Ter muitos craques nem sempre significa ter um time funcionando.
No futebol de seleções, juntar talentos individuais costuma parecer uma vantagem óbvia, mas transformar qualidade em desempenho coletivo é um desafio que nem sempre dá certo. Didier Deschamps conhece esse cenário melhor do que quase qualquer treinador.
Desde que assumiu a seleção da França em 2012, o técnico construiu uma marca própria: adaptar o sistema ao longo dos torneios sem perder competitividade.
Foi assim em campanhas anteriores e, ao que tudo indica, o roteiro está se repetindo na Copa do Mundo de 2026.
Depois de alguns ajustes importantes ainda durante a fase inicial do torneio, a França encontrou um modelo que potencializou seus principais jogadores e deixou o time mais equilibrado.
Deschamps montou sistema para favorecer características dos craques
Um dos principais desafios do treinador nesta Copa é extrair o melhor de Kylian Mbappé.
Aos 27 anos, o atacante vive um momento diferente daquele que marcou sua explosão em 2018. Hoje, Mbappé participa mais da construção das jogadas e busca liberdade para circular pelo ataque em vez de atuar apenas atacando profundidade.
Pensando nisso, Deschamps havia criado um modelo que, no papel, se aproximava de um 4-2-4 ou um 4-2-3-1 com bastante mobilidade.
A ideia era encaixar os jogadores em funções parecidas com aquelas que exercem em seus clubes.
Mbappé atuava centralizado, mas com liberdade para sair da área. Michael Olise mantinha amplitude pelo lado direito. Ousmane Dembélé ocupava espaços internos e podia flutuar para participar da construção ofensiva.
Contra Senegal, na estreia, Désiré Doué entrou no lugar do lesionado Hugo Ekitiké e manteve essa lógica.
Mas o funcionamento coletivo ainda não era o ideal.
Problemas contra Senegal fizeram técnico agir rapidamente
Mesmo com controle territorial em alguns momentos, a França apresentou dificuldades sem a bola.
Quando pressionava alto, o espaço entre o ataque e o meio-campo ficava grande demais e permitia ao Senegal encontrar corredores para acelerar as jogadas.
Os adversários conseguiam construir por dentro e explorar justamente a distância entre os atacantes franceses e os volantes.
Com a posse, também existiam sinais de desconforto.
Alguns jogadores apareciam em setores pouco naturais e a circulação ofensiva perdia fluidez.
Deschamps percebeu rapidamente que precisava corrigir o desenho.
E fez isso já no intervalo.
Troca entre Olise e Dembélé mudou dinâmica ofensiva
A principal alteração foi simples no papel, mas importante dentro do jogo.
Deschamps inverteu as funções de Michael Olise e Ousmane Dembélé.
Dembélé deixou de ocupar zonas mais centrais e passou a atuar mais aberto pela direita.
Olise ganhou mais liberdade por dentro.
A mudança trouxe ganhos em diferentes momentos da partida.
Sem a bola, Dembélé passou a ajudar mais na recomposição e permitiu que a França defendesse em um bloco mais compacto.
Em vez de pressionar de maneira agressiva e abrir espaços, o time passou a controlar melhor os setores centrais.
Com isso, Aurélien Tchouaméni e Adrien Rabiot ficaram mais protegidos.
Olise ajuda Mbappé e França encontra mais equilíbrio
No ataque, a reorganização também beneficiou diretamente Mbappé.
Olise passou a receber em regiões centrais e oferecer algo que tem sido uma das suas principais qualidades: encontrar passes entre linhas e acelerar transições.
Ao mesmo tempo, Dembélé aberto passou a atacar espaços com mais frequência.
A consequência foi uma França mais agressiva sem perder organização.
Outro ajuste importante aconteceu no posicionamento de Jules Koundé.
Mesmo avançando pelo lado, o lateral passou a ocupar zonas mais internas durante alguns momentos ofensivos.
Além de oferecer cobertura em caso de perda da bola, esse movimento abriu espaço para os jogadores de frente.
O resultado apareceu rapidamente.
Dembélé cresceu na competição e chegou a transformar o bom momento em números, incluindo uma atuação com três gols contra a Noruega.
França ganha força ao adaptar sistema sem perder identidade
Talvez o ponto mais interessante das mudanças de Deschamps seja que elas não tornaram a equipe engessada.
Muitas alterações táticas acabam reduzindo criatividade e impondo movimentos rígidos.
Com a França aconteceu o contrário.
Mesmo com ajustes estruturais, jogadores como Mbappé, Olise, Doué, Dembélé e Bradley Barcola continuaram trocando posições e construindo jogadas com liberdade.
A equipe passou a criar mais chances e ao mesmo tempo reduziu vulnerabilidades defensivas.
É um equilíbrio que costuma marcar campanhas vencedoras.
Mais uma vez, Deschamps parece ter encontrado um caminho durante o torneio.
E se a França já tinha um dos elencos mais fortes da Copa, os ajustes de Deschamps podem ter elevado ainda mais o teto da seleção.
Foto: Aurelien Meunier/Getty Images