A Copa do Mundo tem mostrado uma Inglaterra diferente. A vitória por 4 a 2 sobre a Croácia na estreia deixou claro que a seleção comandada por Thomas Tuchel pretende seguir um caminho distinto daquele que marcou a passagem de Gareth Southgate. O objetivo continua sendo o mesmo, vencer e disputar títulos, mas a maneira de chegar lá parece ter mudado consideravelmente.
É importante lembrar que Southgate deixou um legado difícil de ignorar. Sob seu comando, a Inglaterra voltou a frequentar as fases decisivas dos grandes torneios, chegando a duas finais consecutivas de Eurocopa e recolocando os ingleses entre as principais potências do futebol mundial. Os resultados estavam lá.
Mas no futebol moderno existe uma discussão que sempre acompanha as vitórias: além de ganhar, como você ganha? E é justamente aí que a Copa do Mundo começa a revelar diferenças importantes entre os dois treinadores.
A Copa do Mundo evidencia um sistema acima das estrelas
Talvez a mudança mais visível da atual Inglaterra esteja nas escolhas feitas por Thomas Tuchel. Enquanto Southgate frequentemente buscava encaixar seus melhores jogadores em campo, mesmo que algumas funções não fossem ideais para eles, o treinador alemão parece seguir uma lógica oposta.
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A ideia é simples: primeiro vem o sistema. Depois vêm os jogadores.
A decisão de deixar nomes como Phil Foden, Cole Palmer e Trent Alexander-Arnold fora da convocação para a Copa do Mundo exemplifica perfeitamente essa filosofia. Não significa que esses atletas não tenham qualidade. Pelo contrário. O ponto é que Tuchel procura jogadores que executem exatamente o papel que ele deseja dentro de sua estrutura tática.
Foi justamente por isso que Morgan Rogers ganhou espaço. O meia oferece características que se encaixam melhor na função específica pensada pelo treinador, mesmo que tenha menos prestígio internacional do que outros concorrentes.
Na prática, Tuchel prefere abrir mão de alguns talentos individuais para construir uma engrenagem mais funcional. É uma aposta que pode gerar debates, mas que tem mostrado resultados positivos neste início de Copa do Mundo.
Menos improviso, mais mecanismos
Outra diferença importante está na forma como cada treinador encara os problemas que surgem durante uma partida.
Southgate costumava confiar bastante na capacidade dos jogadores resolverem situações por conta própria. Em muitos momentos, a Inglaterra dependia da criatividade de seus craques para destravar jogos complicados.
Foi assim que surgiram lances históricos como a bicicleta de Jude Bellingham contra a Eslováquia ou gols decisivos de Cole Palmer em momentos importantes.
Já Thomas Tuchel trabalha de maneira diferente.
O alemão aposta em movimentos ensaiados, posicionamentos pré-definidos e soluções treinadas exaustivamente durante a semana. Em vez de esperar que um jogador invente algo, ele procura criar situações em que o time inteiro saiba exatamente o que fazer.
O gol de Bellingham contra a Croácia, por exemplo, nasceu de uma jogada construída a partir de mecanismos que a equipe vem desenvolvendo há meses. A finalização foi individualmente brilhante, mas a construção foi coletiva.
Essa é uma das principais marcas da Inglaterra nesta Copa do Mundo.
A velocidade aumentou na Copa do Mundo
Se existe um aspecto que chamou atenção logo na estreia inglesa foi o ritmo do jogo.
Durante anos, a Inglaterra construiu suas jogadas de forma mais paciente. A equipe circulava a bola, avançava gradualmente e tentava controlar os espaços até encontrar uma brecha.
Sob o comando de Tuchel, a sensação é diferente.
A Inglaterra continua valorizando a posse, mas agora utiliza a circulação da bola para atrair a pressão adversária e acelerar rapidamente quando encontra espaço. Contra a Croácia, Jordan Pickford participou intensamente da construção justamente porque a estratégia envolvia chamar o adversário para frente antes de atacar os espaços deixados para trás.
O resultado foi uma equipe mais vertical, mais agressiva e mais difícil de prever.
Em uma Copa do Mundo cada vez mais marcada por detalhes táticos, essa mudança pode ser decisiva para as pretensões inglesas.
O meio-campo virou o centro do projeto
Uma das ideias mais discutidas pela comissão técnica inglesa envolve justamente a região central do campo.
Segundo o auxiliar Anthony Barry, muitos times modernos já sabem perfeitamente como defender perto da própria área ou pressionar na saída de bola. Por isso, a comissão acredita que o diferencial está na forma de acelerar o jogo no setor intermediário.
Essa teoria apareceu diversas vezes contra a Croácia.
Movimentações coordenadas de Declan Rice, Harry Kane, Elliot Anderson e Jude Bellingham criaram superioridade numérica e confundiram a marcação adversária. Tudo parecia muito calculado, quase como uma sequência de peças se movendo em um tabuleiro.
Para quem gosta de tática, foi um prato cheio. Para quem só quer ver gols, também funcionou.
A Copa do Mundo costuma premiar seleções capazes de equilibrar organização e talento. E é justamente esse equilíbrio que Tuchel busca construir.
Mais risco, mais espetáculo
Nem tudo são vantagens. O modelo de Tuchel naturalmente apresenta alguns riscos. Ao atacar com mais frequência e acelerar mais as transições, a Inglaterra também se expõe mais defensivamente.
Durante a partida contra a Croácia, houve momentos em que o sistema mostrou vulnerabilidades que raramente apareciam nas equipes de Southgate. Mas essa parece ser uma troca que o treinador aceita fazer.
Southgate era conhecido por controlar os jogos, reduzir riscos e evitar que as partidas se transformassem em trocação franca. Seu pensamento era simples: quanto menos caos, maiores as chances da qualidade inglesa prevalecer.
Tuchel segue uma linha diferente.
Ele acredita que vale a pena correr determinados riscos para aumentar o potencial ofensivo da equipe. A Inglaterra fica um pouco mais vulnerável, mas também se torna muito mais perigosa. Para muitos torcedores, é um preço justo a pagar.
A Copa do Mundo será o grande teste para Thomas Tuchel
No fim das contas, a Copa do Mundo será o principal laboratório para avaliar a nova Inglaterra de Thomas Tuchel. Gareth Southgate deixou uma equipe competitiva e acostumada a frequentar fases decisivas, mas o treinador alemão tenta dar um passo além ao implementar uma identidade mais agressiva e moderna.
A amostra ainda é pequena, mas os primeiros sinais desta Copa do Mundo apontam para uma seleção mais intensa, mais vertical e mais comprometida com um modelo coletivo. Se isso será suficiente para levar os ingleses ao título, somente os próximos jogos dirão.
O que já ficou claro é que a Copa do Mundo está servindo como palco para uma mudança significativa na forma como a Inglaterra interpreta o futebol. E, até aqui, Thomas Tuchel parece determinado a escrever um capítulo diferente da história recente da seleção inglesa.
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