O Bahia entrou em 2026 imaginando um cenário bem diferente do atual. O projeto esportivo segue respaldado pelo investimento do Grupo City, o elenco continua sendo um dos mais caros e interessantes fora do eixo Flamengo-Palmeiras, e Rogério Ceni permanece como um dos técnicos mais prestigiados do futebol brasileiro.
Só que futebol tem uma péssima mania de ignorar planejamento bonito no PowerPoint. E neste momento, o Bahia vive exatamente aquele tipo de sequência que começa a transformar qualquer coletiva em clima de crise: sete jogos sem vencer.
A pergunta naturalmente aparece: Rogério Ceni ainda consegue recuperar esse time ou o treinador começa a perder força internamente?
A resposta talvez seja mais complexa do que simplesmente “sim” ou “não”.
Bahia não parece um time sem treinador
Existe um detalhe importante em toda essa discussão: o Bahia ainda demonstra organização em vários momentos das partidas.
Isso pode parecer pouco quando os resultados não aparecem, mas é extremamente relevante. Times que realmente largaram o treinador normalmente mostram outros sintomas: desorganização completa, jogadores desconectados, linhas espaçadas, falta de intensidade e aquele famoso “cada um correndo por si”.
O Bahia atual não parece exatamente isso. A equipe ainda tenta construir jogadas desde trás, mantém mecanismos ofensivos relativamente claros e continua apresentando momentos de domínio territorial em algumas partidas. O problema é que o time passou a viver algo extremamente perigoso no futebol moderno: controla menos do que imagina e produz menos do que precisa.
E aí entra uma discussão importante sobre o próprio trabalho de Rogério Ceni.
O modelo de Rogério Ceni cobra um preço alto
Rogério Ceni nunca foi um treinador “reativo”. Historicamente, seus times tentam controlar posse, subir linhas, pressionar e empurrar adversários para trás. Quando funciona, o Bahia parece um time moderno, agressivo e dominante. Quando não funciona, o cenário fica estranho rapidamente.
Porque o modelo de Ceni exige intensidade física alta, concentração constante e muito encaixe coletivo. Qualquer queda física ou técnica começa a desmontar partes importantes da estrutura. E talvez o Bahia esteja exatamente vivendo esse momento agora.
Em vários jogos recentes, a equipe até começa bem, consegue circular a bola e cria sensação de controle. Só que aos poucos o rendimento cai, os espaços aparecem e o time começa a perder agressividade sem a bola.
O problema é que, no futebol brasileiro atual, perder intensidade por 15 ou 20 minutos muitas vezes já basta para perder jogo.
O elenco do Bahia talvez não seja tão forte quanto parece
Essa é uma conversa que muita gente evita porque o Grupo City naturalmente cria expectativa gigante ao redor do clube. Parece que o Bahia automaticamente deveria atropelar qualquer adversário apenas pelo investimento realizado. Mas futebol não funciona assim.
O elenco do Bahia possui qualidade técnica interessante, principalmente do meio para frente, mas talvez ainda tenha limitações importantes em profundidade e equilíbrio físico. E isso pesa muito em temporadas longas.
Quando alguns jogadores entram em baixa simultaneamente, o time sente demais. Além disso, existe um ponto que começa a preocupar: certos atletas parecem estar longe do melhor momento individual justamente quando o coletivo mais precisa deles.
E no futebol, treinador sempre paga parte dessa conta.
Rogério Ceni perdeu o elenco?
Sempre que um time entra em sequência ruim, aparece rapidamente a teoria de “o treinador perdeu o grupo”. Só que, sinceramente? Não parece exatamente esse o cenário do Bahia neste momento.
O comportamento do elenco ainda demonstra competitividade em vários momentos. O time continua tentando executar a ideia do treinador, algo que normalmente desaparece quando o vestiário rompe completamente com a comissão técnica. Além disso, Rogério Ceni ainda possui algo muito importante ao seu favor: respaldo interno.
O Bahia vem tentando construir um projeto de longo prazo, e isso muda bastante a dinâmica em relação ao futebol brasileiro tradicional, onde três derrotas normalmente já bastam para transformar qualquer técnico em demitido em potencial.
Existe uma compreensão dentro do clube de que trabalhos estruturados passam por oscilações. O problema é que sequência ruim gera pressão emocional. E pressão emocional muda ambiente rapidamente.
O clima começa a ficar perigoso
Talvez essa seja a parte mais delicada da situação. Mesmo que Rogério ainda tenha respaldo da diretoria, futebol brasileiro é movido por atmosfera. E sete jogos sem vitória começam a criar um ambiente pesado naturalmente.
A confiança dos jogadores diminui. A torcida fica mais irritada. Cada erro individual parece maior. Cada coletiva vira debate nacional. E o futebol começa a ficar emocionalmente mais difícil. Isso já aparece dentro de campo.
O Bahia vem demonstrando ansiedade em momentos decisivos das partidas. Em alguns jogos, o time claramente acelera jogadas sem necessidade quando sofre pressão. Em outros, perde agressividade após sofrer gols.
São sintomas clássicos de equipe vivendo desgaste psicológico. E recuperar isso exige muito mais do que apenas ajuste tático.
O grande dilema: insistir no projeto ou apertar o botão do desespero?
A grande questão envolvendo o Bahia talvez seja justamente essa. O clube realmente acredita num projeto de longo prazo ou vai agir como qualquer outro time brasileiro quando a pressão aumentar?
Porque existe um ponto importante aqui: trocar treinador agora talvez alivie emocionalmente o ambiente no curto prazo, mas dificilmente resolveria automaticamente os problemas estruturais do time.
Ao mesmo tempo, também seria ingenuidade fingir que tudo está normal. Sete jogos sem vencer nunca são normais para um elenco desse nível de investimento.
Rogério Ceni também tem responsabilidade nisso. Em alguns momentos, o Bahia parece excessivamente dependente de controle territorial sem conseguir transformar posse em agressividade real. Em outros, o time parece vulnerável demais defensivamente quando perde intensidade na pressão.
Ou seja: existem críticas legítimas ao trabalho. Só que também existe um risco enorme em jogar fora um processo inteiro no primeiro grande momento de turbulência.
Rogério Ceni ainda pode recuperar o Bahia, mas a resposta precisa vir logo
Se existe uma conclusão razoável hoje, talvez seja essa: o trabalho ainda parece recuperável.
O Bahia não demonstra sinais claros de terra arrasada. O elenco ainda compete. O time ainda apresenta mecanismos coletivos identificáveis. E Rogério Ceni continua sendo um treinador capaz de organizar equipes competitivas quando encontra confiança e estabilidade.
Só que futebol brasileiro não costuma esperar calmamente por recuperação.
A pressão aumenta rápido. A crise cresce rápido. E sete jogos sem vencer já são suficientes para transformar qualquer projeto sólido em debate permanente sobre demissão.
O Bahia ainda parece mais próximo de uma fase ruim do que de um colapso completo.
Mas para impedir que essa percepção mude, Rogério Ceni precisa fazer o time voltar a vencer logo. Porque no futebol, ideia de longo prazo é maravilhosa… até a próxima sequência sem vitória aparecer.
Foto: Divulgação/EC Bahia