A saída de John Textor do comando da SAF do Botafogo, confirmada nesta quinta-feira (23), encerra um ciclo que talvez seja um dos mais intensos e contraditórios da história recente do futebol brasileiro. Em pouco mais de três anos, o investidor estadunidense percorreu um caminho que vai do status de salvador a alvo central de críticas, um arco que ajuda a explicar tanto o potencial quanto os riscos do modelo de SAF no país.
O que aconteceu com Textor é um exemplo claro do que acontece quando o sonho se torna irresponsabilidade, e quando o sonhador se torna um vilão.
O salvador que levou à glória eterna
Quando assumiu o controle da SAF em 2022, Textor simbolizava uma ruptura. O Botafogo vinha de anos de instabilidade esportiva e financeira, e a promessa de um investidor estrangeiro com capital, visão global e integração a um modelo multiclubes parecia o início de uma nova era. O projeto rapidamente ganhou força, fruto de investimento em elenco, modernização da infraestrutura e uma ambição clara de recolocar o clube no topo.
O auge desse processo veio em 2024. Naquele ano, o Botafogo conquistou o Brasileirão e a Libertadores, um feito histórico que reposicionou o clube no cenário continental e validou, ao menos momentaneamente, o modelo implementado por Textor. A narrativa era clara: o investimento havia transformado um clube endividado em protagonista.
Mas o que parecia uma trajetória linear começou a apresentar fissuras logo depois do auge. E essas fissuras não estavam apenas dentro de campo. Pelo contrário: o principal problema passou a ser estrutural.
O vilão que afundou o clube
O primeiro sinal mais evidente da crise foi financeiro. Apesar dos títulos, o Botafogo viu suas dívidas crescerem de forma acelerada, chegando a cifras bilionárias. Estimativas indicam que o endividamento ultrapassou R$ 2,7 bilhões, alimentando preocupação dentro e fora do clube sobre a sustentabilidade do projeto.
Além disso, episódios como os diversos transfer bans impostos pela FIFA, por conta do não pagamento de transferências, expuseram fragilidades graves na gestão. Textor chegou a afirmar que pagaria dívidas “pessoalmente” para resolver o problema, ao mesmo tempo em que buscava novos investidores para injetar recursos no clube.
O cenário ficou ainda mais delicado nos bastidores. Divergências entre a SAF e o clube associativo se tornaram frequentes, com disputas políticas, votações travadas e até renúncias de executivos. Em determinado momento, o CEO da SAF deixou o cargo em meio a um impasse sobre aportes financeiros, aumentando o ambiente de instabilidade institucional.
Essa combinação de dívida crescente, promessas de investimento e conflitos internos foi minando o capital político de Textor. Figuras influentes do clube passaram a defender abertamente sua saída, entendendo que a gestão, antes vista como solução, havia se tornado parte do problema.
Ao mesmo tempo, o desempenho esportivo deixou de acompanhar a ambição inicial. Após o ano mágico de 2024, o Botafogo passou a conviver com oscilações, perda de jogadores importantes e dificuldades para manter competitividade. A sensação de “projeto em declínio” ganhou força entre torcedores e analistas.
Textor, por sua vez, nunca deixou de adotar um discurso combativo. Em entrevistas, criticou o clube associativo, acusou entraves burocráticos e insistiu que ainda tinha soluções para o futuro do Botafogo. Em um dos momentos mais emblemáticos, chegou a dizer que preferia ser “arrastado para fora do prédio” a deixar o clube, mas, na prática, o controle já escapava de suas mãos.
Afinal, Textor é herói ou vilão?
A decisão que culminou em sua saída do comando da SAF representa o desfecho de uma disputa que envolvia não apenas o Botafogo, mas também a estrutura da Eagle Football. Pressões de investidores, questionamentos jurídicos e a perda de apoio interno tornaram sua permanência insustentável.
O caso de Textor no Botafogo é emblemático por vários motivos. Primeiro, porque mostra como o sucesso esportivo não garante estabilidade. Ganhar títulos pode mascarar problemas, mas não os resolve. Segundo, porque evidencia os limites do modelo multiclubes quando não há equilíbrio financeiro e governança clara.
A saída do investidor deixa o Botafogo diante de um novo desafio: reorganizar sua estrutura, redefinir seu modelo de gestão e, sobretudo, recuperar credibilidade. O clube que voltou ao topo do futebol sul-americano agora precisa provar que consegue se sustentar ali sem depender de decisões centralizadas e, muitas vezes, controversas.
No fim das contas, a trajetória de John Textor no Botafogo não é apenas uma história de ascensão e queda. É um retrato fiel das transformações do futebol brasileiro na era das SAFs: um modelo que promete modernização, mas que ainda busca equilíbrio entre ambição, responsabilidade e estabilidade.
Textor é herói ou vilão? Talvez os dois. E justamente por isso, é um personagem impossível de ignorar.
Foto: Getty Images

