A Copa do Mundo costuma ser um ambiente interessante para observar tendências. Afinal, muitas vezes aquilo que parece dominante no futebol de clubes acaba não aparecendo com tanta força no torneio de seleções. Em outras ocasiões, ideias que pareciam ter perdido espaço voltam a ganhar importância. E é justamente isso que está acontecendo em 2026.
Em uma época marcada por diferentes formas de construir jogadas, ataques posicionais cada vez mais trabalhados e inúmeras variações táticas, uma estratégia bastante tradicional vem funcionando para muitas equipes. O velho jogo pelos lados, com amplitude, chegadas à linha de fundo e cruzamentos para a área, está aparecendo com destaque na Copa do Mundo.
Com o passar do tempo, cruzar a bola foi tratado por parte do debate futebolístico quase como um sinal de falta de criatividade. Em muitos casos, a ideia era vista como uma solução simples para problemas complexos. No entanto, os números desta Copa mostram que a realidade pode ser diferente. Quando executado da maneira correta, o recurso continua sendo extremamente eficiente.
Copa do Mundo mostra força do jogo pelos lados
Os dados ajudam a ilustrar o cenário. Das 48 seleções participantes da Copa do Mundo, 29 já marcaram pelo menos um gol nos cinco segundos seguintes a um cruzamento para a área. O número chama atenção por um motivo simples: representa um recorde para a competição desde que esse tipo de levantamento começou a ser registrado.
Ou seja, não estamos falando de um fenômeno isolado envolvendo uma ou duas equipes. Existe uma tendência espalhada por boa parte do torneio.
A Holanda talvez seja o principal exemplo até aqui. A seleção marcou gols oriundos de cruzamentos em seus dois primeiros compromissos na competição. Contra o Japão, Virgil van Dijk balançou as redes após uma bola levantada na área por Ryan Gravenberch. Depois, diante da Suécia, Brian Brobbey marcou duas vezes em jogadas originadas pelos lados do campo, enquanto Cody Gakpo também aproveitou um cruzamento para deixar sua marca.
Portugal aparece logo atrás nesse quesito. A equipe portuguesa já marcou quatro gols nos cinco segundos seguintes a cruzamentos, sendo três deles na partida contra o Uzbequistão. Entre eles, apareceu o gol de Cristiano Ronaldo após assistência rasteira de João Cancelo.
A Noruega também encontrou sucesso explorando esse caminho. Na estreia diante do Iraque, os noruegueses marcaram três gols em lances originados por cruzamentos. Um deles teve Erling Haaland atacando justamente o espaço nas costas da defesa para finalizar na segunda trave.
E talvez esse seja um dos pontos mais interessantes da história. Quando pensamos em cruzamentos, muitas vezes imaginamos aquelas bolas altas despejadas na área em busca de um centroavante. Mas boa parte do sucesso visto nesta Copa do Mundo está surgindo de outra forma. Em diversos casos, os cruzamentos são rasteiros, fortes e direcionados para espaços específicos atrás da linha defensiva.
Lamine Yamal, Cody Gakpo e Brian Brobbey marcaram gols desta maneira. Até mesmo o gol contra de Mohamed Hany, do Egito, contra a Bélgica surgiu em uma situação semelhante, quando Romelu Lukaku aparecia pronto para finalizar.
Isso ajuda a mostrar que o cruzamento continua sendo uma arma relevante. Apenas mudou sua forma de execução.
Copa do Mundo traz uma versão moderna de uma ideia antiga
O mais curioso é que essa explosão de gols originados pelos lados não está acontecendo porque as equipes estão cruzando mais. Na verdade, ocorre exatamente o contrário.
A média atual da Copa do Mundo é de 31,5 cruzamentos por partida. Trata-se do menor número já registrado na história da competição. Inclusive, o índice é quase 10% inferior ao observado na Copa do Mundo de 2022. Isso significa que o problema nunca foi o cruzamento em si. O ponto central parece estar na qualidade da execução.
Os números ajudam novamente a explicar o cenário. O valor médio de assistência esperada dos cruzamentos completos nesta Copa é de 0,076. Pode parecer apenas mais um dado estatístico, mas representa o melhor índice já registrado no torneio. Na prática, isso indica que os cruzamentos estão chegando em zonas mais perigosas do campo.
As equipes não estão simplesmente levantando a bola para a área esperando algo acontecer. Existe uma preocupação maior em encontrar espaços específicos e criar situações realmente favoráveis para quem vai finalizar. Parte disso também pode estar relacionada à forma como as defesas se comportam atualmente.
Muitas seleções optam por defender em bloco baixo, protegendo a região central do campo e dificultando infiltrações por dentro. Neste cenário, atacar pelos lados se torna uma alternativa natural para gerar desequilíbrios.
Além disso, várias equipes parecem estar explorando com inteligência os espaços deixados atrás dos laterais adversários. Em vez de tentar forçar jogadas pelo centro contra defesas congestionadas, elas movimentam a bola para os corredores e procuram atacar justamente essas brechas.
Ao mesmo tempo, outro fator que pode contribuir para isso é a tecnologia. Esta é a primeira Copa do Mundo disputada com a combinação entre VAR e impedimento semiautomático. Com decisões mais precisas, os atacantes podem realizar movimentos agressivos nas costas da defesa sabendo que uma corrida perfeitamente sincronizada dificilmente será anulada por erro de arbitragem.
Naturalmente, isso favorece jogadas em profundidade e cruzamentos direcionados para espaços atrás da linha defensiva. Mas independentemente da explicação principal, o fato é que a Copa do Mundo apresenta um cenário bastante interessante.
Um terço de todos os gols marcados no torneio até aqui surgiu nos cinco segundos posteriores a um cruzamento. Apenas a Copa do Mundo de 2002 registrou uma proporção superior. Ainda assim, também seria exagero afirmar que estamos assistindo ao retorno completo do futebol de décadas atrás.
O que a Copa mostra não é exatamente uma volta ao passado. Pelo contrário. O torneio apresenta uma adaptação moderna de uma ideia tradicional.
Os cruzamentos continuam presentes, mas agora aparecem em menor quantidade e com muito mais critério. As equipes escolhem melhor os momentos para atacar pelos lados, procuram zonas mais perigosas e tentam gerar vantagens específicas antes de colocar a bola na área.
Talvez essa seja a principal conclusão da Copa do Mundo até aqui. O futebol segue evoluindo, incorporando novas ideias e novas soluções. Porém, algumas armas nunca desaparecem completamente.
O jogo pelos lados é uma delas. E, pelo menos até aqui, ele está mostrando que continua sendo capaz de decidir partidas no maior palco do futebol mundial.
Créditos da foto de capa: Getty Images Sport.