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Inglaterra e seus problemas que Thomas Tuchel precisa resolver após o fracasso na Copa do Mundo

A Inglaterra deixou a Copa do Mundo com um sentimento difícil de digerir. A derrota por 2 a 1 para a Argentina na semifinal não representou apenas o fim do sonho do título, mas também expôs problemas que vinham sendo mascarados durante boa parte do torneio. Depois de abrir o placar, os ingleses recuaram demais, perderam completamente o controle da partida e assistiram à reação argentina até sofrerem a virada nos minutos finais.

O cenário é especialmente frustrante porque Thomas Tuchel foi contratado justamente para evitar esse tipo de situação. A Federação Inglesa acreditava que um treinador acostumado a vencer grandes competições teria as ferramentas necessárias para levar a seleção ao tão esperado título internacional. Em vez disso, viu a equipe repetir erros que já marcaram campanhas anteriores e voltar para casa com mais perguntas do que respostas.

A permanência do treinador não está ameaçada. Seu contrato já foi renovado até a Eurocopa de 2028, que será disputada em solo inglês, mas a pressão aumentou significativamente. Agora, Tuchel terá pouco menos de dois anos para corrigir falhas importantes e convencer torcida e imprensa de que este grupo ainda pode conquistar um título.

A dependência de Harry Kane ficou ainda mais evidente

Harry Kane continua sendo o principal nome da seleção inglesa. Depois de uma temporada extraordinária pelo Bayern de Munique, na qual marcou 61 gols em todas as competições, o atacante também brilhou na Copa do Mundo, encerrando o torneio com seis gols e mantendo seu papel de principal referência ofensiva da equipe.

O problema é que o tempo não para nem para grandes artilheiros. Kane completará 33 anos e chegará à Euro 2028 aos 35, idade em que qualquer planejamento precisa considerar um possível desgaste físico ou até eventuais lesões. A Inglaterra parece preparada para contar com seu capitão por mais algum tempo, mas demonstrou que ainda não possui uma alternativa confiável quando ele não está disponível.

Essa situação ficou evidente durante o Mundial. Ollie Watkins e Ivan Toney viajaram como opções para o comando de ataque, mas praticamente não receberam oportunidades. Watkins entrou apenas nos minutos finais contra o Panamá, enquanto Toney participou apenas dos acréscimos diante da Argentina. Na prática, Tuchel deixou claro que não confia plenamente em nenhum substituto para Kane, criando uma dependência perigosa para qualquer seleção que sonha em conquistar grandes títulos.

A renovação ofensiva ainda levanta dúvidas

Se o presente depende de Kane, o futuro também gera preocupação. O futebol inglês continua produzindo jogadores talentosos para praticamente todas as posições, mas a formação de centroavantes de alto nível parece caminhar em ritmo diferente.

Na última temporada da Premier League, Watkins foi o atacante inglês com mais gols, seguido por nomes como Dominic Calvert-Lewin e Danny Welbeck. O detalhe é que todos já se aproximam ou ultrapassam os 30 anos, o que naturalmente limita seu horizonte dentro da seleção.

A expectativa em torno de Eddie Nketiah também diminuiu bastante. Depois de brilhar nas categorias de base da Inglaterra, o atacante não conseguiu manter a evolução esperada no futebol inglês. Nesse cenário, Liam Delap surge como uma das principais esperanças. Ainda jovem, ele mostrou potencial nas últimas temporadas e pode se tornar uma alternativa importante caso consiga manter sua evolução nos próximos anos.

Mesmo assim, fica a sensação de que a Inglaterra ainda não encontrou um sucessor natural para Kane, algo que pode se transformar em um problema considerável quando o capitão deixar a seleção.

O caso Kobbie Mainoo virou um dos maiores mistérios da campanha

Outro ponto bastante debatido após a eliminação envolve Kobbie Mainoo. O jovem meio-campista do Manchester United integrou o grupo que disputou a Copa do Mundo, mas terminou a competição sem atuar sequer por um minuto.

A decisão chamou atenção porque, em diferentes momentos do torneio, Tuchel precisou alterar o meio-campo. Ainda assim, preferiu improvisar jogadores como Reece James e Nico O’Reilly em funções mais centralizadas em vez de utilizar Mainoo.

A escolha gerou um questionamento inevitável. Se o treinador não confiava no jogador para entrar em campo nem mesmo durante partidas decisivas, por que levá-lo ao torneio? A situação acabou transmitindo uma mensagem contraditória tanto para o atleta quanto para os torcedores, que esperavam ver uma das principais promessas do futebol inglês ganhar espaço em um momento tão importante.

Inglaterra ainda busca um verdadeiro controlador no meio

A dificuldade da Inglaterra em controlar partidas importantes voltou a aparecer contra a Argentina. Depois de abrir o placar, a equipe simplesmente deixou de administrar a posse de bola e passou a apenas reagir à pressão adversária.

