Brasil x Japão
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Brasil x Japão: o equilíbrio da seleção encontra o desafio nipônico da disciplina aliada à irreverência

A Seleção Brasileira inicia nesta segunda-feira a fase eliminatória da Copa do Mundo de 2026 diante do Japão, em Houston, carregando um cenário bastante diferente daquele que cercava a equipe após a estreia contra o Marrocos. Se o empate em 1 a 1 abriu questionamentos sobre a adaptação de Carlo Ancelotti e a consistência coletiva da equipe, as vitórias convincentes sobre Haiti e Escócia mudaram completamente a percepção em torno do Brasil.

Agora, o desafio deixa de ser provar que pode jogar bem para mostrar que consegue transformar a evolução da fase de grupos em uma campanha sólida nos mata-matas, justamente o maior obstáculo brasileiro nas últimas edições do Mundial.

A classificação em primeiro lugar do Grupo C confirmou uma tradição que atravessa décadas. Desde a Copa do Mundo de 1982, o Brasil sempre termina a fase de grupos na liderança de sua chave. A estatística reforça a capacidade histórica da Seleção de dominar a primeira etapa do torneio, mas também evidencia uma realidade menos confortável: nas fases eliminatórias, o desempenho recente está longe de corresponder ao peso da camisa. O Brasil foi eliminado em quatro de seus últimos seis confrontos de mata-mata em Copas do Mundo, um contraste enorme com as décadas anteriores, quando avançar às quartas de final parecia praticamente uma obrigação.

Esse retrospecto explica por que o duelo contra o Japão possui um peso maior do que normalmente teria uma partida de 16 avos de final. Não basta vencer. O Brasil precisa mostrar maturidade para administrar uma partida eliminatória, controlar os momentos de pressão e confirmar a evolução tática apresentada ao longo da fase de grupos. Desde que sofreu o gol do Marrocos na estreia, a equipe respondeu com sete gols marcados e nenhum sofrido, uma sequência que remete ao último grande ciclo vencedor da Seleção.

O Brasil equilibrado: seleção encaixa um sistema e mostra solidez defensiva e força ofensiva

O dado é simbólico. A última vez que o Brasil passou mais tempo sem sofrer gols em uma Copa foi justamente em 2002, torneio em que conquistou o pentacampeonato. Evidentemente, estatísticas não entram em campo, mas revelam uma mudança importante na consistência defensiva da equipe. O sistema montado por Carlo Ancelotti parece ter encontrado o equilíbrio que faltou na estreia, principalmente após o treinador reorganizar o meio-campo e fortalecer a proteção oferecida a Casemiro com Bruno Guimarães e Lucas Paquetá.

Essa estabilidade defensiva também potencializou o talento ofensivo. Vinícius Júnior chega ao mata-mata como um dos principais nomes da Copa, acumulando quatro gols, marca que iguala os melhores desempenhos brasileiros na fase de grupos, ao lado de Ronaldo em 2002, Neymar em 2014 e Jairzinho em 1970. Mais do que os números, o camisa 7 voltou a apresentar a agressividade nos duelos individuais, atacando profundidade e desequilibrando constantemente as defesas adversárias, exatamente como faz em seus melhores momentos pelo Real Madrid.

Ao seu lado, Matheus Cunha vive talvez o momento mais eficiente de sua carreira com a camisa da Seleção. São três gols marcados utilizando apenas quatro finalizações no alvo, um índice impressionante de aproveitamento que demonstra não apenas qualidade técnica, mas também inteligência para ocupar espaços dentro da área. Em um torneio tão equilibrado, eficiência costuma valer mais do que volume de oportunidades, e o atacante brasileiro tem sido decisivo justamente por desperdiçar muito pouco.

