A Copa do Mundo costuma funcionar como vitrine. Jogadores valorizam mercado, seleções ganham confiança e clubes acompanham de longe esperando que seus atletas confirmem em campo o nível mostrado ao longo da temporada. Mas para o Barcelona, o início do torneio deixou uma sensação diferente. Em vez de atuações que reforçassem o domínio do elenco azul-grená no cenário internacional, os primeiros jogos levantaram dúvidas.
O clube catalão enviou 16 jogadores para a competição, um dos maiores números entre todos os participantes. Só que a estreia dos atletas espalhados pelas seleções teve um padrão difícil de ignorar: pouco brilho, rendimento abaixo do esperado e uma impressão coletiva de desgaste depois de uma temporada extremamente exigente.
Claro que cada caso tem um contexto diferente. Alguns tiveram funções diferentes das que exercem no clube, outros chegaram sem ritmo ideal e alguns simplesmente enfrentaram partidas travadas. Ainda assim, o retrato geral do início de Mundial não foi exatamente animador para quem acompanha o Barcelona.
Espanha concentra boa parte das dúvidas do início do torneio
A Seleção da Espanha acabou reunindo boa parte dos exemplos que aumentaram o debate.
Joan García começou no banco, algo que já era esperado diante da presença de Unai Simón. Em campo, quem chamou atenção foi Gavi — mas não exatamente da forma que o torcedor espanhol imaginava. Escalado mais deslocado pela esquerda, teve dificuldade para participar do jogo e encontrou pouco espaço diante de uma defesa extremamente fechada de Cabo Verde.
Pedri viveu situação parecida. No Barcelona, atua mais recuado, organizando praticamente todas as ações ofensivas. Pela seleção, apareceu mais adiantado e demorou para entrar na partida. Só cresceu quando passou a receber a bola em zonas onde normalmente domina o jogo.
Ferran Torres também ficou devendo. Teve a principal oportunidade da Espanha, acertando o travessão, mas produziu pouco desequilíbrio pelos lados. Já Lamine Yamal talvez represente o caso mais simbólico desse início. Chegou ao torneio sem estar no melhor momento físico, mas mesmo entrando depois conseguiu mudar o ritmo da equipe e gerar expectativa para os próximos jogos.
Dani Olmo, por outro lado, acabou entrando tarde demais para muitos analistas. Em um jogo que pedia criatividade e infiltração, sua presença poderia ter mudado o cenário mais cedo.
Fora da Espanha o cenário também não foi dos melhores
A sensação de rendimento abaixo do esperado não ficou restrita aos espanhóis.
Jules Koundé começou mal pela França. Errou tomadas de decisão, teve perdas de bola e não conseguiu apoiar ofensivamente com regularidade no primeiro tempo. Cresceu depois do intervalo, mas ficou longe de transmitir segurança desde o início.
Frenkie De Jong também teve atuação discreta no empate da Holanda contra o Japão. Controlou o meio em alguns momentos e acertou praticamente todos os passes, mas apareceu pouco perto da área adversária — justamente onde costuma aumentar o impacto ofensivo.
João Cancelo, que se aproxima do fim de sua ligação com o Barcelona, também teve estreia sem grande destaque por Portugal. Até balançou as redes em uma bicicleta, mas o lance acabou anulado.
Anthony Gordon, contratação que chega cercada de expectativa para a próxima temporada, também não aproveitou a oportunidade com a Inglaterra. Participou bastante sem bola, pressionou e entregou intensidade, mas faltou qualidade ofensiva.
E para aumentar o desconforto em Barcelona, justamente o jogador que ainda não saiu completamente do radar do clube apareceu para decidir.

Rashford e Messi acabam roubando a cena
Marcus Rashford entrou durante a vitória da Inglaterra e marcou o quarto gol da equipe. Em uma noite em que outros jogadores ligados ao Barcelona passaram despercebidos, o atacante inglês aproveitou seus minutos e voltou a chamar atenção.
O contexto pesa ainda mais porque o clube catalão chegou a avaliar cenários envolvendo o jogador recentemente. Ver Rashford aparecer em alta justamente quando alguns nomes do atual elenco tiveram dificuldades inevitavelmente gera comparações.
Mas talvez nada tenha mexido mais com o imaginário do torcedor do que olhar para Lionel Messi.
Aos 38 anos, o argentino estreou com três gols e mostrou mais uma vez algo que parece acompanhar sua carreira inteira: em grandes torneios, ele continua encontrando maneiras de decidir.
Enquanto vários jogadores do atual elenco azul-grená ainda tentavam encontrar ritmo e protagonismo, o maior símbolo da história recente do clube apareceu novamente como centro das atenções.

O Barcelona ainda tem tempo para mudar a narrativa
Seria exagero tirar conclusões definitivas depois de uma rodada de Copa do Mundo.
Seleções evoluem durante o torneio, funções mudam e jogadores costumam crescer conforme a competição avança. O próprio calendário pesado da temporada ajuda a explicar por que tantos atletas chegaram sem o mesmo nível físico e mental.
Mas o início deixou um recado claro.
O Barcelona enviou quantidade suficiente de jogadores para esperar protagonismo imediato. Em vez disso, viu boa parte dos seus representantes começarem abaixo do esperado enquanto antigos alvos e antigos ídolos roubavam os holofotes.
Ainda existe muito torneio pela frente.
Só que o primeiro retrato da Copa, até aqui, trouxe mais perguntas do que respostas para o clube catalão.
Foto: Getty Images