UEFA Presidente Copa do Mundo
Futebol Copa do Mundo

Copa do Mundo: pouco a pouco, falas de Gattuso e UEFA estão se voltando contra eles

As primeiras semanas da Copa do Mundo de 2026 começam a colocar em xeque um discurso que ganhou força nos últimos anos dentro do futebol europeu: o de que o continente merecia ainda mais vagas no Mundial por concentrar o maior número de seleções de elite.

Defendida por dirigentes da UEFA e reforçada recentemente por nomes como Gennaro Gattuso, essa tese esbarra justamente naquilo que mais importa em uma Copa do Mundo: o desempenho dentro de campo. E, até aqui, a competição vem mostrando uma realidade bastante diferente da narrativa construída antes da bola rolar.

A discussão ganhou força quando Gattuso afirmou que a Europa deveria ter uma representação ainda maior na Copa , argumento também defendido por dirigentes da UEFA ao longo dos últimos anos, sustentando que o continente reúne a maior concentração de seleções competitivas do planeta.

O problema é que a Copa do Mundo nunca foi desenhada para premiar apenas tradição ou força histórica. Ela serve para medir quem consegue responder à pressão do momento, independentemente da confederação de origem. E justamente por isso, a edição de 2026 começa a desmontar esse argumento de maneira bastante contundente.

O desempenho ruim dos europeus na Copa do Mundo

A fase de grupos já havia acendido alguns alertas. Embora algumas potências tenham confirmado o favoritismo, outras tradicionais seleções europeias encontraram enormes dificuldades para justificar seu status. Escócia e Tchéquia, que chegaram ao torneio por meio da repescagem europeia, encerraram suas campanhas ainda na primeira fase. Ambas confirmaram aquilo que muitos críticos já apontavam sobre o aumento de vagas na UEFA: ampliar o número de classificados também significa levar seleções que, muitas vezes, não possuem nível competitivo suficiente para disputar uma Copa.

O caso da Escócia talvez tenha sido o mais emblemático. Depois de uma campanha irregular na fase de grupos, os escoceses dependeram de combinações de resultados até a última rodada, mas acabaram eliminados sem conseguir apresentar um futebol consistente. A equipe mostrou organização defensiva em alguns momentos, porém sofreu ofensivamente e confirmou as limitações técnicas que já haviam aparecido durante as Eliminatórias Europeias. A sensação foi de que a classificação via repescagem mascarou problemas que voltaram a aparecer diante de adversários de diferentes continentes.

A Tchéquia viveu roteiro semelhante. A equipe até apresentou momentos competitivos, mas foi incapaz de transformar organização tática em resultados. A falta de criatividade ofensiva e a dificuldade para controlar partidas mais equilibradas fizeram com que a seleção encerrasse sua participação precocemente. Para quem defendia que a Europa possuía profundidade suficiente para justificar ainda mais vagas, campanhas como essas representam um argumento difícil de sustentar.

No entanto, as eliminações mais simbólicas vieram já no mata-mata. Alemanha e Holanda, duas das maiores camisas da história das Copas do Mundo, caíram logo nos 16 avos de final. Os alemães foram eliminados pelo Paraguai, enquanto os holandeses acabaram caindo contra o Marrocos. São resultados que vão muito além de simples zebras. Eles mostram uma transformação clara na distribuição de forças do futebol mundial.

A Alemanha chegou cercada de expectativas após confirmar a liderança de seu grupo, mas voltou a demonstrar dificuldades conhecidas dos últimos anos. A equipe controlou a posse de bola, criou oportunidades, mas sofreu novamente contra um adversário extremamente organizado defensivamente e mortal nas transições. O Paraguai repetiu um roteiro visto tantas vezes nesta Copa: compactação sem a bola, intensidade física e eficiência nas poucas oportunidades criadas. Bastou isso para derrubar uma seleção que, teoricamente, representaria a elite absoluta do futebol europeu.

A eliminação da Holanda talvez seja ainda mais simbólica pelo adversário. Marrocos já havia alcançado a semifinal da Copa de 2022 e demonstrado que seu crescimento estava longe de ser circunstancial. Agora, confirma definitivamente sua consolidação entre as grandes forças do futebol internacional. A vitória sobre os neerlandeses mostrou uma equipe madura, organizada e tecnicamente preparada para enfrentar qualquer potência europeia de igual para igual. Não se trata mais de surpresa. Trata-se de uma nova realidade na Copa do Mundo.

Seleções africanas se destacam

Enquanto isso, justamente as seleções africanas vêm sendo uma das maiores respostas ao discurso europeu. Marrocos confirma a evolução iniciada no Catar. Costa do Marfim chegou ao mata-mata apresentando enorme consistência coletiva. Senegal voltou a competir em alto nível. Até seleções consideradas de menor tradição, como Cabo Verde, demonstraram organização suficiente para dificultar partidas contra adversários muito mais renomados.

Esse crescimento africano desmonta uma lógica antiga segundo a qual a diferença técnica entre Europa e os demais continentes seria praticamente intransponível. Hoje, muitos jogadores africanos são formados justamente nas principais categorias de base europeias, disputam as maiores ligas do mundo e chegam às suas seleções com bagagem internacional semelhante à dos próprios europeus. A diferença estrutural diminuiu significativamente.

A própria Copa reforça essa mudança. O torneio ampliado para 48 seleções foi alvo de inúmeras críticas antes do início justamente pelo temor de uma queda na qualidade técnica. No entanto, o que se observa até aqui é exatamente o contrário. A ampliação abriu espaço para países que talvez não estivessem presentes em formatos anteriores, mas que vêm demonstrando capacidade competitiva suficiente para enfrentar seleções tradicionais.

Isso não significa que a Europa deixou de ser o continente mais forte do futebol. França, Inglaterra, Portugal e Espanha continuam entre os principais candidatos ao título. O ponto central é outro: a ideia de que simplesmente aumentar vagas europeias elevaria automaticamente o nível da competição parece cada vez menos sustentável. Afinal, não são apenas as maiores potências que ocupariam esses novos espaços. Eles seriam preenchidos justamente por seleções do segundo ou terceiro escalão europeu, algumas das quais já demonstraram nesta Copa enormes dificuldades para competir.

A ironia é que a própria Copa acabou fornecendo os argumentos contrários ao discurso da UEFA. Enquanto dirigentes defendiam mais vagas para a Europa, a Copa mostrou que outras confederações reduziram drasticamente a distância competitiva. África, América do Sul e até a CONCACAF apresentaram seleções organizadas, modernas e plenamente capazes de eliminar gigantes tradicionais.

No fim das contas, talvez o maior legado desta Copa do Mundo seja justamente esse: lembrar que tradição pesa, mas não entra em campo. O futebol internacional vive um processo de redistribuição de forças que já não pode mais ser ignorado. As eliminações de Alemanha e Holanda, somadas às campanhas decepcionantes de Escócia e Tchéquia, contrastam diretamente com o crescimento de seleções africanas e de outras regiões do planeta.

Pouco a pouco, o Mundial de 2026 deixa claro que o debate sobre vagas não deve ser guiado apenas pelo passado, mas principalmente pelo presente. E, neste presente, as palavras de Gattuso e da UEFA começam a encontrar uma resposta bastante convincente: a de que a elite do futebol mundial já não pertence exclusivamente à Europa.

(Foto: Getty Images)