Argentina x Espanha disputam a taça da Copa
Futebol Copa do Mundo

Como a Copa do Mundo transformou o TikTok em peça importante para a FIFA

A Copa do Mundo de 2026 também se tornou um grande teste para uma nova forma de consumir futebol. Enquanto as partidas seguem sendo o centro do torneio, uma parte importante da cobertura passou a acontecer em vídeos curtos, entrevistas rápidas, bastidores e conteúdos produzidos diretamente para as redes sociais.

Durante a competição, a FIFA escolheu 30 personalidades do TikTok para participar do programa Creator Correspondent. Os criadores receberam acesso a treinos, jogadores e áreas próximas ao gramado, ocupando um espaço que, durante muitos anos, esteve restrito principalmente aos grandes veículos de imprensa.

A iniciativa ajuda a explicar como a entidade tenta alcançar um público diferente, principalmente em uma Copa disputada nos Estados Unidos, Canadá e México. Em países onde parte da população ainda está começando a criar uma relação mais próxima com o futebol, o TikTok pode funcionar como uma porta de entrada para quem dificilmente assistiria a uma análise completa ou acompanharia a cobertura tradicional do torneio.

TikTok ajuda a Copa do Mundo a chegar a um público diferente

Rachel DeMita é um dos exemplos mais claros da estratégia adotada pela FIFA. Conhecida principalmente pelos conteúdos sobre basquete, a criadora já havia acompanhado partidas da MLS e conhecia os grandes nomes do futebol, mas decidiu aumentar sua atenção ao esporte antes da Copa do Mundo.

Durante o torneio, ela passou a produzir vídeos dentro dos estádios, acompanhar treinamentos e entrevistar jogadores depois das partidas. Em uma das gravações, DeMita ficou posicionada ao lado de uma das traves enquanto Cristiano Ronaldo treinava cobranças de falta antes do duelo entre Portugal e República Democrática do Congo. Um dos goleiros chegou a pedir para que ela se afastasse por causa do risco de ser atingida.

O vídeo do treino de Ronaldo ultrapassou 300 mil visualizações, reforçando como o acesso aos bastidores pode gerar interesse nas redes sociais. Para DeMita, a possibilidade de mostrar os jogadores de perto também atende à curiosidade de torcedores que procuram qualquer conteúdo envolvendo os principais atletas da competição.

Ainda assim, a presença dos criadores em espaços tão exclusivos também gera questionamentos. A própria DeMita reconhece que recebeu um acesso que muitos profissionais da imprensa tradicional jamais tiveram, mesmo após décadas trabalhando com a cobertura esportiva. Por isso, ela afirma sentir responsabilidade para aproveitar a oportunidade e entregar conteúdos que sejam interessantes para quem acompanha seu perfil.

A aposta da FIFA durante a Copa do Mundo não envolve pagamento direto aos criadores por cada vídeo produzido. O principal objetivo parece estar na capacidade desses perfis de levar a Copa do Mundo para públicos que já utilizam o TikTok diariamente, mas que nem sempre possuem uma ligação forte com o futebol.

De acordo com Rollo Goldstaub, diretor global de esportes do TikTok, a modalidade combina de maneira natural com o formato de vídeos curtos. Um gol, uma defesa ou uma comemoração em torneios como a Copa do Mundo. conseguem chamar atenção em poucos segundos. Porém, o crescimento do futebol dentro da plataforma não acontece apenas com a publicação de lances.

Reações, explicações táticas, comentários, histórias de jogadores e conteúdos de bastidores também ganharam espaço durante a competição. Com diferentes maneiras de entrar na conversa, torcedores mais casuais conseguem encontrar um tipo de conteúdo que combina com seus interesses antes de criarem uma relação maior com o esporte.

Criadores encontram espaço além dos grandes nomes da Copa do Mundo

A força desse modelo também aparece na possibilidade de contar histórias que dificilmente teriam o mesmo destaque na cobertura tradicional da Copa do Mundo.. Cody Nguyen, conhecido no TikTok como matchday.fc, construiu boa parte de seu crescimento ao falar sobre jogadores, seleções e elementos da Copa que ficam fora dos principais holofotes.

