Futebol Brasileirão

São Paulo vive dilema: se tornar SAF ou fazer uma reforma interna?

A recente movimentação liderada pelo empresário Diego Fernandes, que criou um abaixo-assinado para tentar transformar o São Paulo Futebol Clube em SAF, reacendeu um dos debates mais sensíveis e complexos da história recente do clube.

A proposta, que busca mobilizar sócios para convocar uma assembleia e deliberar diretamente sobre a mudança de modelo, contornando instâncias tradicionais como o Conselho Deliberativo, não apenas evidencia uma insatisfação crescente, mas também escancara o ambiente político conturbado que há anos marca os bastidores do Tricolor.

Esse movimento não surge do nada. Ele é fruto de um acúmulo de problemas estruturais que vão além das quatro linhas. O São Paulo, embora ainda seja uma das instituições mais relevantes do futebol brasileiro, convive com dificuldades financeiras persistentes, aumento de endividamento e uma dependência quase crônica da venda de jogadores para equilibrar as contas.

Soma-se a isso um histórico recente de gestões questionadas, decisões de curto prazo e disputas políticas internas que frequentemente impedem a continuidade de projetos. Nesse cenário, a SAF aparece como uma alternativa sedutora: promessa de investimento, profissionalização e ruptura com velhos vícios administrativos.

A promessa da SAF e os riscos escondidos

A transformação em Sociedade Anônima do Futebol, modelo instituído no Brasil pela Lei 14.193/21, tem como principal atrativo a possibilidade de atrair capital externo e implementar uma gestão mais profissional, com metas claras e menor interferência política. Em teoria, isso poderia representar uma virada de chave para o São Paulo, permitindo reorganizar dívidas, investir no elenco e planejar o futuro com mais estabilidade.

No entanto, é justamente nesse ponto que o debate precisa ser aprofundado. A SAF não é uma solução automática, nem uma garantia de sucesso. Ao se transformar em empresa, o clube abre mão de parte ou até da totalidade do controle para investidores, que naturalmente terão interesses financeiros no negócio.

Isso significa que decisões passam a ser tomadas com base em retorno econômico, e não apenas esportivo ou institucional. Para um clube com a história e o peso do São Paulo, essa mudança não é trivial, aliás, longe disso.

Além disso, a forma como essa proposta está sendo conduzida levanta questionamentos legítimos. A tentativa de levar a decisão diretamente aos sócios, sem um debate mais amplo e estruturado dentro das instâncias do clube, pode acelerar o processo, mas também aumenta o risco de uma escolha precipitada.

Faltam, até o momento, informações claras sobre possíveis investidores, modelo de governança e garantias de proteção à identidade do clube. Em um tema dessa magnitude, a pressa pode custar caro.

São Paulo tem a terceira maior torcida do Brasil
São Paulo tem a terceira maior torcida do Brasil (Imagem: Divulgação/ São Paulo FC)

SAF é a salvação do São Paulo?

Diante desse cenário, a pergunta central se impõe: o São Paulo precisa mesmo se tornar SAF? A resposta mais equilibrada é que não necessariamente, mas precisa, com urgência, passar por uma transformação profunda.

O modelo associativo, por si só, não é o vilão. Existem clubes que, mesmo sem se tornarem SAF, conseguiram melhorar sua gestão, reduzir dívidas e se tornar competitivos através de profissionalização, disciplina financeira e governança eficiente.

O grande problema do São Paulo não está apenas na estrutura jurídica, mas na forma como o clube vem sendo administrado. A influência política excessiva, a falta de planejamento de longo prazo e a ausência de mecanismos rígidos de controle financeiro são questões que nenhuma mudança de modelo resolve automaticamente. Se esses problemas persistirem, a SAF pode apenas trocar a natureza da crise, substituindo disputas políticas por conflitos empresariais.

Diante disso, talvez o caminho mais sensato não seja uma ruptura total, mas sim uma solução intermediária. Um modelo híbrido, por exemplo, em que o futebol seja parcialmente estruturado como empresa, com entrada de investidores, mas mantendo o controle majoritário do clube, pode ser uma alternativa mais equilibrada.

Paralelamente, seria fundamental implementar uma reforma profunda na governança, profissionalizar a gestão e estabelecer metas financeiras claras e rigorosas. Algo bem diferente do que vem acontecendo nos últimos anos.

Por tudo isso, o abaixo-assinado liderado por Diego Fernandes tem um mérito inegável: forçar o São Paulo a encarar sua realidade. O clube precisa mudar, e isso já não é mais discutível. A dúvida está no “como”.

Transformar-se em SAF pode ser um caminho, mas não deve ser tratado como solução milagrosa. Sem organização, transparência e responsabilidade, qualquer modelo está fadado a falhar. O futuro do São Paulo não depende apenas de virar empresa, mas de finalmente agir como uma instituição moderna. Essa é a verdadeira decisão que o clube precisa tomar.

(Imagem de capa: Instagram/@saopaulofc)