Tottenham - Richarlison
Futebol Premier League

Tottenham e o risco de um rebaixamento histórico na Premier League

O Tottenham ser rebaixado para a Championship seria um dos desfechos mais inacreditáveis da história da Premier League. O clube, um dos integrantes do “Big Six” do futebol inglês, chega à reta final da temporada 2025/26 mergulhado em uma desesperadora luta contra o rebaixamento para a segunda divisão. Atualmente ocupando a 17ª colocação na tabela, uma acima da zona de rebaixamento, os Spurs flertam com a queda.

O que torna essa situação ainda mais emblemática não é apenas o fracasso esportivo, mas a grande disparidade entre a estrutura do clube e a realidade da segunda divisão. Os números do Tottenham escancaram a contradição entre um dos clubes mais poderosos financeiramente e institucionalmente da Europa e uma equipe que, por incompetência dentro de campo, corre o risco de jogar em estádios de bairro na próxima temporada. Se a queda se confirmar, o futebol inglês testemunhará uma das quedas mais inesperadas de sua história recente.

Uma das maiores folhas salariais da Premier League

Um dos maiores indicadores que demonstram o quão absurda seria a queda para a Championship envolve o valor de mercado dos jogadores do clube. O Tottenham possui o sexto elenco mais valioso de toda a Premier League, avaliado em 747,8 milhões de libras. Esse montante é tão superior ao orçamento dos tradicionais rivais de meio e fim de tabela que a torcida legitimamente se questiona se o preço pago por esses jogadores condiz com os resultados em campo. Sob a ótica do custo-benefício, os Spurs possuem o pior desempenho de toda a elite inglesa.

A folha salarial é outro ponto de estrangulamento em caso de rebaixamento. O Tottenham gasta anualmente cerca de 136,8 milhões de libras em salários com o elenco principal, representando a sétima maior folha do país. São 62,6 milhões de libras a mais do que o West Ham, rival direto na briga contra o Z3.

Para se ter uma ideia da disparidade, a folha do Tottenham é três vezes maior do que a do elenco mais bem pago da Championship nesta temporada, o Leicester City, que, ironicamente, também acabou rebaixado. Como o técnico Roberto De Zerbi não possui cláusula de rescisão automática por rebaixamento em seu contrato, e os vínculos dos atletas mais bem pagos são complexos, a queda exigirá um corte de custos sem precedentes na história do clube.

Tottenham jogando em estádios de 10 mil lugares

A discrepância entre as realidades das ligas é mostrada pelo comportamento das torcidas adversárias. Recentemente, torcedores do Lincoln City celebraram o título da League One, equivalente à terceira divisão do futebol inglês, e assim conseguiram o acesso à Championship, cantando ironicamente sobre a possível queda do Tottenham. A expectativa de o Lincoln City visitar o icônico estádio do Tottenham, um dos maiores do país, que custou 1 bilhão de libras, virou motivo de piada.

O verdadeiro choque cultural seria nos jogos fora de casa. Enquanto o estádio do Tottenham comporta pouco mais de 62 mil torcedores, o LNER Stadium, casa do Lincoln City, tem capacidade para apenas pouco mais de 10 mil pessoas. Outro estádio que seria de grande contraste com a arena do Tottenham seria o menor estádio da Championship atualmente, o Kassam Stadium, do Oxford United, que abriga apenas 12 mil torcedores. É um universo completamente diferente daquele com o qual os grandes jogadores do clube londrino estão habituados a jogar.

Uma queda para a Championship impactaria diretamente as finanças de bilheteria da equipe. Atualmente, o clube vende seus carnês anuais entre 856 e 2.223 libras, no setor mais nobre do estádio. Se comparado com o preço do carnê mais alto de times da Championship, o Queens Park Rangers comercializa pacotes equivalentes por 262 libras.

Outra discrepância seria na tecnologia e na qualidade dos centros de treinamento. Enquanto o CT do Tottenham custa mais de 65 milhões de libras, recentemente o Stoke City investiu apenas 10 milhões de libras em seu novo local de treinamento.

O tamanho do possível desastre do Tottenham

No início de 2026, o Tottenham foi considerado o nono clube mais rico do planeta, registrando uma receita bruta de 565 milhões de libras na temporada anterior, superando clubes como Manchester United, Chelsea e Inter de Milão. Toda a Championship combinada faturou 958 milhões de libras no último balanço financeiro. Além do prestígio ridicularizado, o rebaixamento traria um prejuízo imediato de mais de 100 milhões de libras em direitos de transmissão e patrocínios perdidos.

No aspecto esportivo, o clube estabeleceria um precedente melancólico. Na temporada passada, o Tottenham conquistou a Liga Europa e, assim, se tornaria o primeiro clube na história do futebol inglês a ser rebaixado para a segunda divisão tendo três taças continentais de primeiro escalão em sua sala de troféus.

Até mesmo nas redes sociais o tamanho do clube é desproporcional. O Tottenham conta com quase 10 milhões de seguidores a mais no Instagram do que o Leicester City, a equipe mais popular da Championship. O rebaixamento para a segunda divisão não seria apenas um colapso esportivo temporário, mas o maior choque de gestão e realidade da história do futebol de elite.

Créditos da foto de capa: Reuters