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Pressão no São Paulo: Resultados não bastam para Roger Machado

A trajetória recente de Roger Machado no comando do São Paulo é um retrato bastante fiel de como o futebol brasileiro, especialmente em clubes de massa, costuma ser impaciente e, muitas vezes, contraditório.

A situação do treinador é, no mínimo, curiosa: mesmo com números consistentes e resultados que sustentariam trabalhos mais longevos em outros contextos, ele segue pressionado como se estivesse à beira da zona de rebaixamento.

Desde sua chegada, Roger nunca teve o benefício da dúvida. Diferentemente de técnicos mais “badalados”, sua contratação foi recebida com desconfiança por boa parte da torcida tricolor. E isso não é exatamente novidade.

Ao longo da carreira, o treinador construiu uma reputação de profissional sério, estudioso e organizado, mas sem o “peso” midiático que costuma blindar outros nomes. Em um ambiente como o do São Paulo, isso faz toda a diferença.

O início até ofereceu algum alívio. Resultados positivos deram a impressão de que o trabalho poderia ganhar estabilidade, mas bastaram algumas atuações menos convincentes, mesmo em jogos vencidos, para que a pressão retornasse com força total.

Esse é um ponto central da discussão: não se trata apenas de vencer ou perder, mas de como se vence. E, no futebol brasileiro atual, o desempenho estético muitas vezes pesa tanto quanto os resultados.

Ainda assim, é difícil ignorar o contexto geral. O São Paulo está no G4 do Campeonato Brasileiro, mantém 100% de aproveitamento na Copa Sul-Americana e iniciou sua trajetória na Copa do Brasil com vitória. São fatos que, friamente analisados, indicam um trabalho eficiente.

O aproveitamento de 57% dos pontos reforça essa leitura: não é extraordinário, mas está longe de ser ruim, especialmente considerando o cenário competitivo do futebol brasileiro. Então por que tanta pressão?

Mesmo vencendo, Roger Machado é vaiado pela torcida do São Paulo
Mesmo vencendo, Roger Machado é vaiado pela torcida do São Paulo (Imagem: Marcello Zambrana/AGIF)

“Motivos” da pressão em Roger Machado no São Paulo

Parte da resposta está no histórico do próprio treinador. Roger Machado nunca conseguiu consolidar um trabalho longo e unanimemente celebrado em clubes de primeira prateleira. Passagens por equipes grandes foram marcadas por oscilações, o que criou uma narrativa difícil de quebrar. Assim, cada sequência negativa ou até mesmo performances abaixo do esperado, reforça um estigma que já o acompanha.

Além disso, há o fator simbólico da “grife”. Técnicos com maior projeção, títulos recentes ou identificação com o clube costumam ter mais tempo e paciência para implementar ideias. Roger, por outro lado, parece sempre começar em desvantagem. É como se estivesse permanentemente em avaliação, independentemente dos resultados que entrega.

Outro elemento importante é o próprio elenco do São Paulo. Existe uma percepção da torcida, nem sempre totalmente justa, de que o grupo é forte o suficiente para apresentar um futebol mais dominante e convincente. Quando isso não acontece, a cobrança recai diretamente sobre o treinador.

Vale destacar também o comportamento recente da torcida. Vaias após uma vitória, como aconteceu em seu último jogo, contra o Juventude, são um sintoma claro de insatisfação que vai além do placar. É uma rejeição à forma, à identidade do time em campo. Mas aqui surge um questionamento legítimo: até que ponto essa exigência é realista no estágio atual do trabalho?

Projetos sólidos raramente nascem prontos. Oscilações fazem parte do processo, especialmente em um calendário apertado e com múltiplas competições. A cobrança por um futebol vistoso desde o início pode acabar sabotando a construção de algo mais consistente a médio prazo.

Isso não significa que Roger esteja imune a críticas. O desempenho irregular, em alguns momentos, é evidente. Há jogos em que o time parece desconectado, com dificuldades de criação e pouca fluidez ofensiva. Essas questões precisam ser corrigidas e fazem parte do papel do treinador. No entanto, transformar cada atuação abaixo da média em um argumento para demissão parece um exagero.

No fim das contas, a situação de Roger Machado no São Paulo escancara um dilema recorrente: o futebol brasileiro quer resultados imediatos, mas também exige desempenho refinado e, muitas vezes, não concede tempo suficiente para que ambos caminhem juntos. Nesse cenário, treinadores que sofrem preconceito e não tem “escudo” midiático acabam sendo os primeiros a pagar o preço.

Se o clube optar por manter o trabalho, será necessário um alinhamento maior entre diretoria, comissão técnica e torcida. Caso contrário, mesmo números positivos podem não ser suficientes para sustentar o projeto. E aí, mais uma vez, o ciclo se repete: troca-se o treinador, reinicia-se o processo e o problema estrutural permanece.

Roger Machado, goste-se ou não de seu estilo, está entregando bons resultados. A pergunta que fica é se isso será suficiente em um ambiente onde, muitas vezes, a percepção fala mais alto que os fatos.

Com tudo isso, fica uma reflexão: se todos que acompanham futebol sabiam, antes da contratação, que seria assim, significa que a diretoria tinha confiança total que Roger Machado superaria essa barreira. Agora, os diretores tricolores precisarão bancar até o final sua escolha ou parecerá que contrataram Roger apenas como tapa-buraco momentâneo, algo que não tem o menor cabimento.

(Imagem de capa: Rubens Chiri/São Paulo)