Outro aspecto positivo para Ancelotti foi a resposta do elenco diante dos problemas físicos. Sem Raphinha diante da Escócia, o treinador encontrou em Rayan uma solução imediata. O jovem de apenas 19 anos entrou sem demonstrar qualquer receio do palco e entrou para a história ao se tornar o jogador mais jovem, desde que esse tipo de registro passou a ser contabilizado em 1966, a dar uma assistência pela Seleção Brasileira em Copas do Mundo. Um sinal claro de que o Brasil possui alternativas capazes de manter o nível competitivo mesmo quando perde titulares importantes.

Além disso, Neymar voltou a disputar uma partida pela Seleção após 981 dias afastado, tornando-se apenas o quarto brasileiro a participar de quatro edições da Copa do Mundo. Embora ainda esteja longe da melhor condição física, sua presença amplia as possibilidades ofensivas para os jogos eliminatórios, seja iniciando entre os titulares ou entrando durante a segunda etapa para oferecer criatividade quando o jogo exigir mais controle da posse.

O desafio do Japão e a versatilidade ofensiva de um time que joga por disciplina

Do outro lado estará um Japão que talvez represente um desafio mais complicado do que o histórico entre as seleções sugere. Os japoneses chegam invictos há dez partidas, mesmo convivendo com desfalques importantes como Wataru Endo e Kaoru Mitoma. Na fase de grupos, empataram com Holanda e Suécia e atropelaram a Tunísia por 4 a 0, garantindo a classificação na segunda posição do Grupo F com uma campanha bastante consistente.

A principal característica da equipe comandada por Hajime Moriyasu continua sendo a disciplina tática. O Japão talvez seja hoje uma das seleções mais organizadas do futebol mundial sem a bola. A equipe pressiona intensamente, ocupa espaços com enorme coordenação e praticamente não oferece referências individuais para serem exploradas pelos adversários. Essa organização coletiva foi justamente o ponto destacado por Éder Militão nos últimos dias ao alertar que o Brasil enfrentará um adversário que “não para de correr” durante os 90 minutos.

Entretanto, reduzir o Japão apenas à disciplina seria injusto. O crescimento técnico da equipe é evidente. Sete gols marcados representam a melhor campanha ofensiva japonesa em Copas do Mundo, enquanto dez jogadores diferentes participaram diretamente de gols, outro recorde nacional. Ayase Ueda já acumula três participações diretas em gols, consolidando-se como a principal referência ofensiva da equipe, enquanto Takefusa Kubo, caso reúna condições físicas, adiciona criatividade e velocidade pelos lados do campo.

O Japão de Moriyasu é conhecido pela sua versatilidade ofensiva. É um time que fica confortável atacando de todos os jeitos, seja lançando bolas longas para Ueda disputar e acionar os pontas em transição, ou tocando a bola em espaços curtos, ao maior estilo Fernando Diniz, para quebrar linhas de marcação. É muito difícil deixar o Japão desconfortável no ataque.

Mesmo assim, dentro de campo, a diferença de tradição permanece enorme. Enquanto o Brasil busca seu sexto título mundial, o Japão jamais venceu uma partida de mata-mata em Copas do Mundo. Curiosamente, seus algozes anteriores, Turquia, Bélgica e Croácia, terminaram entre os melhores colocados das respectivas edições, demonstrando que os japoneses frequentemente esbarram em seleções de altíssimo nível.

Para o Brasil, portanto, a partida representa muito mais do que uma simples classificação às oitavas de final. É uma oportunidade de mostrar que a evolução construída ao longo da fase de grupos não foi circunstancial. Ancelotti parece ter encontrado o equilíbrio que buscava desde a estreia, Vinícius Júnior vive uma das melhores fases de sua carreira, Matheus Cunha atravessa um momento de extrema eficiência e Neymar volta a aparecer como alternativa importante.

Agora, resta descobrir se essa combinação será suficiente para superar justamente o maior desafio da Seleção nas últimas duas décadas: transformar boas atuações em uma campanha realmente vencedora nos jogos que não permitem erro.

(Foto: Getty Images)