A Argentina está nas quartas de final da Copa do Mundo, mas a classificação contra o Egito foi muito mais complicada do que muitos imaginavam. Depois de dominar boa parte do primeiro tempo, desperdiçar um pênalti e criar diversas oportunidades, a equipe de Lionel Scaloni ainda viu o adversário abrir 2 a 0 na segunda etapa e ficou muito perto da eliminação.
No entanto, quando o cenário parecia praticamente definido, Messi chamou a responsabilidade, comandou a reação e liderou uma virada histórica por 3 a 2. Muito além da classificação, a partida deixou algumas mensagens importantes para os argentinos no restante da Copa do Mundo.
A seguir, quatro impressões que ficaram da vitória da Argentina sobre o Egito.
A força mental da Argentina continua sendo uma de suas maiores armas
A qualidade técnica da Argentina nunca esteve em discussão. O que chama atenção, mais uma vez, é a capacidade da equipe de sobreviver quando tudo parece dar errado. Foi exatamente isso que aconteceu nesta terça-feira. Mesmo criando mais oportunidades na primeira etapa, a Argentina saiu atrás no placar após um escanteio bem trabalhado pelo Egito. Pouco depois, Messi ainda desperdiçou um pênalti e viu Shobeir viver uma atuação inspirada, fazendo grandes defesas e impedindo o empate argentino antes do intervalo.
Na segunda etapa, a situação ficou ainda mais complicada. O Egito chegou a marcar o segundo gol em um contra-ataque que acabou sendo anulado, mas poucos minutos depois repetiu praticamente a mesma estratégia e conseguiu ampliar a vantagem de forma válida. Naquele momento, a sensação era de que a Argentina caminhava para uma eliminação surpreendente.
Só que esse elenco já mostrou outras vezes que dificilmente entrega um jogo. Basta lembrar da campanha de 2022. Depois de momentos extremamente complicados ao longo daquele Mundial, como a dramática classificação diante da Holanda nos pênaltis, a equipe demonstrou personalidade para seguir viva até conquistar o título.
Nesta Copa, o roteiro parece voltar a se repetir. Contra Cabo Verde, a classificação só veio na prorrogação. Agora, contra o Egito, a equipe reagiu após estar perdendo por 2 a 0 e mostrou novamente uma enorme capacidade de competir mesmo quando tudo parece perdido.
Em torneios curtos, essa característica costuma fazer muita diferença. Afinal, nem sempre o favorito consegue controlar os 90 minutos. Quando isso acontece, a força mental passa a valer quase tanto quanto a qualidade técnica. E, nesse aspecto, a Argentina continua mostrando que é um adversário extremamente difícil de ser eliminado.
Messi segue mostrando que ainda pode decidir uma Copa do Mundo
Muito se falou antes do torneio sobre a idade de Lionel Messi e sobre quanto ele ainda conseguiria entregar em uma competição tão exigente fisicamente. Contra o Egito, o camisa 10 respondeu dentro de campo.
É verdade que o argentino perdeu um pênalti ainda no primeiro tempo. Porém, em nenhum momento isso afetou sua atuação. Pelo contrário. Messi continuou sendo o jogador que mais assumiu responsabilidades e participou praticamente de todas as melhores ações ofensivas da equipe.
Neste cenário, ainda antes do intervalo, ele acertou uma cobrança de falta na trave e participou da construção de diversas oportunidades criadas pela Argentina. Já na reta final da partida, quando o time mais precisava de alguém para assumir o protagonismo, o craque elevou ainda mais seu nível.
Primeiro, encontrou Romero com um cruzamento preciso para diminuir a desvantagem. Poucos minutos depois, fez uma grande jogada individual pelo lado direito, mostrando força física, velocidade e capacidade para deixar marcadores para trás antes de cruzar para Lautaro Martínez, que cabeceou para fora. Logo na sequência, o camisa 10 voltou a iniciar mais um ataque da Argentina. Depois da bola passar pelos pés de Lautaro e Montiel, Messi apareceu dentro da área para finalizar com força e marcar o gol de empate. Já nos acréscimos, a pressão argentina terminou no contra-ataque que resultou no gol da virada.
