Maior finalista da história das Copas do Mundo, a Alemanha disputará sua 21ª participação no torneio. A seleção comandada por Julian Nagelsmann surge como favorita no Grupo E, embora a chave, composta por Equador, Costa do Marfim e Curaçao, seja mais complicada do que aparenta à primeira vista.
Para a edição de 2026, os tetracampeões mundiais não carregam o status de favoritos ao título. Desta vez, entram como integrantes de uma segunda prateleira de candidatos, reflexo do retrospecto negativo nas últimas edições do torneio e de um ciclo recente marcado por turbulências.
Foram duas eliminações consecutivas ainda na fase de grupos, em 2018 e 2022. Em ambas as campanhas, a Alemanha sofreu derrotas para seleções asiáticas — Coreia do Sul e Japão — além de um revés para o México e uma vitória dramática sobre a Costa Rica.
Tudo isso pode ser visto como consequência de uma renovação que demorou mais do que o esperado. A transição da geração de Manuel Neuer, Thomas Müller, Toni Kroos e Jérôme Boateng para a atual, liderada por Joshua Kimmich, Jamal Musiala, Florian Wirtz e Aleksandar Pavlovic, foi repleta de obstáculos. Desde o título conquistado no Brasil, em 2014, a seleção sequer conseguiu voltar a disputar uma fase eliminatória de Copa do Mundo.
Portanto, o objetivo é claro: encerrar o estigma que acompanha a equipe desde 2018. Mantendo boa parte da base que disputou a Eurocopa de 2024, as Águias — apelido derivado do símbolo nacional alemão — pretendem retomar o protagonismo e voltar a frequentar as fases decisivas do torneio.
Como joga a Alemanha?

Desde que assumiu a seleção em 2023, Julian Nagelsmann implementou uma identidade compatível com a tradição do futebol alemão: pressão alta, transições rápidas e objetividade nas ações ofensivas. Com passagens por Bayern, RB Leipzig e Hoffenheim, o treinador de 38 anos trouxe organização e clareza ao projeto esportivo da Mannschaft.
Ao longo do ciclo, Nagelsmann definiu de forma bastante clara os papéis de cada jogador dentro do elenco, estabelecendo titulares, reservas e atletas de apoio. A metodologia pode não agradar a todos, mas trouxe estabilidade e planejamento, fatores que contribuíram para os bons desempenhos observados em 2024 e 2025.
Em campo, a Alemanha costuma atuar a partir do 4-2-3-1. Quando tem a posse de bola, a estrutura se transforma em um 3-1-4-2. Sem ela, o desenho normalmente se reorganiza em um 4-4-2 compacto.
A construção ofensiva passa diretamente pela qualidade de passe de jogadores como Joshua Kimmich, Nico Schlotterbeck e Aleksandar Pavlovic. O trio possui grande capacidade para quebrar linhas e encontrar companheiros em condições favoráveis de progressão.
Na saída de bola, os alemães contam com múltiplas alternativas. Schlotterbeck inicia boa parte das jogadas pelo lado esquerdo, enquanto Pavlovic oferece suporte pelo centro. Já Kimmich, escalado como lateral-direito, frequentemente atua como um meio-campista adicional durante a fase ofensiva.
Na frente, as movimentações são constantes. Como a lateral direita costuma ser ocupada por um jogador responsável pela construção das jogadas, o corredor esquerdo ganha protagonismo. David Raum, do RB Leipzig, avança constantemente e oferece profundidade ao ataque alemão, aparecendo com frequência na última linha defensiva adversária.
No meio-campo, Leon Goretzka desempenha uma função mais física e vertical. O volante do Bayern é responsável por atacar espaços, pressionar sem bola e aparecer como elemento surpresa próximo da área.
Já o ataque é marcado pela intensa mobilidade. Quando Raum avança pelo lado esquerdo, Florian Wirtz costuma abrir espaço para a ultrapassagem do lateral. Essa dinâmica beneficia o jogador do Liverpool, que possui enorme capacidade de decisão, seja nos dribles em situações de um contra um ou na qualidade das finalizações.
A criação ofensiva fica sob responsabilidade de Jamal Musiala. Mesmo convivendo com problemas físicos ao longo do ciclo, o camisa 10 continua sendo a principal referência técnica da equipe. Sua missão é conectar os setores e abastecer o centroavante, posição que deve ser ocupada por Nick Woltemade ou Kai Havertz.
Principais jogadores

