Sean Strickland voltou ao topo do UFC do jeito mais Sean Strickland possível: falando o que pensa, comprando briga com metade da internet e, surpreendentemente, defendendo que o ranking da organização seja respeitado. Sim, isso realmente aconteceu.
Depois de recuperar o cinturão dos médios ao derrotar Khamzat Chimaev no UFC 328, o norte-americano já começou a ser questionado sobre quem deveria ser seu primeiro desafiante. E ao contrário do que muita gente esperava, especialmente em uma era onde o UFC adora uma revanche aleatória ou uma luta montada no caos do Twitter, Strickland deixou claro que quer seguir a ordem do ranking.
E isso coloca Nassourdine Imavov diretamente na frente da fila.
“Eu realmente acredito nos rankings do UFC”, afirmou Strickland na coletiva pós-evento. “Acho que eles importam pra caralh*. Odeio quando os caras furam fila.”
Considerando que estamos falando do mesmo Sean Strickland que frequentemente transforma entrevistas em episódios imprevisíveis de podcast sem roteiro, a fala acabou pegando muita gente de surpresa. Mas olhando friamente? O argumento faz bastante sentido. É interessante ver o contexto, porque no caso, o norte-americano furou a fila para bater de frente com o Lobo…
Strickland voltou ao topo no momento mais improvável possível
Pouca gente apostava que Strickland conseguiria recuperar o cinturão justamente contra Chimaev. Dá para falar que pelos números, era uma chance de 5 para 1, sendo o norte-americano uma zebra das grandes.
O checheno chegava como favorito absoluto no UFC 328, empilhando vitórias dominantes e carregando aquela aura quase sobrenatural que o acompanhou nos últimos anos. Mesmo depois de sofrer sua primeira derrota no MMA profissional, ainda existia uma percepção geral de que Khamzat seria o novo dono da divisão dos médios por bastante tempo.
Só que Strickland fez o que Strickland faz de melhor: transformou a luta em uma guerra desconfortável, e aparecendo para colocar água no chopp de mais um favorito, porque contra Fluffy, a situação foi semelhante, ao ser tirado para nada nas casas de apostas, e no final, sair vitorioso.
Mesmo sofrendo uma lesão no nariz durante o combate, o norte-americano conseguiu sobreviver aos momentos de pressão, manteve seu volume de golpes e venceu por decisão dividida. Não foi exatamente uma atuação perfeita tecnicamente, mas foi uma atuação muito “cara de campeão”. Aquele tipo de luta onde o sujeito parece disposto a apanhar cinquenta vezes desde que consiga devolver cinquenta e uma.
Agora, porém, o desafio muda completamente. Porque reconquistar o cinturão é uma coisa. Sustentar o reinado em uma das divisões mais perigosas do UFC atual é outra história.
Imavov aparece como opção lógica, mesmo já tendo perdido para Strickland
Hoje, Imavov ocupa a segunda colocação no ranking dos médios e vive uma sequência invicta de seis lutas. E o detalhe curioso é que sua última derrota foi justamente para Strickland, ainda em 2023, quando os dois aceitaram lutar em cima da hora no peso meio-pesado. Desde então, muita coisa mudou.
Imavov amadureceu bastante dentro do octógono. O francês passou a lutar com mais controle emocional, melhorou a defesa de quedas e evoluiu principalmente na gestão de ritmo das lutas. Antes visto apenas como um striker técnico e perigoso, hoje ele parece um atleta muito mais completo. E sejamos honestos: o UFC provavelmente gosta bastante dessa narrativa.
Existe um histórico entre os dois, existe evolução clara do desafiante e existe a possibilidade de vender a luta como uma “segunda chance” para Imavov. Para uma organização que vive de storytelling, isso praticamente se escreve sozinho. Além disso, o cenário da divisão ajuda.
Dricus Du Plessis perdeu força na corrida pelo cinturão
O único nome acima de Imavov no ranking é Dricus Du Plessis. Só que o sul-africano vive um momento estranho dentro da categoria e deve cair no colo de Caio Borralho, com quem tido discussões acaloradas nas redes sociais.
Depois de destronar Strickland em 2024 e vencer a revanche meses depois, Du Plessis parecia pronto para dominar a divisão por bastante tempo. Mas tudo mudou quando ele perdeu o cinturão para Chimaev em agosto, depois de ter sido completamente engolido pelo Lobo.
Desde então, o ex-campeão praticamente desapareceu do radar competitivo. Sem lutar há meses e sem grande pressão popular por uma trilogia contra Strickland, Dricus acabou perdendo espaço na conversa pelo próximo title shot. E o UFC percebe isso rapidamente.
A organização dificilmente força uma terceira luta se o público não estiver comprando a ideia. Ainda mais em uma categoria tão cheia de opções interessantes.
A divisão dos médios voltou a ficar caótica e isso é ótimo
Durante algum tempo, a categoria dos médios parecia presa em um looping eterno envolvendo os mesmos nomes. Agora, o cenário mudou completamente.
Strickland recuperou o cinturão. Chimaev sofreu derrota pesada, mas continua perigosíssimo. Imavov vive seu melhor momento na carreira. Du Plessis tenta reencontrar espaço. E nomes mais jovens seguem crescendo silenciosamente, como é o caso de Borralho, que tem lutado por conquistar seus holofotes novamente, após ter sido derrotado pelo francês.
O resultado? Uma divisão imprevisível. E sinceramente, o UFC precisava disso.
Além da competitividade, existe um detalhe importante: estilos. Quase todos os principais médios da atualidade oferecem lutas potencialmente caóticas. Strickland pressiona o tempo inteiro. Chimaev luta como alguém tentando terminar o combate antes do comercial. Imavov é técnico e explosivo. Dricus parece operar em um ritmo completamente estranho que somehow funciona.
É uma mistura maravilhosa para quem gosta de MMA.
Sean Strickland pode até ser polêmico, mas foi coerente
Nem sempre o campeão escolhe o caminho mais difícil. Na verdade, muitas vezes o cinturão vira quase um instrumento político dentro do UFC, com atletas tentando selecionar adversários mais favoráveis ou lutas financeiramente maiores.
Strickland poderia facilmente pedir uma revanche contra Chimaev, provocar Du Plessis por semanas ou até tentar forçar alguma superluta sem sentido. Mas escolheu seguir o ranking. E gostando dele ou não, isso merece reconhecimento.
Agora resta saber se o UFC vai realmente seguir essa lógica ou se Dana White resolverá apertar o botão do caos mais uma vez. Porque no MMA, principalmente no UFC, mérito e matchmaking nem sempre andam juntos.
Foto: Matt Davies/Ag Fight