Os números ajudam a ilustrar a dimensão da atuação. Messi terminou a partida com um gol, uma assistência, cinco finalizações, uma bola na trave, seis oportunidades criadas, duas grandes chances criadas, seis passes decisivos e cinco dribles certos.
Mais do que isso, o craque voltou a demonstrar uma vitalidade que muitos já não esperavam ver em uma Copa do Mundo aos 39 anos. Quando a Argentina precisou de alguém para liderar a reação, foi justamente seu maior jogador quem tomou conta do confronto.
O Egito montou o plano certo, mas não entendeu o momento do jogo
Se a Argentina teve méritos pela reação, o Egito também merece muitos elogios pela maneira como encarou a partida. Desde o início, ficou claro que a equipe não tentaria disputar posse de bola com os argentinos. A proposta era baixar as linhas, fechar os espaços e explorar a velocidade dos contra-ataques sempre que recuperasse a bola.
O plano funcionou muito bem durante boa parte do confronto. O primeiro gol nasceu em uma jogada de bola parada, mas as melhores oportunidades egípcias apareceram justamente nas transições rápidas. O gol anulado de Ziko mostrou exatamente esse caminho. Poucos minutos depois, praticamente a mesma estratégia voltou a funcionar e desta vez terminou com a bola na rede. Até aquele momento, o Egito fazia exatamente o jogo que precisava fazer.
O problema apareceu depois do 2 a 0. Com uma vantagem confortável diante de uma Argentina pressionada pelo relógio, talvez fosse o momento de administrar mais a posse, diminuir o ritmo da partida e obrigar os argentinos a correrem ainda mais atrás da bola. Em vez disso, a equipe continuou apostando quase exclusivamente nos contra-ataques.
Naturalmente, isso fez com que a posse permanecesse durante muito tempo com a Argentina. Aos poucos, os argentinos passaram a empurrar o Egito para trás e acumularam chegadas perigosas até encontrarem o primeiro gol.
Não significa que a estratégia estivesse errada. Pelo contrário. Ela colocou o Egito muito perto da classificação. O que talvez tenha faltado foi interpretar que o jogo já pedia um comportamento diferente depois da vantagem construída.
A classificação veio, mas a Argentina ainda deixa alguns alertas
Uma virada como essa naturalmente fortalece qualquer seleção. O ambiente melhora, a confiança aumenta e o elenco ganha ainda mais convicção para enfrentar os próximos desafios. Ao mesmo tempo, a partida também mostrou alguns pontos que a Argentina precisará corrigir.
Apesar dos 17 chutes, das sete finalizações no alvo e dos 61% de posse de bola, a equipe passou boa parte do segundo tempo controlando a partida apenas aparentemente. A posse existia, mas ela produzia menos perigo do que no primeiro tempo. Enquanto isso, o Egito seguia encontrando espaços para contra-atacar sempre que recuperava a bola.
É importante lembrar também que, antes do segundo gol válido, os egípcios já haviam conseguido balançar a rede em uma jogada muito parecida, anulada por uma falta na origem do lance. Era um aviso claro de que a Argentina estava sofrendo para controlar esse tipo de situação. Contra seleções ainda mais qualificadas, oferecer esse espaço pode custar muito caro.
Por outro lado, a classificação também reforça uma característica importante. Mesmo quando não controla completamente o jogo, a Argentina continua reunindo jogadores capazes de mudar qualquer partida em poucos minutos.
No fim, a equipe segue viva na Copa do Mundo carregando duas certezas. A primeira é que ainda há aspectos importantes para corrigir se quiser voltar a levantar a taça. A segunda é que, enquanto contar com um elenco competitivo e com Messi disposto a assumir a responsabilidade nos momentos decisivos, dificilmente poderá ser considerada derrotada antes do apito final.
Créditos da foto de capa: Getty Images.