Historicamente, a Alemanha sempre contou com grandes goleiros, mas poucos alcançaram o nível de Manuel Neuer. O veterano é frequentemente citado entre os maiores da história da posição e rivaliza com nomes como Gianluigi Buffon quando o assunto é legado no século XXI.
Desde sua estreia pela seleção, em 2009, Neuer assumiu o posto ocupado anteriormente por ídolos como Harald Schumacher, Oliver Kahn e Toni Turek. Sua principal contribuição foi revolucionar a função do goleiro moderno, atuando praticamente como um líbero e participando ativamente da construção das jogadas.
Em 2024, Neuer anunciou sua aposentadoria da seleção, abrindo espaço para Marc-André ter Stegen. Entretanto, as lesões e a irregularidade do goleiro do Barcelona geraram dúvidas. Em 2026, Nagelsmann conseguiu convencer o veterano a retornar, e ele chega ao Mundial como titular absoluto.
No meio-campo, Joshua Kimmich aparece como o principal líder técnico da equipe. Versátil, inteligente e extremamente competitivo, o camisa 6 acumulou experiências importantes sob o comando de Pep Guardiola, Hansi Flick e do próprio Nagelsmann. Sua evolução merece destaque até hoje: de jogador emprestado ao RB Leipzig a um dos melhores meio-campistas do futebol mundial.
Por fim, Florian Wirtz e Jamal Musiala representam o futuro e o presente da Alemanha. Os dois foram pilares do projeto que recolocou a Alemanha entre as principais forças do continente.
Wirtz foi protagonista da histórica conquista da Bundesliga pelo Bayer Leverkusen, enquanto Musiala consolidou-se como uma das maiores joias formadas pelo Bayern de Munique. Ambos combinam criatividade, capacidade de decisão e personalidade para atuar em grandes palcos.
No entanto, sofreram com obstáculos no caminho. Wirtz transferiu-se para o Liverpool após temporadas mágicas e, em Anfield, demorou a conquistar seu espaço como titular. Musiala tem um caso mais grave. Na Copa do Mundo de Clubes do ano passado, o meia-atacante lesionou-se gravemente e ficou de fora boa parte da temporada 2025/2026, tendo retornado apenas na reta fina dela.
Como foi o ciclo para a Copa do Mundo?

A eliminação na fase de grupos da Copa do Mundo de 2022 deixou a Alemanha profundamente abalada. A campanha frustrante acelerou mudanças importantes dentro da Federação Alemã de Futebol (DFB) e culminou na saída de Hansi Flick meses depois.
O rejuvenescimento do elenco tornou-se prioridade, especialmente porque o país sediaria a Eurocopa de 2024. Encontrar o equilíbrio entre veteranos consagrados, como Toni Kroos, Ilkay Gündogan e Thomas Müller, e jovens talentos como Musiala, Havertz e Wirtz foi um processo delicado, mas necessário.
Os resultados começaram a aparecer na Euro. Jogando em casa, a Alemanha chegou ao torneio como uma das favoritas ao título. Contudo, a derrota para a Espanha nas quartas de final, em uma partida marcada por polêmicas de arbitragem, encerrou o sonho diante da própria torcida.
Após a Euro, o foco passou a ser totalmente as Eliminatórias para a Copa do Mundo. Em uma chave composta por Eslováquia, Irlanda do Norte e Luxemburgo, os alemães confirmaram o favoritismo.
A única derrota veio justamente contra os eslovacos, por 2 a 0. Fora esse tropeço, a campanha foi praticamente impecável: cinco vitórias, nenhum empate e apenas um revés. O ataque marcou 16 gols, enquanto a defesa sofreu apenas três.
Onde pode chegar?

A Alemanha entra na Copa do Mundo como favorita para terminar na liderança do Grupo E. O elenco reúne qualidade técnica, profundidade e um modelo de jogo consolidado, fatores que reforçam essa condição.
Ainda assim, a caminhada não será simples. Equador e Costa do Marfim possuem características capazes de causar problemas aos alemães, especialmente pela intensidade física e pela velocidade nas transições ofensivas.
Contra Curaçao, a expectativa é diferente. Trata-se do único confronto em que a equipe de Nagelsmann chega pressionada a vencer com ampla vantagem para construir saldo de gols.
Os alemães vêm para pôr fim ao estigma que os acompanha desde 2018. A seleção não figura entre as principais favoritas ao título, mas possui elenco, organização tática e talento suficiente para voltar a frequentar as fases decisivas. Uma campanha até as quartas de final parece obrigação; chegar às semifinais não seria surpresa.
Os jogos da Alemanha na Copa do Mundo
Grupo E
14/06 – 14h: Alemanha x Curaçao (NRG Stadium – Houston)
20/06 – 17h: Alemanha x Costa do Marfim (BMO Field – Toronto)
25/06 – 17h: Equador x Alemanha (MetLife Stadium – Nova Jersey)
Créditos da foto de capa: Reprodução/DFB