Depois de 28 anos longe do principal palco do futebol mundial, a Escócia finalmente está de volta à Copa do Mundo. A classificação conquistada de forma dramática ainda está fresca na memória dos torcedores, mas agora chegou a hora de encarar a realidade: o sonho de avançar ao mata-mata pela primeira vez na história passa por uma série de desafios dentro e fora de campo.
A preparação para o Mundial terminou com motivos para otimismo. Os escoceses venceram Curaçao e Bolívia por 4 a 0, recuperando a confiança após derrotas apertadas para Japão e Costa do Marfim em março. No entanto, nem tudo foram boas notícias. A grave lesão de Billy Gilmour mudou completamente o planejamento de Steve Clarke às vésperas da estreia.
Com Haiti, Marrocos e Brasil pelo caminho, a Escócia sabe que precisará encontrar soluções rapidamente para transformar a empolgação da torcida em resultados.
O golpe de última hora: quem substitui Billy Gilmour?
Se havia um jogador que Steve Clarke não queria perder, esse jogador era Billy Gilmour.
O meio-campista da Escócia vinha sendo peça fundamental na organização da equipe e era responsável por dar equilíbrio entre defesa e ataque. Sua lesão no joelho durante o amistoso contra Curaçao foi um verdadeiro balde de água fria para a seleção.
A convocação emergencial do jovem Tyler Fletcher mostra que a comissão técnica precisou agir rápido, mas a realidade é que substituir Gilmour não será simples.
A ausência do camisa 8 aumenta ainda mais a responsabilidade sobre Scott McTominay e John McGinn, dois dos jogadores mais experientes e influentes do elenco. A tendência é que ambos assumam ainda mais protagonismo na construção das jogadas e na liderança dentro de campo.
O eterno debate: quem será o camisa 9?
Toda seleção tem uma discussão que nunca acaba. Na Escócia, ela atende pelo nome de “quem joga no ataque?”.
Durante as Eliminatórias e os amistosos preparatórios, Steve Clarke testou praticamente todas as combinações possíveis. Ché Adams, Lyndon Dykes, George Hirst, Lawrence Shankland e Ross Stewart receberam oportunidades em diferentes momentos.
Entre todos eles, quem chega mais credenciado para a Copa é Lawrence Shankland.
O atacante vive grande momento desde a excelente temporada pelo Hearts e manteve a boa fase nos amistosos de preparação, marcando três gols em duas partidas. O desempenho foi tão convincente que seria uma surpresa vê-lo começar no banco contra o Haiti.
A principal dúvida parece estar em quem será seu parceiro. Ché Adams surge como favorito por oferecer mais mobilidade e experiência internacional. Contra seleções teoricamente mais fortes, como Marrocos e Brasil, não seria surpresa se Clarke optasse por apenas um centroavante para reforçar o meio-campo.
Afinal, quando o adversário é o Brasil, até os mais corajosos costumam pensar duas vezes antes de se lançar ao ataque.
McTominay, McGinn e Robertson: o trio que sustenta a esperança escocesa
Toda seleção que sonha com algo grande precisa de suas estrelas em alto nível.
No caso da Escócia, três nomes aparecem imediatamente como fundamentais: Scott McTominay, John McGinn e Andy Robertson.
McTominay chega embalado após uma temporada brilhante pelo Napoli. O meio-campista se transformou em um dos jogadores mais completos da posição, contribuindo tanto defensivamente quanto ofensivamente. Sua capacidade de aparecer na área adversária pode ser decisiva em partidas equilibradas.
McGinn continua sendo o motor da equipe. O capitão do Aston Villa mistura intensidade, liderança e qualidade técnica, características que fazem dele um dos atletas mais importantes da geração escocesa.
Já Robertson segue como a alma da seleção. O lateral-esquerdo continua sendo referência técnica e emocional dentro do grupo, mesmo após dividir minutos em seu clube durante a temporada.
A missão da comissão técnica é simples na teoria e complicada na prática: manter os três saudáveis durante toda a competição.
Uma preocupação silenciosa: falta ritmo aos goleiros
Se existe um setor que gera dúvidas nos bastidores, esse setor é o gol.
Craig Gordon, Angus Gunn e Liam Kelly chegam à Copa com uma quantidade surpreendentemente baixa de minutos em campo durante a temporada.
Gordon, aos 43 anos, continua desafiando qualquer lógica esportiva. O veterano passou boa parte da temporada lesionado, mas segue demonstrando a segurança que o transformou em um dos maiores goleiros da história recente do futebol escocês.
Gunn também teve poucas oportunidades em seu clube, enquanto Kelly atuou principalmente em competições secundárias.
No papel, experiência não falta. O problema da Escócia é o ritmo de jogo, algo impossível de ser simulado nos treinamentos. Em torneios curtos, um goleiro decisivo pode valer pontos preciosos. A Escócia espera que a falta de minutos não cobre um preço alto justamente quando a pressão aumentar.
Laterais-direitos chegam cercados de dúvidas
Outro setor que preocupa é a lateral-direita.
Aaron Hickey aparece como titular natural, mas conviveu com problemas físicos durante boa parte da temporada. Nathan Patterson também teve participação limitada em seu clube, enquanto Anthony Ralston não conseguiu se firmar como primeira opção em diversas ocasiões.
Dependendo do esquema escolhido por Steve Clarke, a importância desse setor pode aumentar ainda mais.
Se a equipe atuar com alas, os laterais terão papel fundamental tanto na marcação quanto no apoio ofensivo. Em outras palavras: vão correr bastante.
A maior pressão em quase três décadas
A classificação da Escócia para a Copa foi construída com um roteiro digno de cinema.
O gol histórico de Kieran Tierney contra a Dinamarca, praticamente do meio-campo, virou um dos momentos mais marcantes do futebol escocês nos últimos anos e encerrou uma espera que parecia interminável.
A Escócia jamais avançou para as fases eliminatórias de uma Copa do Mundo. Com o novo formato da competição oferecendo mais vagas no mata-mata, a oportunidade parece melhor do que nunca.
A estreia diante do Haiti pode ser determinante. Uma vitória colocaria os escoceses em posição extremamente favorável antes dos desafios contra Marrocos e Brasil. E se existe algo que essa seleção já mostrou nos últimos anos, é que ela sabe lidar com jogos dramáticos.
Os torcedores da Escócia certamente estarão presentes em peso, transformando Boston e Miami em verdadeiras extensões de Glasgow. O sonho escocês está vivo, mas para transformá-lo em realidade será preciso superar lesões, administrar a pressão e encontrar respostas rápidas para problemas importantes.
Depois de quase três décadas de espera, ninguém na Escócia pretende desperdiçar essa oportunidade.
Foto: Craig Williamson/SNS Group via Getty Images
