Inglaterra não teve a bola, mas teve o controle da partida. A vitória por 3 a 2 sobre o México, pelas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026, mostrou uma versão pouco tradicional dos ingleses, que apostaram na eficiência sem a posse de bola para superar os donos da casa no temido Estádio Azteca e garantir vaga nas quartas de final.
A equipe comandada por Thomas Tuchel terminou o confronto com apenas 33,2% de posse de bola, o menor índice da Inglaterra em uma partida de Copa do Mundo desde que esse tipo de estatística começou a ser registrado, em 1966. Ainda assim, a sensação durante boa parte do jogo era de que os ingleses tinham o duelo sob controle, mesmo correndo atrás da bola por quase todo o tempo.
Em um futebol cada vez mais obcecado pela posse de bola, a Inglaterra mostrou que, às vezes, deixar o adversário trocar passes também pode fazer parte do plano.
Thomas Tuchel encontrou uma identidade para a Inglaterra
A campanha inglesa até aqui talvez não tenha sido a mais empolgante da Copa, mas ela passa longe de ser inconsistente.
A estreia foi marcada por uma vitória por 4 a 2 sobre a Croácia, em um jogo aberto e movimentado. Depois veio um empate sem gols contra Gana, em uma atuação pouco inspirada, antes da classificação como líder do Grupo L após vencer o Panamá por 2 a 0.
Nas oitavas, porém, o desafio parecia ainda maior.
Além de enfrentar o México diante de sua torcida, a Inglaterra precisou lidar com um dos ambientes mais difíceis do futebol mundial. O Azteca, localizado a cerca de 2.200 metros acima do nível do mar, historicamente sempre foi um território complicado para visitantes, especialmente em jogos de Copa.
Era o típico confronto que costuma complicar seleções favoritas. Mas a equipe de Tuchel respondeu com maturidade.
Menos posse, mais perigo
Quem olha apenas para a estatística da posse de bola pode imaginar um domínio mexicano. Na prática, porém, isso não aconteceu.
Mesmo com apenas 37,2% da posse durante o primeiro tempo, a Inglaterra foi mais perigosa. Criou duas grandes oportunidades de gol, contra apenas uma do México, e terminou a etapa inicial com 0,75 de gols esperados (xG), número superior aos 0,44 registrados pelos donos da casa.
O dado chama ainda mais atenção quando comparado aos jogos anteriores.
Contra Gana, por exemplo, a Inglaterra teve impressionantes 78,4% de posse de bola, mas produziu apenas 0,31 de xG no primeiro tempo. Diante do Panamá, dominou a bola durante 71,9% da etapa inicial e criou somente 0,50 de xG.
Em ambos os jogos, sequer conseguiu criar uma chance clara antes do intervalo. Ou seja, contra o México a equipe produziu mais ofensivamente justamente quando teve menos tempo com a bola.
Nem a expulsão mudou o plano
A situação ficou ainda mais complicada aos 54 minutos. Jarell Quansah recebeu cartão vermelho e deixou a Inglaterra com um jogador a menos por mais de meia hora. Naturalmente, a posse de bola caiu ainda mais.
Mesmo assim, os ingleses continuaram executando o plano praticamente à risca. Poucos minutos depois da expulsão, Harry Kane converteu um pênalti e recolocou a vantagem em dois gols, obrigando o México a assumir completamente o controle da posse.
A partir daí, começou uma verdadeira blitz.
O México cruzou, pressionou… e quase não criou
Os números impressionam. Nos últimos 20 minutos do tempo regulamentar que acabaram se transformando em 31 minutos por causa dos acréscimos, o México terminou com 83% da posse de bola.
Nesse período, realizou 79 passes no terço final do campo e levantou incríveis 32 cruzamentos para a área inglesa. Mesmo com toda essa pressão, a defesa britânica praticamente não foi vazada.
Mais curioso ainda: os mexicanos sequer conseguiram criar uma grande oportunidade de gol durante esse período de domínio absoluto da posse.
Foi um daqueles casos em que a equipe parece atacar o tempo inteiro, mas raramente consegue realmente machucar o adversário.
Dan Burn entra e vira gigante na defesa
Muito criticado por algumas escolhas durante a Copa, Thomas Tuchel recebeu elogios justamente por uma de suas substituições.
Dan Burn entrou na reta final da partida para reforçar a defesa e foi decisivo.
O zagueiro realizou seis cortes e dois bloqueios em poucos minutos em campo, números que o colocaram entre os principais destaques defensivos da partida.
No total, a Inglaterra terminou o confronto com 49 cortes defensivos.
É a quarta maior marca da seleção inglesa em partidas de Copa do Mundo desde 1966 e a melhor desde o triunfo sobre a Bélgica, em 1990, quando realizou 54 cortes em um duelo que foi para a prorrogação.
A atuação mostrou exatamente o perfil de jogadores que Tuchel vinha priorizando em suas convocações. Atletas fortes fisicamente, disciplinados taticamente e preparados para sofrer quando necessário.
O contra-ataque virou arma
Mesmo passando grande parte da partida sem a bola, a Inglaterra nunca abriu mão de atacar. Sempre que recuperava a posse, buscava acelerar rapidamente utilizando jogadores como Jude Bellingham, Bukayo Saka e Harry Kane.
Esse trio conseguiu transformar praticamente toda recuperação de bola em uma situação de perigo. Foi justamente essa eficiência nas transições que tornou a equipe tão perigosa. Enquanto o México trocava passes, a Inglaterra esperava o momento certo para acelerar.
No futebol moderno, nem sempre quem tem mais posse controla o jogo. Contra o México, os ingleses provaram exatamente isso.
Agora o desafio atende pelo nome de Noruega
A classificação coloca a Inglaterra diante de outro adversário bastante interessante.
Nas quartas de final, os comandados de Thomas Tuchel enfrentam a Noruega, seleção que eliminou o Brasil após uma atuação dominante.
Os noruegueses controlaram completamente o meio-campo, terminaram a partida com 66% de posse de bola e venceram por 2 a 1 graças aos dois gols de Erling Haaland.
Ao mesmo tempo, a equipe comandada por Ståle Solbakken já mostrou ao longo da Copa que também sabe atuar sem a bola. Contra Senegal, por exemplo, venceu por 3 a 2 tendo apenas 42% da posse.
Ou seja, o confronto promete um interessante duelo de estratégias.
Resta saber qual treinador abrirá mão da bola e quem tentará assumir o protagonismo da partida.
A Inglaterra mostra que está pronta para sofrer
Durante muitos anos, a seleção inglesa ficou marcada por desperdiçar grandes gerações em momentos decisivos.
Nesta Copa, porém, existe uma sensação diferente.
Mais do que talento individual, a equipe demonstra organização, disciplina e capacidade de adaptação aos diferentes cenários de jogo.
Contra o México, venceu praticamente sem controlar a posse de bola. Em outros momentos do torneio, mostrou que também consegue dominar territorialmente seus adversários.
Essa versatilidade talvez seja uma das maiores virtudes construídas por Thomas Tuchel até aqui.
Ainda é cedo para cantar que o famoso “It’s Coming Home” finalmente vai deixar de ser apenas um slogan repetido pelos torcedores ingleses. Mas uma coisa ficou evidente no Azteca: se continuar executando seu plano com a mesma eficiência, a Inglaterra chega às quartas de final como uma das seleções mais difíceis de ser batida nesta Copa do Mundo.
Foto: Daniel Becerril/Reuters



