Depois de resistir durante 120 minutos ao forte ataque da Colômbia, a Suíça garantiu vaga nas quartas de final da Copa do Mundo nesta terça-feira (7). No BC Place, em Vancouver, o empate sem gols levou a decisão para os pênaltis, onde Gregor Kobel brilhou e colocou os suíços novamente entre os oito melhores do mundo após um jejum de 72 anos.
O confronto não foi marcado por grandes volumes ofensivos, mas pela intensidade física, disciplina tática e poucas oportunidades claras de gol. No fim, prevaleceu a seleção que fez da organização defensiva sua principal arma para construir a classificação.
A seguir, quatro impressões que ficaram da vitória suíça sobre a Colômbia.
Sem Manzambi, o desafio para a Suíça ficou maior.
Johan Manzambi, que foi destaque do time na fase de grupos e na classificação contra a Argélia nos 16 avos de final, foi desfalque da seleção da Suíça. O atleta do Freiburg teve uma lesão constatada na véspera do duelo desta terça-feira (07). A escolha de Murat Yakin foi por encorpar o meio-campo, colocando o volante Jashari.
Inicialmente, a estratégia deu certo. Rieder e Jashari jogavam entre as linhas, flutuando nas costas de Lerma e de Puerta. Xhaka e Akanji foram importantes para encontrá-los com passes velozes.
Os colombianos, que sofreram apenas 1 gol na Copa do Mundo inteira, se comportaram bem e fecharam os caminhos dos europeus para as pontas — região da qual, certamente, seriam os principais escapes. Ainda assim, os sul-americanos não evitariam as finalizações da entrada da área de Jashari e Ndoye.
Com uma defesa bem postada à sua frente, um jogador “abridor de latas” faria toda a diferença. Contudo, ele não estava à disposição de Yakin. Manzambi causaria impacto imediato com sua explosão, dribles e acuidade.
Para superar este obstáculo, o técnico suíço optou por perseverar o combate e equilibrar o duelo físico. De todo o modo, não impediu que Kobel fizesse uma defesa esplêndida para evitar um golaço de Gustavo Puerta no primeiro tempo.
Colômbia teve as melhores chances, mas não foi eficaz
A equipe comandada por Néstor Lorenzo voltou a mostrar personalidade. Luis Díaz, Jhon Arias e Daniel Muñoz foram os principais responsáveis por acelerar as transições e levar a Colômbia ao campo de ataque.
A movimentação do trio permitiu que os colombianos encontrassem espaços entre as linhas suíças, embora faltasse maior eficiência nas conclusões.
As mudanças promovidas por Lorenzo também surtiram efeito. Campaz entrou bem pela esquerda, levou vantagem sobre a marcação em diversos momentos e quase marcou em chute de média distância. James Rodríguez, discreto durante boa parte da partida, deu lugar a Juan Fernando Quintero para tentar aumentar a criatividade da equipe.
Na reta final dos 90 minutos, porém, a Suíça conseguiu equilibrar novamente o confronto, adiantou a marcação e passou a controlar melhor as ações.
A prorrogação reservou as melhores oportunidades. Davinson Sánchez e Jhon Lucumí assustaram em bolas paradas, sendo que o zagueiro do Bologna acertou o travessão. Pouco depois, Xhaka desperdiçou boa chance para a Suíça e, na sequência, cometeu um erro grave na saída de bola que quase resultou no gol colombiano. Campaz recebeu livre, mas finalizou para fora.
Foram oportunidades suficientes para decidir a partida antes dos pênaltis, mas nenhuma delas encontrou o caminho das redes.
O desgaste físico pesou para Xhaka e para o meio-campo suíço
Proteger sua zaga pode ser uma tarefa árdua para um volante com dedicação mais defensiva. Só que, tratando-se de Granit Xhaka, esta é uma missão sempre a ser cumprida a cada jogo — a não ser que o cansaço o vença.
Camisa 10 e capitão dos Rossocrociati, ele é o rosto desta década da Suíça, superando até mesmo Xherdan Shaqiri. Sua voz e experiência internacional — disputou quatro mundiais, até então — são importantes virtudes num plantel em renovação.
Só que, hoje, o frescor de uma jovialidade poderia ser fundamental para acelerar as ações do meio-campo. Em um dado momento, Xhaka esteve tão exaurido que mal poderia correr para dar combate.
Na chance desperdiçada por Campaz, o erro do líder é grotesco ao sair jogando. Atrapalhou-se e perdeu a dividida para Muñoz, que serviu ao companheiro na cara de Kobel. Para a sorte dos suíços, a pontaria do ex-Grêmio não estava em dia.
Seria um fim triste para uma Suíça que não foi muito exigida nesta Copa do Mundo defensivamente. Ver seu capitão errar e mal conseguir erguer-se depois de tanta luta montaria um filme de terror para assustar qualquer torcedor. Entretanto, a longa-metragem terminou com um final feliz — e de um alívio tremendo, tal qual uma experiência de vida em Berna, capital do país.
Kobel escreve seu nome na história da Suíça
Não que a Suíça seja uma vitoriosa em Copas do Mundo, mas sua presença é marcante nos torneios. Perturbando a vida dos vizinhos europeus ou atravessando a rota dos sul-americanos, a seleção dos Rossocrociati nunca teve uma vida tão longa em Mundiais — a não ser que estejamos falando de 1954.
Naquela edição, os suíços sediaram o torneio e fizeram valer o apoio local para garantir uma campanha honesta. Chegar às quartas de final — àquela época, a fase de mata-mata iniciava-se neste ponto — era sinônimo de sucesso, e até mesmo fazer um confronto que até hoje é marcado por ser o que mais teve redes balançadas em Copas.
Foram 72 anos de espera. De lá para cá, ocorreram mudanças na competição. Mais países, outro modelo de disputa, isto é, chegar aos oito melhores colocados tornou-se mais difícil. Neste período, a Suíça acumulou eliminações de diversas formas, incluindo uma que sequer sofreu gols.
Na tarde em Vancouver, todas as gerações dos Rossocrociati ficariam orgulhosas ao ver Gregor Kobel fazer seu nome na seleção. Do mais velho ao mais novo torcedor, todos entoariam o nome do goleiro do Borussia Dortmund depois de vê-lo defender a cobrança de ‘Cucho’ Hernández — além de já ter visto a de Davinson Sánchez acertar o poste.
A Suíça já teve seleções melhores, em termos de experiência e qualidade técnica. Em 2026, jamais a população sonharia em pôr um fim neste tabu que perdurou 72 anos. Kobel foi herói no tempo normal e nas penalidades, e provou seu valor e honrou o legado deixado por Yan Sommer e Diego Benaglio.
Créditos da foto de capa: Albert Gea/Reuters