A Most Valuable Promotions, conhecida mundialmente como MVP, decidiu que sua estreia oficial no MMA não seria nada discreta. A organização comandada por Jake Paul chega ao esporte prometendo mexer justamente no assunto mais delicado das artes marciais mistas: o dinheiro dos lutadores.
E a estreia já acontece em clima de blockbuster. Neste sábado, direto do Intuit Dome, em Los Angeles, a MVP realiza seu primeiro evento de MMA com transmissão da Netflix e uma luta principal carregada de nostalgia e peso histórico: Ronda Rousey contra Gina Carano.
Quando Jake Paul resolveu entrar no universo das lutas, muita gente enxergou tudo apenas como marketing. Afinal, o youtuber transformado em boxeador sempre soube gerar manchetes, engajamento e polêmica praticamente como um superpoder. Só que, aos poucos, a Most Valuable Promotions deixou de ser apenas um projeto midiático para virar uma empresa que realmente incomoda o mercado dos esportes de combate.
Agora, com a entrada no MMA, a sensação é de que a organização quer fazer ainda mais barulho.
MVP tenta atacar exatamente onde o UFC mais recebe críticas
Durante participação no “The Ariel Helwani Show”, o cofundador da MVP, Nakisa Bidarian, revelou detalhes da estrutura financeira do evento e basicamente colocou fogo num debate antigo do MMA: o pagamento dos atletas.
Segundo Bidarian, todos os lutadores do card receberão pelo menos US$ 40 mil garantidos. Sim, garantidos. Sem o famoso modelo do UFC de “12 para lutar e 12 para vencer”, que há anos gera reclamações públicas de atletas e discussões entre fãs.
Pode parecer apenas um detalhe contratual, mas no MMA isso muda muita coisa. Um lutador que perde no UFC frequentemente deixa de receber metade da bolsa prevista. E quando entram na conta os custos com treinadores, academia, alimentação, preparação física, impostos e equipe, muita gente percebe que o glamour do octógono não significa exatamente estabilidade financeira.
A MVP quer construir outra narrativa. Além das bolsas fixas, a organização prometeu bônus por desempenho para todos os atletas do card. Ou seja: ninguém dependerá exclusivamente da vitória para receber um valor mais robusto.
Bidarian também confirmou que haverá premiação de “Luta da Noite”, tradição clássica do MMA moderno. Só que, desta vez, o discurso vem acompanhado de uma proposta mais agressiva de divisão financeira.
A frase que mais chamou atenção: “mais de 50% vai para os lutadores”
Talvez a declaração mais impactante do executivo tenha sido sobre a divisão de receitas do evento. Segundo ele, mais de 50% do faturamento será destinado aos lutadores. No mundo do MMA, isso soa quase revolucionário.
O UFC convive há anos com críticas relacionadas ao percentual repassado aos atletas. Estimativas de mercado apontam que a organização normalmente distribui entre 16% e 20% da receita total para os lutadores. Em comparação com outras ligas esportivas americanas, como NBA ou NFL, o número é considerado baixo.
Claro, a MVP ainda está muito distante de competir diretamente com o UFC em alcance global, quantidade de eventos e relevância histórica. Dana White continua dominando o mercado com enorme vantagem. Mas só o fato de surgir uma organização disposta a falar publicamente sobre salários já cria um cenário diferente.
E convenhamos: quando o assunto é pagamento de atletas, qualquer pressão extra costuma gerar bastante desconforto nos bastidores do MMA.
Existe também uma leitura estratégica importante nisso tudo. A MVP entende perfeitamente o momento do esporte e o peso comercial do MMA feminino. Colocar Rousey e Carano no centro da estreia não foi coincidência.
Ronda Rousey, Gina Carano e o fator nostalgia
Hoje, muitos fãs mais jovens talvez não tenham dimensão completa da importância de Gina Carano para o crescimento do MMA feminino. Antes mesmo de o UFC abrir espaço definitivo para mulheres, Carano já ajudava a popularizar a modalidade e provar que existia mercado para grandes lutas femininas.
Depois surgiu Ronda Rousey e aí o jogo mudou completamente.
A ex-campeã virou um fenômeno global. Finalizações rápidas, rivalidades intensas, personalidade explosiva e uma aura de invencibilidade transformaram Rousey em uma das maiores estrelas da história do UFC. Durante um período, ela literalmente carregou o MMA feminino nas costas.
Por isso, o duelo deste sábado tem um peso quase nostálgico. Parece aquele tipo de luta imaginada durante anos em fóruns da internet, vídeos antigos do YouTube e discussões intermináveis entre fãs de MMA.
E a MVP claramente percebeu o potencial disso. O boxe já explora há bastante tempo o mercado da nostalgia esportiva. Agora, o MMA começa a caminhar pelo mesmo caminho.
O projeto da MVP pode estar apenas começando
Apesar da empolgação, Bidarian deixou claro que o evento ainda funciona como uma espécie de teste para o futuro da organização no MMA. Ainda não existem acordos definitivos com a Netflix para múltiplos cards, mas as conversas devem acontecer caso a estreia seja um sucesso.
A MVP já trabalha inclusive com uma projeção inicial de quatro a seis eventos anuais a partir de 2027.
Pode parecer pouco perto do calendário quase infinito do UFC, mas talvez justamente aí esteja a estratégia. Em vez de realizar cards semanalmente, a ideia parece focar em grandes eventos, nomes conhecidos e forte apelo comercial.
Além disso, Bidarian já deixou escapar possíveis planos futuros. A organização também promove Holly Holm, o que automaticamente abre espaço para confrontos históricos envolvendo a vencedora da luta principal.
E sejamos sinceros: uma revanche entre Ronda Rousey e Holly Holm provavelmente faria a internet do MMA enlouquecer de novo.
Ainda é cedo para dizer se a MVP realmente conseguirá ameaçar o domínio do UFC. Mas uma coisa já parece clara: Jake Paul e sua equipe encontraram um jeito inteligente de entrar no assunto mais sensível do esporte.
E quando alguém começa a mexer no bolso dos lutadores, o impacto costuma ser muito maior do que qualquer encarada em coletiva de imprensa.
Foto: Divulgação/MVP