A classificação do Brasil para o mata-mata da Copa do Mundo de 2026 trouxe uma sensação curiosa para quem acompanhou a campanha da seleção na Alemanha, vinte anos atrás. Apesar dos contextos completamente diferentes, das mudanças táticas do futebol moderno e dos nomes envolvidos, existe uma semelhança evidente entre as duas equipes: ambas chegaram ao Mundial cercadas por enorme expectativa, atravessaram a fase de grupos sem convencer plenamente e seguem gerando mais perguntas do que respostas às vésperas dos confrontos decisivos.
A comparação pode parecer exagerada à primeira vista. Afinal, a seleção de 2006 era formada por alguns dos maiores jogadores da história do futebol brasileiro, enquanto o time atual vive um processo de renovação liderado por Vinícius Júnior. Mas basta observar a narrativa construída ao redor das duas campanhas para perceber que os paralelos são muito mais profundos do que parecem.
Uma Copa cercada por desconfiança antes mesmo da estreia
Talvez a principal semelhança entre os dois grupos tenha começado antes mesmo de a bola rolar. Em 2006, apesar de toda a qualidade técnica, existiam dúvidas sobre o comprometimento físico da equipe. O Brasil chegava como campeão mundial, mas havia uma sensação de acomodação. Muitos acreditavam que a seleção venceria apenas pelo talento.
Em 2026, o cenário era diferente, mas a desconfiança também estava presente. A equipe de Carlo Ancelotti chegou ao Mundial carregando críticas acumuladas durante as Eliminatórias, após uma campanha muito abaixo dos padrões históricos brasileiros. Parte da imprensa internacional chegou a questionar se o Brasil realmente poderia ser considerado candidato ao título. Após o empate contra Marrocos na estreia, veículos estrangeiros destacaram justamente a falta de identidade coletiva da equipe. Em ambos os casos, a seleção entrou na Copa com uma espécie de dívida de confiança junto ao público.
O paralelo fica ainda mais evidente quando se observa o desempenho dentro de campo. Na Alemanha, o Brasil venceu Croácia e Austrália sem encantar. Os resultados eram positivos, mas o futebol apresentado parecia burocrático para uma equipe que possuía Ronaldinho, Kaká, Ronaldo e Adriano. Somente contra o Japão a seleção apresentou uma atuação mais próxima daquilo que se esperava.
Em 2026, algo parecido aconteceu. O empate contra Marrocos levantou dúvidas sobre a capacidade competitiva da equipe diante de adversários fortes. Depois veio a vitória por 3 a 0 sobre o Haiti, um resultado confortável, mas que ainda não eliminou completamente os questionamentos. A classificação foi confirmada apenas após a vitória sobre a Escócia, quando o Brasil finalmente apresentou uma atuação mais dominante.
O curioso é que, nas duas Copas, o sentimento após a fase de grupos foi praticamente o mesmo: o Brasil avançou, mas ninguém sabia exatamente qual era o teto daquela equipe.
O papel que antes era de Ronaldinho agora pertence a Vinícius Júnior
A comparação também passa por um aspecto importante.Em 2006, Ronaldinho Gaúcho era o rosto da seleção brasileira para o mundo. Recém-eleito melhor jogador do planeta, ele chegava ao Mundial carregando expectativas gigantescas. Era o atleta que simbolizava o futebol brasileiro moderno.
Em 2026, esse papel pertence claramente a Vinícius Júnior. O atacante do Real Madrid é a principal referência técnica da seleção brasileira. Jornais europeus, veículos espanhóis e até análises produzidas durante o torneio destacam Vini como o jogador que conduz o Brasil em campo e o grande símbolo da equipe de Ancelotti.
Sua campanha reforça essa percepção. O atacante marcou contra Marrocos, brilhou diante da Escócia com dois gols e se tornou o primeiro brasileiro desde Ronaldo e Rivaldo, em 2002, a marcar nas três partidas da fase de grupos. Além disso, entrou na disputa pela artilharia do torneio. A diferença é que, enquanto Ronaldinho nunca conseguiu assumir o protagonismo esperado em 2006, Vinícius vem correspondendo à responsabilidade de ser o principal jogador brasileiro da competição.
Se Vini ocupa o espaço de principal estrela, Endrick talvez represente outro elemento que ajuda a aproximar as duas gerações. A cobertura da Copa mostra que o jovem atacante se tornou um fenômeno de popularidade no Brasil. Seu nome liderou buscas, dominou redes sociais e virou tema constante em campanhas publicitárias e programas esportivos. Alguns veículos chegaram a descrever o fenômeno como uma verdadeira “febre mundial”.
Isso lembra o ambiente que cercava os grandes nomes da seleção em 2006. Naquela época, qualquer lance de Ronaldinho, Ronaldo ou Kaká gerava uma explosão de repercussão. Hoje, Endrick ocupa parte desse espaço emocional junto à torcida. O problema é que a empolgação popular nem sempre anda lado a lado com a realidade do campo.
A diferença que pode mudar o final da história
Existe, no entanto, uma diferença importante entre os dois cenários. A seleção de 2006 entrou no mata-mata acreditando que encontraria seu melhor futebol naturalmente quando os jogos grandes chegassem. A evolução nunca aconteceu. Quando a França apareceu nas quartas de final, o Brasil continuou sendo o mesmo time irregular da fase de grupos.
Já a equipe de 2026 parece estar em trajetória ascendente. O crescimento de Vinícius, a recuperação gradual de Neymar, a consolidação de Paquetá como peça central do meio-campo e a evolução coletiva observada entre a estreia e a última rodada sugerem uma curva positiva.
Por isso, o paralelo com 2006 funciona mais como um alerta do que como uma previsão. As duas seleções compartilham dúvidas, convivem com expectativas gigantescas e chegaram ao mata-mata sem unanimidade. Mas o futebol raramente repete a história da mesma forma. A geração de Ronaldinho descobriu tarde demais que talento não basta para ganhar uma Copa do Mundo.
A geração de Vinícius Júnior ainda tem a oportunidade de provar que aprendeu essa lição.
(Foto: AFP)