No começo de sua trajetória, Nguyen apostava em publicações provocativas e conteúdos negativos para tentar entrar nas discussões sobre futebol. Com o tempo, percebeu que esse estilo não combinava com sua personalidade e passou a investir em histórias mais positivas e aprofundadas.

Um dos vídeos que ajudou a definir esse caminho falava sobre a camisa da seleção de Curaçao e sua relação com as cores de Willemstad, capital do país. Depois, Nguyen também publicou um conteúdo sobre Eloy Room, goleiro que fez 15 defesas em uma partida contra o Equador na fase de grupos da Copa do Mundo. As duas publicações tiveram boa repercussão e fizeram o criador perceber que era possível desenvolver assuntos mais completos, desde que fossem apresentados em vídeos com menos de 90 segundos. Durante a Copa, ele também falou sobre Vozinha, o ponto conquistado pelo Catar e a ligação do norte-americano Alex Freeman com a NFL.

Nguyen acredita que existe um espaço importante para histórias envolvendo atletas que não recebem a mesma atenção de Messi, Cristiano Ronaldo e outros jogadores cercados por enorme cobertura durante a Copa do Mundo. Para ele, apresentar esses personagens também é uma maneira de humanizar quem está dentro de campo.

Outro criador que utiliza o TikTok para seguir um caminho diferente é David Gerson, árbitro licenciado e mentor ligado ao futebol dos Estados Unidos. Em seu perfil, chamado refsneedlovetoo, ele explica decisões de arbitragem e tenta diminuir o nível de agressividade presente nas discussões sobre os juízes. Gerson não utiliza seu conteúdo para defender que os árbitros estão sempre certos. A proposta é apresentar quais fatores podem ter levado a uma determinada decisão e ajudar o público a entender melhor cada lance. Mesmo quando discorda de uma marcação, o criador evita transformar a análise em ataque pessoal.

A postura não impediu que ele sofresse ameaças nos primeiros anos de trabalho nas redes sociais. Gerson revelou que precisou registrar ocorrências policiais após receber uma mensagem de alguém que dizia saber onde ele morava e ameaçava agredi-lo diante de sua família.

Apesar dos episódios negativos, o perfil cresceu e já possui quase 400 mil seguidores. O criador também prestou consultoria três vezes para a US Soccer e passou a utilizar sua presença na internet para combater os abusos sofridos por árbitros.

Os exemplos mostram que a contribuição dos criadores para a Copa do Mundo vai além de publicar gols ou melhores momentos, tarefa que já é realizada pelos canais oficiais da FIFA. Cada perfil consegue apresentar o torneio por uma perspectiva diferente, seja mostrando os bastidores, explicando uma decisão ou contando a história de um atleta menos conhecido.

Para o TikTok, a plataforma não pretende substituir a transmissão das partidas. A proposta é ocupar o espaço ao redor dos jogos, com conteúdos publicados antes, durante e depois dos confrontos. Neste cenário, a rede social funciona como uma segunda tela que amplia a discussão e mantém o público envolvido durante mais tempo.

A FIFA também disponibilizou os primeiros dez minutos de cada partida gratuitamente no TikTok antes de direcionar os usuários para outras plataformas. Desta forma, a entidade tenta transformar o interesse gerado pelos vídeos em uma aproximação maior com a própria Copa do Mundo.

A Copa do Mundo de 2026 ainda não encerrou a discussão entre a imprensa tradicional e os criadores. Existe uma diferença clara entre acompanhar uma partida completa e consumir apenas recortes de poucos segundos. No entanto, o crescimento dos perfis envolvidos no projeto indica que esse tipo de cobertura já ocupa um espaço importante.

Com acesso aos jogadores, liberdade para procurar histórias diferentes e uma linguagem mais próxima de parte do público, os criadores passaram a participar diretamente da maneira como a competição é acompanhada. Para a FIFA, essa pode ser uma ferramenta importante para manter novos torcedores dentro da conversa sobre futebol, principalmente em mercados onde o esporte ainda busca ampliar sua presença.

Créditos da foto de capa: Getty Images.