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Copa do Mundo expõe divisão entre iranianos e transforma jogo em palco político nos Estados Unidos

A Copa do Mundo costuma ser um espaço de celebração, encontros culturais e histórias improváveis. Mas, para o Irã, o torneio de 2026 está revelando algo muito mais complexo. Antes mesmo de a bola rolar na partida contra a Bélgica, disputada no SoFi Stadium, em Los Angeles, o principal confronto do dia já acontecia do lado de fora do estádio.

E não era entre seleções.

De um lado, manifestantes contrários ao governo iraniano protestavam contra a equipe nacional, acusando jogadores e dirigentes de representarem os interesses do regime de Teerã. Do outro, grupos de torcedores defendiam o país, criticavam a política externa dos Estados Unidos e demonstravam apoio à seleção.

O resultado foi uma cena raríssima em Copas do Mundo: torcedores da mesma nacionalidade se enfrentando ideologicamente em meio a um dos maiores eventos esportivos do planeta.

Muito além do futebol

Os protestos começaram ainda antes da estreia do Irã contra a Nova Zelândia. Na ocasião, grupos de iranianos residentes nos Estados Unidos chegaram ao entorno do estádio carregando bandeiras, cartazes e palavras de ordem contra o governo do país.

Na partida diante da Bélgica, a mobilização foi ainda maior.

Próximo à entrada norte do SoFi Stadium, um grupo de apoiadores da seleção exibiu uma faixa acusando a FIFA de promover “jogos de guerra” e pediu o fim do que classificaram como “guerra dos Estados Unidos contra o Irã”. Entre os símbolos utilizados estava uma mochila rosa, referência a um protesto realizado pelos jogadores da seleção iraniana em março, após um ataque com mísseis no sul do país que matou cerca de 165 pessoas, a maioria crianças.

A poucos metros dali, outro grupo apresentava uma mensagem completamente diferente.

Vestidos com bandeiras proibidas pela FIFA, aquelas que trazem o tradicional leão e sol no centro, símbolo associado ao período anterior à Revolução Islâmica de 1979, os manifestantes afirmavam que a equipe atual não representa o povo iraniano.

Para eles, os jogadores estariam ligados aos interesses do governo.

A tensão ficou evidente ao longo de toda a tarde. Em determinado momento, um manifestante utilizou um megafone para gritar críticas ao que chamou de “glorificação de assassinos”, direcionando as palavras ao grupo rival.

Não houve confrontos físicos, mas o clima deixava claro que o futebol havia se tornado apenas um pano de fundo para uma disputa muito maior, algo que a Copa do Mundo não vê interessante em fazer parte.

Segurança reforçada e manifestações limitadas

As autoridades locais também pareciam preparadas para o cenário que era previsto nesta Copa do Mundo nos Estados Unidos.

Após os protestos registrados na estreia do Irã, a organização adotou uma postura mais rígida para a segunda partida da equipe.

Grupos que planejavam se aproximar do estádio foram impedidos pela Patrulha Rodoviária da Califórnia. Os agentes explicaram que os manifestantes possuíam autorização para protestar em uma área específica próxima ao estacionamento do Fórum de Inglewood, mas não poderiam avançar para as imediações do SoFi Stadium.

Quem conseguiu permanecer próximo aos portões foi cercado por barreiras improvisadas com bicicletas policiais e pela própria estrutura de segurança montada para o evento.

A intenção era simples: evitar que as tensões externas invadissem completamente o ambiente da Copa.

Dentro do estádio, cenário diferente

Se do lado de fora a divisão era evidente, dentro do estádio o apoio à seleção iraniana parecia predominante.

Durante o anúncio das escalações nos telões gigantes que circulam o teto do SoFi Stadium, praticamente todos os jogadores receberam aplausos. A exceção foi o técnico Amir Ghalenoei, alvo de vaias de parte dos presentes.

O momento do hino nacional nesta Copa resumiu bem o clima da partida.

Enquanto alguns torcedores cantavam, outros respondiam com vaias. O resultado foi uma mistura de sons que simbolizava perfeitamente a fragmentação vista ao redor do estádio.

Ainda assim, quando Mehdi Taremi balançou as redes da Bélgica no primeiro tempo, a maior parte do público presente explodiu em comemoração.

Por alguns segundos, parecia que o futebol conseguiria cumprir sua função mais tradicional: unir pessoas. Mas a alegria durou pouco.

Após revisão do VAR, o gol foi anulado por impedimento. A explosão de felicidade deu lugar à frustração imediata. Alguns torcedores chegaram a se emocionar nas arquibancadas, demonstrando o peso que aquele momento carregava.

Porque, para muitos iranianos espalhados pelo mundo, cada partida da seleção na Copa do Mundo representa muito mais do que três pontos.

A missão impossível da seleção iraniana na Copa

Nas últimas semanas de Copa do Mundo, jogadores e integrantes da comissão técnica têm insistido em uma mesma mensagem: a seleção pertence a todos os iranianos.

O principal porta-voz dessa ideia tem sido o atacante Mehdi Taremi.

Segundo o camisa 9, os atletas entram em campo para representar cada cidadão do país, independentemente de posicionamentos políticos, local de residência ou opiniões sobre o governo.

É uma declaração compreensível. Afinal, nenhuma seleção deseja carregar para dentro das quatro linhas os conflitos políticos de sua nação.

O problema é que, no caso do Irã, essa separação parece cada vez mais difícil.

A Copa do Mundo sempre produziu histórias que vão além do esporte. Algumas falam sobre superação, outras sobre zebras e algumas sobre heróis improváveis. A trajetória iraniana em 2026 está mostrando outro lado do torneio: o futebol como reflexo direto das tensões de uma sociedade.

Enquanto a bola continua rolando nos gramados dos Estados Unidos, México e Canadá, a seleção iraniana carrega uma responsabilidade que vai muito além dos resultados.

E a cena registrada antes do duelo contra a Bélgica deixa uma impressão difícil de ignorar: neste Mundial, o maior desafio do Irã talvez não esteja nos adversários que encontra em campo, mas nas profundas divisões que acompanham a equipe onde quer que ela vá.

Foto: Sports Illustrated