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UFC fatura bilhões, mas lutadores seguem no aperto: crise escancara dilema antigo do MMA

O UFC nunca foi tão grande. A organização domina o cenário global do MMA com folga, empilha contratos milionários e recentemente fechou um acordo de US$ 7,7 bilhões com a Paramount para transmissão de seus eventos. No papel, é sucesso absoluto. Mas, nos bastidores, a história é bem diferente e cada vez mais barulhenta.

A discussão sobre pagamento de lutadores voltou com força, e não é de hoje. Quem trouxe mais lenha para essa fogueira foi Alex Davis, empresário veterano com mais de duas décadas no esporte. Para ele, o cenário atual não é apenas injusto, é insustentável.

E quando alguém com a experiência dele usa a palavra “crise”, talvez seja bom prestar atenção.

Muito dinheiro entrando no UFC, pouco dinheiro voltando

O crescimento do UFC nos últimos 15 anos é inegável. A organização saiu de um produto nichado para um gigante global, passando por parcerias com grandes emissoras e agora mergulhando de vez no modelo de streaming com a Paramount. A receita cresce ano após ano, os eventos seguem lotados e o interesse do público continua alto.

Mas tem um detalhe que não acompanha essa evolução: o pagamento dos lutadores.

Hoje, o modelo base segue praticamente o mesmo. Atletas iniciantes recebem cerca de US$ 12 mil para lutar e mais US$ 12 mil em caso de vitória. Para quem está começando, pode parecer um bom valor. Só que, na prática, não é bem assim, ainda mais ao pensar no que o UFC tem pedido para ser entregue dentro dos ringues.

Vale pensar também em treinamento, equipe, nutrição, viagens, taxas… tudo sai do bolso do lutador. Quando você coloca tudo na ponta do lápis, muitos acabam praticamente empatando ou até no prejuízo. E isso em um esporte de altíssimo risco físico.

O bônus por performance até subiu para US$ 100 mil, mas vamos ser honestos: poucos recebem. É mais exceção do que regra. Segundo Davis, o problema do UFC vai além dos números. Para ele, o UFC prioriza o crescimento financeiro acima do desenvolvimento do esporte e do bem-estar dos atletas. E essa crítica toca em um ponto sensível.

O dilema eterno do MMA: pagar melhor ou sobreviver?

Aqui entra uma questão histórica do MMA: promotoras que tentam pagar melhor seus lutadores geralmente não duram muito, e agora, a Netflix aparece para ter uma nova conclusão sobre esse cenário com o MVP.

Não é teoria, é histórico. Diversas organizações ao longo dos anos tentaram competir com o UFC oferecendo bolsas mais atrativas. Resultado? Problemas financeiros, falta de sustentabilidade e, em muitos casos, encerramento das atividades, sem esquecer do retorno de certos lutadores a principal casa do MMA.

O UFC, por outro lado, segue o caminho oposto: controle rígido de custos, contratos estruturados e domínio de mercado. Funciona para a empresa. Nem tanto para quem sobe no octógono.

Esse equilíbrio delicado entre pagar bem e manter a operação saudável é um dos maiores desafios do esporte. E, no momento, parece que a balança está bem mais inclinada para o lado das promotoras.

Patrocínio, streaming e menos oportunidades

Outro ponto levantado por Davis é a redução de fontes de renda para os lutadores. Antigamente, patrocinadores estampavam seus logos nos shorts, nos banners e em tudo que fosse possível. Era uma forma importante de complementar a renda.

Mas isso mudou.

Com acordos como os firmados com marcas de uniformes, como Reebok e depois Venum, essa porta praticamente se fechou. Hoje, é muito mais difícil para um lutador conseguir patrocínio relevante dentro do UFC. E sem exposição, as empresas também perdem o interesse.

O modelo de streaming também impactou os ganhos. Com menos foco em pay-per-view tradicional, até mesmo lutadores mais famosos perderam uma fatia importante de receita.

Ou seja, o bolo cresceu, mas a fatia dos atletas não acompanhou.

De olho no boxe: quando a grama do vizinho parece mais verde

Diante desse cenário no UFC e no MMA em si, não é surpresa ver lutadores cogitando caminhos alternativos, depois de terem concluído os seus sonhos de atuar na principal casa da modalidade. E um deles tem sido cada vez mais comum: migrar para o boxe.

O caso de Ilia Topuria é um exemplo recente. Mesmo sendo uma das grandes estrelas em ascensão do MMA, o lutador já demonstrou interesse em explorar oportunidades no boxe, onde as bolsas podem ser significativamente maiores, especialmente em lutas de alto nível. Um ponto que chama atenção é o fato de Dana White ser um grande amante desta variação da luta também, então, não dá para deixar de lado a possibilidade do careca fazer algo.

E ele não está sozinho.

O boxe, apesar de todos os seus próprios problemas estruturais, ainda oferece a possibilidade de grandes pagamentos em eventos específicos. Para atletas que já construíram nome, é uma tentação difícil de ignorar.

No fim das contas, é uma escolha quase óbvia: continuar em um sistema mais controlado, com ganhos limitados, ou arriscar em algo potencialmente mais lucrativo.

Críticas internas e pressão crescente

As críticas ao modelo atual não vêm apenas de empresários. Grandes nomes do esporte também já se manifestaram. Ronda Rousey, por exemplo, questionou abertamente a direção que o UFC tomou nos últimos anos.

Para ela, o foco deixou de ser fazer as melhores lutas possíveis e passou a ser atender interesses comerciais e de acionistas. Uma mudança que, segundo a ex-campeã, impacta diretamente o produto final.

E quando nomes desse calibre começam a falar, o impacto é maior. Dá para lembrar de Justin Gaethje batendo o pé sobre isso também, mas depois tomando um invertida de Dana, que deixou claro numa entrevista que tentou entrar em contato com o lutador, só que o mesmo não atendeu e nem retornou.

O futuro do UFC: mudança ou continuação?

Apesar de todas as críticas, a realidade é que o UFC continua praticamente sem concorrência direta, se trata de um sonho absoluto de muitos lutadores, mesmo que o retorno não seja dos melhores. É só ver a realidade de inúmeros nomes enormes do jiu-jitsu, que “deixam” suas histórias para trás, na intenção de brilhar no principal palco do mundo. Nenhuma outra organização conseguiu, até hoje, unir popularidade, estrutura e sustentabilidade financeira no mesmo nível.

E isso dá margem para que o modelo atual continue.

Mas a pressão está aumentando. Lutadores mais conscientes, empresários mais vocais e fãs mais atentos estão colocando o tema em evidência. A discussão sobre pagamento deixou de ser um assunto de bastidores e passou a ocupar o centro do debate.

No fim, a pergunta que fica é simples, mas longe de ter resposta fácil: até quando esse modelo vai se sustentar?

Porque, em um esporte onde quem entra no cage coloca o corpo (e muitas vezes a saúde) em risco, a conta precisa fechar para todos. Não só para quem está fora dele.

Foto: IMAGO