Essa deficiência evidencia a falta de um meio-campista capaz de ditar o ritmo da partida, organizar a saída de bola e aliviar momentos de sufoco. Mainoo poderia evoluir para exercer essa função, mas não foi utilizado. Adam Wharton também aparece como uma opção interessante para o futuro, enquanto Alex Scott segue ganhando espaço entre os jovens talentos ingleses.

Independentemente do nome escolhido, Tuchel precisará encontrar um jogador que ofereça equilíbrio ao setor. Caso contrário, continuará recorrendo a improvisações que dificilmente funcionarão diante das principais seleções do mundo.

A renovação no gol exige atenção para os próximos anos

Jordan Pickford segue transmitindo segurança e dificilmente perderá a titularidade até a Euro 2028. Aos 34 anos, ele ainda estará em uma idade considerada bastante confortável para goleiros de alto nível.

O problema da Inglaterra aparece quando o olhar se volta para o futuro. James Trafford é visto como o principal sucessor de Pickford, mas sua falta de minutos em campo preocupa. Permanecer no banco durante uma temporada inteira pode atrasar o desenvolvimento de um goleiro que carrega enorme expectativa dentro da Federação Inglesa.

Embora essa não seja uma urgência imediata da Inglaterra, é um planejamento que precisará começar desde já para evitar problemas em competições futuras.

A renovação antecipada de Tuchel voltou ao centro do debate

Antes mesmo da Copa do Mundo, a Federação Inglesa decidiu renovar o contrato de Thomas Tuchel até a Euro 2028. Na época, a decisão foi recebida com naturalidade. O treinador havia conquistado uma campanha perfeita nas Eliminatórias, vencendo todos os jogos sem sofrer gols.

No entanto, o desempenho diante de seleções mais fortes sempre gerou algumas dúvidas. A derrota para Senegal em amistoso e, principalmente, a eliminação para a Argentina reforçaram a percepção de que a equipe ainda não encontrou um padrão sólido para enfrentar adversários do mais alto nível.

Isso não significa que a renovação da Inglaterra tenha sido um erro definitivo. Pelo contrário, a continuidade pode favorecer a construção de um projeto consistente. Mas o respaldo que Tuchel possuía alguns meses atrás certamente diminuiu depois da forma como a Inglaterra deixou escapar a vaga na final.

A questão mental continua perseguindo a seleção inglesa

Além das escolhas táticas, existe um aspecto que preocupa há várias gerações: a mentalidade da equipe nos momentos decisivos. Contra a Argentina, a Inglaterra parecia confortável enquanto atacava, mas mudou completamente de postura depois de abrir o placar.

Os números ajudam a ilustrar esse comportamento. Durante mais de 18 minutos antes do empate argentino, os ingleses completaram apenas três passes, todos entre Jordan Pickford e John Stones. A posse de bola caiu para apenas 12%, mostrando uma equipe incapaz de respirar diante da pressão adversária.

Marc Guehi resumiu essa sensação ao admitir que, após o gol, a equipe passou a pensar apenas em defender. Essa mudança de postura facilitou o crescimento argentino e acabou sendo determinante para a virada.

É evidente que Tuchel tem responsabilidade por ajustar a estratégia da Inglaterra, mas também existe uma parcela importante que depende dos próprios jogadores. Em momentos como esse, manter a calma, controlar a posse de bola e encontrar soluções dentro de campo são características que diferenciam campeões de equipes apenas competitivas.

O caminho até a Euro 2028 exigirá mais do que ajustes táticos

A Inglaterra continua reunindo uma das gerações mais talentosas do futebol mundial. Jude Bellingham, Bukayo Saka, Cole Palmer, Declan Rice, Marc Guehi e Harry Kane formam uma base capaz de enfrentar qualquer adversário em igualdade de condições.

No entanto, a Copa do Mundo deixou claro que talento individual não basta para conquistar títulos. Thomas Tuchel precisará desenvolver alternativas para diminuir a dependência de Kane, definir uma identidade mais clara para o meio-campo da Inglaterra, aproveitar melhor os jovens jogadores e, principalmente, recuperar a confiança da equipe nos momentos decisivos.

A Euro 2028 será disputada diante da torcida inglesa, o que naturalmente aumentará a pressão e também a expectativa. Até lá, o treinador terá tempo suficiente para promover mudanças importantes. A grande dúvida é se conseguirá transformar uma seleção repleta de estrelas em um time capaz de suportar a pressão quando ela realmente aparecer. Porque, mais uma vez, a Inglaterra mostrou que chegar perto já não basta. Depois de tantos anos batendo na trave, a cobrança agora é por conquistas, não apenas por campanhas competitivas.

Foto: Getty Images