Robert Whittaker precisava dar uma resposta. Depois de duas derrotas consecutivas e de muitos questionamentos sobre qual seria o próximo passo de sua carreira, o ex-campeão dos pesos-médios resolveu apostar em uma mudança radical. A estreia entre os meio-pesados aconteceu no UFC 329 e não poderia ter sido melhor: vitória por nocaute técnico sobre Nikita Krylov, atuação convincente e, principalmente, a sensação de que uma nova fase pode estar apenas começando.
O australiano fechou o card preliminar realizado na T-Mobile Arena, em Las Vegas, mostrando que a subida para os 93 kg talvez tenha acontecido no momento certo. Mais do que conquistar um resultado importante, Whittaker deixou o octógono com uma confiança renovada e até falando em disputar posições de destaque na categoria, que vive um dos momentos mais imprevisíveis dos últimos anos.
Mudança de categoria trouxe alívio imediato
Trocar de divisão nunca é uma decisão simples no UFC. Em muitos casos, atletas deixam uma categoria após uma sequência negativa acreditando que encontrarão um caminho mais fácil, mas acabam enfrentando rivais ainda maiores, mais fortes e com estilos completamente diferentes.
Robert Whittaker conhecia muito bem esse histórico.
Durante a entrevista coletiva após o UFC 329, o australiano admitiu que entrou no octógono carregando um peso enorme nas costas. O receio não era apenas perder a luta, mas também repetir uma história que já aconteceu diversas vezes dentro da organização.
Segundo ele, muitos ex-pesos-médios sobem para os meio-pesados depois de resultados ruins e acabam desaparecendo do cenário competitivo.
Whittaker não queria fazer parte dessa lista.
“Quem nunca viu a história de um peso-médio que sobe depois de duas derrotas e acaba caindo no esquecimento? Eu não queria ser esse cara”, afirmou o ex-campeão logo após a vitória.
O resultado mostrou que, pelo menos por enquanto, esse risco ficou para trás.
Vitória construída com autoridade
Do outro lado do octógono estava Nikita Krylov, um dos nomes mais experientes da divisão e conhecido por oferecer dificuldades para praticamente qualquer adversário.
Ainda assim, Whittaker mostrou desde o início que havia chegado confortável à nova categoria.
Sem precisar enfrentar o desgaste extremo do corte de peso exigido nos médios, o australiano apresentou boa movimentação, conseguiu controlar a distância durante boa parte do combate e foi encontrando espaços conforme a luta avançava.
A estratégia deu resultado no terceiro round.
Depois de conectar golpes importantes e aumentar o ritmo da pressão, Whittaker obrigou o árbitro a interromper o combate, garantindo uma vitória por nocaute técnico que rapidamente chamou a atenção da divisão dos meio-pesados.
Mais do que vencer, ele passou a impressão de que ainda existe bastante margem para evolução nessa nova fase da carreira.
“Parecia que eu ainda estava nos médios”
Uma das declarações que mais chamou atenção após o combate foi justamente a sensação descrita por Whittaker em relação ao desempenho físico.
Mesmo enfrentando atletas naturalmente maiores, o australiano afirmou que a luta pareceu muito semelhante às que fazia nos pesos-médios.
Essa percepção ajuda a explicar por que tantos especialistas defendiam a mudança de categoria havia algum tempo.
Ao longo dos últimos anos, o corte de peso de Whittaker vinha sendo bastante desgastante. Abrir mão desse processo permitiu que ele chegasse ao evento aparentemente mais inteiro, tanto fisicamente quanto mentalmente.
O próprio lutador não escondeu o alívio.
“Tudo que poderia dar certo deu certo. Não consigo explicar o quanto estou feliz”, resumiu durante a coletiva.
A frase demonstra que o resultado vai muito além de apenas uma vitória no cartel. Para Whittaker, representa praticamente um recomeço dentro do UFC.
Um ex-campeão que ainda tem muito a oferecer
A trajetória de Robert Whittaker dispensa apresentações para quem acompanha MMA.
Depois de iniciar sua caminhada no Ultimate como meio-médio, encontrou nos pesos-médios a categoria ideal para desenvolver seu melhor nível técnico. Lá conquistou o cinturão, derrotou alguns dos principais nomes da divisão e construiu uma reputação baseada em velocidade, inteligência tática e excelente movimentação.
Mesmo após perder o título, continuou figurando entre os melhores da categoria durante vários anos.
Entretanto, o cenário começou a mudar recentemente.
As derrotas consecutivas fizeram crescer a sensação de que seria necessário buscar novos desafios antes que sua trajetória começasse a perder força dentro da organização.
A mudança para os meio-pesados surgiu justamente como uma tentativa de renovar a carreira.
Pelo desempenho apresentado no UFC 329, a aposta parece ter sido acertada.
A divisão vive momento de oportunidades
Outro fator que torna essa mudança ainda mais interessante é o cenário atual da categoria até 93 kg.
Nos últimos anos, os meio-pesados passaram por diversas mudanças de protagonismo, trocas constantes no topo do ranking e disputas de cinturão envolvendo diferentes atletas. Poucas divisões do UFC viveram um período tão movimentado quanto essa.
Por isso, Whittaker acredita que não está tão distante assim da elite.
Mesmo chegando agora à categoria, o australiano entende que uma sequência positiva pode colocá-lo rapidamente entre os candidatos ao título. Considerando seu histórico como ex-campeão e o prestígio que possui dentro da organização, essa possibilidade não parece exagerada.
Naturalmente, ainda será necessário enfrentar adversários mais bem posicionados antes de pensar oficialmente em cinturão. Mas a estreia mostrou que esse caminho existe.
Experiência pode ser diferencial
Aos 35 anos, Whittaker está longe de ser um estreante comum.
Além da bagagem construída em anos de UFC, o australiano chega aos meio-pesados com uma característica importante: já enfrentou praticamente todos os estilos possíveis dentro do MMA.
Sua experiência em lutas de cinco rounds, disputas de cinturão e confrontos contra alguns dos maiores nomes da organização pode representar uma vantagem importante diante de atletas que ainda não passaram por situações semelhantes.
Ao mesmo tempo, a categoria oferece novos desafios físicos.
Os golpes costumam ser mais pesados, os rivais apresentam maior alcance e pequenos erros normalmente custam muito caro. Será interessante observar como Whittaker continuará adaptando seu estilo nas próximas apresentações.
Um novo capítulo para “The Reaper”
Durante muito tempo, Robert Whittaker foi sinônimo da divisão dos pesos-médios. Ver o australiano atuando entre os meio-pesados parecia uma possibilidade distante, quase improvável.
Depois do UFC 329, essa impressão mudou completamente.
A vitória convincente sobre Nikita Krylov não apenas interrompeu uma sequência negativa como também devolveu ao ex-campeão a confiança de que ainda pode competir em alto nível dentro da principal organização de MMA do planeta.
Mais importante do que isso, mostrou que sua carreira talvez estivesse precisando exatamente desse novo desafio.
Ainda é cedo para colocá-lo imediatamente na rota do cinturão, mas poucos estreantes conseguem causar uma primeira impressão tão positiva em uma categoria diferente. Se conseguir manter o desempenho apresentado em Las Vegas, Robert Whittaker pode transformar uma mudança vista inicialmente como um último recurso em uma das decisões mais importantes de toda a sua trajetória no UFC.
E, para um lutador que entrou no octógono tentando evitar o esquecimento, não havia maneira melhor de começar esse novo capítulo.
Foto: Mark J. Rebilas, Mark J. Rebilas-Imagn Images



