convidar o erro. Os zagueiros seguram a bola, chamam a pressão e, no momento certo, quebram linhas com passes rápidos e precisos.
É bonito? Muito. É seguro? Nem um pouco. Numa ideia bem simples, dá para chamá-lo de Fernando Diniz italiano inclusive.
O sistema exige jogadores tecnicamente muito fortes, capazes de lidar com pressão em espaços curtos. E aí entra um dos maiores problemas do Tottenham atual: nem todo mundo ali tem esse perfil. Mesmo assim, há peças que podem se adaptar bem, como Bergvall, Xavi Simons e Archie Gray, jovens, técnicos e com capacidade de jogar sob pressão.
Se encaixar, vira espetáculo. Se não… vira contra-ataque do adversário em dois toques.
Comparação inevitável: do pragmatismo ao caos controlado
Antes de De Zerbi, o Tottenham passou por estilos bem diferentes. Thomas Frank, por exemplo, apostava em um jogo mais direto, explorando os lados do campo e evitando riscos no meio. A ideia era simples: minimizar erros.
Já Ange Postecoglou tinha uma filosofia mais próxima da atual, posse, jogo por dentro e construção paciente. Isso pode ajudar De Zerbi, já que alguns conceitos ainda devem estar “na memória muscular” dos jogadores.
E tem também o trabalho recente de Igor Tudor, que tentou implementar marcação individual. Não funcionou totalmente, mas deixou uma base defensiva que pode ser reaproveitada. Ou seja: o Tottenham não começa do zero. Mas também está longe de estar pronto.
Se com a bola o time já assume riscos, sem ela a história não muda muito. Os times de De Zerbi pressionam alto, muitas vezes no mano a mano. Um passe para trás do adversário pode ser o gatilho para um “abafa” imediato.
A ideia é recuperar a bola rápido e já atacar com o rival desorganizado. Funciona bem… quando funciona. O problema é que, se a pressão falha, o espaço aparece. E em uma liga como a Premier League, isso costuma ser fatal.
Um all-in perigoso com De Zerbi, mas talvez necessário
Trazer um técnico como De Zerbi em meio a uma luta contra o rebaixamento é, no mínimo, uma aposta ousada. É o tipo de decisão que pode virar manchete histórica para o bem ou para o desastre. Por um lado, há o risco claro: o sistema leva tempo para ser assimilado, e o clube londrino não tem tempo. Sete jogos passam rápido.
Por outro, há um argumento forte: talvez o time precise justamente de algo diferente. Algo que simplifique decisões, que dê identidade e que tire o elenco desse limbo de insegurança.
E, convenhamos, De Zerbi não é qualquer aposta. Pep Guardiola já o chamou de um dos técnicos mais influentes dos últimos anos. Não é pouca coisa.
No fim das contas, a chegada de De Zerbi é um misto de coragem com desespero. O Tottenham precisava reagir. E rápido. Apostar em um técnico conservador poderia até trazer estabilidade… mas dificilmente mudaria o cenário de forma drástica.
Com De Zerbi, o risco é maior. Mas o potencial de transformação também. A missão é clara: fazer o time voltar a vencer. Nem que seja no estilo “coração na boca”. Porque, nesse momento, pouco importa como. O que vale é sobreviver.
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