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Futebol La Liga

Real Madrid e a maldição dos técnicos espanhóis: por que nenhum conseguiu repetir o sucesso de Vicente del Bosque?

O futebol espanhol vive uma era de enorme prestígio no cenário internacional. Técnicos como Pep Guardiola, Luis Enrique, Mikel Arteta, Unai Emery e Andoni Iraola são frequentemente apontados entre os melhores treinadores do mundo. Seus trabalhos acumulam títulos, campanhas históricas e reconhecimento por diferentes estilos de jogo.

Curiosamente, existe um lugar onde os treinadores espanhóis parecem encontrar dificuldades incomuns: o banco de reservas do Real Madrid.

A temporada 2025-26 voltou a reforçar essa tendência. O clube merengue terminou mais um ano sem conquistar títulos importantes, mesmo após apostar em dois treinadores espanhóis ao longo da campanha. Primeiro foi Xabi Alonso, depois Álvaro Arbeloa. Nenhum dos dois conseguiu recolocar o clube no caminho das conquistas.

O cenário reabre uma discussão que acompanha o Real Madrid há mais de duas décadas. Desde a saída de Vicente del Bosque, em 2003, nenhum treinador espanhol conseguiu se estabelecer de forma realmente vitoriosa no comando da equipe principal.

Xabi Alonso e Arbeloa ampliaram uma sequência que já dura mais de 20 anos

Xabi Alonso
Foto: Reuters/Hannah McKay

A temporada começou cercada de expectativas para os torcedores do Real Madrid.

Após o fim da passagem de Carlo Ancelotti, a diretoria apostou em Xabi Alonso, que havia realizado um trabalho histórico no Bayer Leverkusen. O ex meio campista madridista chegava ao Santiago Bernabéu carregando o status de uma das grandes promessas da nova geração de treinadores.

O início até trouxe esperança.

Até o primeiro clássico contra o Barcelona pela La Liga, o Real Madrid liderava o campeonato com cinco pontos de vantagem. O problema era que os resultados não vinham acompanhados de atuações convincentes.

A derrota naquele clássico marcou o início da queda. A equipe perdeu força na disputa dos títulos e a derrota para o Barcelona na final da Supercopa da Espanha acabou selando o destino de Xabi Alonso.

Segundo a análise feita pela imprensa espanhola, um dos principais problemas foi a dificuldade do treinador em criar uma conexão sólida com o vestiário.

Na tentativa de mudar o cenário, Florentino Pérez apostou em outro treinador espanhol.

Álvaro Arbeloa, que vinha trabalhando nas categorias de base do clube, assumiu a equipe ainda viva nas três competições da temporada. Porém, os resultados continuaram abaixo das expectativas.

O Real Madrid foi eliminado pelo Albacete na Copa do Rei, ficou distante da disputa pelo título espanhol e caiu diante do Bayern de Munique nas quartas de final da Champions League.

No fim da temporada, Arbeloa também deixou o cargo.

Mais uma tentativa frustrada de um técnico espanhol no maior clube do país.

Uma história que começou logo após Del Bosque

O problema não é recente.

Desde a saída de Vicente del Bosque, o Real Madrid tentou diversas vezes entregar o comando da equipe para treinadores espanhóis.

O primeiro deles foi José Antonio Camacho, em 2004.

Sua passagem foi tão curta que durou apenas seis jogos. O próprio treinador pediu demissão ao perceber que não conseguiria implementar as mudanças que considerava necessárias dentro do elenco dos chamados Galácticos.

Depois dele veio Mariano García Remón.

Apesar de registrar 12 vitórias em 20 partidas, o treinador não resistiu até o fim da temporada e foi substituído por Vanderlei Luxemburgo.

Em seguida surgiu Juan Ramón López Caro, que também não conseguiu interromper o período sem títulos do clube.

O próximo nome foi Juande Ramos, contratado em 2008 para substituir Bernd Schuster. Sua missão era enorme: tentar competir contra o Barcelona que começava a ser construído por Pep Guardiola.

A diferença entre os dois projetos ficou evidente e Juande deixou o cargo ao final da temporada.

Em 2015, o Real Madrid voltou a apostar em um treinador espanhol ao contratar Rafa Benítez.

O técnico realizou o sonho de comandar o clube, mas encontrou dificuldades para conquistar o elenco. Sua passagem terminou ainda durante o período de Natal, quando Florentino Pérez decidiu substituí-lo por Zinédine Zidane.

A mudança produziu efeito imediato. Zidane conquistou a Champions League poucos meses depois.

O último espanhol antes da dupla formada por Xabi Alonso e Arbeloa foi Julen Lopetegui.

Contratado após deixar a seleção espanhola antes da Copa do Mundo de 2018, ele encontrou um clube que acabava de perder Cristiano Ronaldo. O desafio se mostrou grande demais e sua passagem terminou após a goleada por 5 a 1 sofrida para o Barcelona no Camp Nou.

O problema está nos treinadores ou no contexto do Real Madrid?

Manchester City - Pep Guardiola
Foto: Stu Forster/Getty Images

A dificuldade dos treinadores espanhóis no Real Madrid chama atenção justamente porque ela contrasta com o sucesso desses profissionais em outros lugares.

Pep Guardiola construiu uma dinastia no Manchester City e anteriormente revolucionou o Barcelona.

Luis Enrique conquistou títulos importantes por onde passou e levou o Paris Saint-Germain a mais uma final de Champions League.

Na Inglaterra, Mikel Arteta recolocou o Arsenal entre as principais forças do continente. Unai Emery transformou o Aston Villa em protagonista europeu. Já Andoni Iraola consolidou o Bournemouth como uma das equipes mais interessantes da Premier League.

Isso sugere que a questão talvez não esteja na nacionalidade dos treinadores.

O Real Madrid é um clube que opera em uma dimensão diferente da maioria dos gigantes europeus. A pressão por resultados imediatos é constante. Poucos treinadores recebem tempo para desenvolver projetos de longo prazo e qualquer sequência negativa costuma gerar questionamentos intensos.

Além disso, lidar com um elenco repleto de estrelas exige habilidades de gestão que muitas vezes vão além da capacidade tática.

Não por acaso, os técnicos que mais tiveram sucesso recente no clube foram nomes como Carlo Ancelotti e Zinédine Zidane, reconhecidos pela habilidade em administrar vestiários complexos.

Existe uma nova oportunidade no futuro?

O fracasso de Xabi Alonso e Arbeloa não significa necessariamente que um treinador espanhol jamais voltará a triunfar no Santiago Bernabéu.

Pelo contrário.

A nova geração de técnicos espanhóis continua produzindo trabalhos de altíssimo nível em diferentes ligas da Europa. O sucesso de Arteta, Emery, Iraola, Cesc Fàbregas e outros profissionais mostra que o país segue sendo uma das maiores escolas de treinadores do mundo.

Ainda assim, os fatos são difíceis de ignorar.

Mais de duas décadas se passaram desde a saída de Vicente del Bosque. Nesse período, Camacho, García Remón, López Caro, Juande Ramos, Rafa Benítez, Julen Lopetegui, Xabi Alonso e Álvaro Arbeloa tentaram quebrar essa barreira.

Nenhum conseguiu.

Enquanto os técnicos espanhóis seguem conquistando espaço e títulos por toda a Europa, o banco de reservas do Real Madrid continua sendo um dos desafios mais difíceis e enigmáticos do futebol.

(Foto de capa: RMCF)

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Kaique