O Aston Villa encerrou a última temporada vivendo um dos momentos mais importantes de sua história recente. Após conquistar a Liga Europa, acabar com uma espera de 30 anos por um título e garantir novamente uma vaga na Champions League, o clube parecia pronto para aproveitar o mercado apenas para fortalecer uma base já vencedora.
No entanto, o cenário mudou completamente durante as últimas semanas. A saída de Youri Tielemans para o Manchester United, o acordo do Chelsea por Morgan Rogers e a grave lesão sofrida por Amadou Onana obrigaram Unai Emery a repensar principalmente o meio-campo da equipe. Além disso, Lucas Digne também pode deixar o Villa Park, aumentando ainda mais a necessidade de mudanças no elenco.
Sendo assim, o Aston Villa entra em uma nova fase logo após alcançar o ponto mais alto do trabalho de Emery. O clube perde jogadores importantes, mas recebe valores elevados e já começou a buscar peças mais jovens. Neste cenário, o grande desafio será reformular a equipe sem perder a competitividade construída nas últimas temporadas.
Saídas são um golpe duro para o Aston Villa
A perda mais difícil de solucionar provavelmente será a de Youri Tielemans. O meio-campista deixou o Aston Villa para defender o Manchester United em uma transferência de 35 milhões de libras, encerrando uma passagem na qual se tornou uma das figuras mais importantes do time comandado por Emery. Tielemans era o jogador responsável por controlar o ritmo das partidas e fazer o Aston Villa ter mais tranquilidade com a bola. Com qualidade para encontrar passes entre as linhas e iniciar jogadas ainda no campo defensivo, o belga tinha uma participação que ia além dos números de gols e assistências.
A diferença no rendimento da equipe ajuda a explicar sua importância. Com Tielemans em campo, o Villa teve um aproveitamento de vitórias de 53%. Sem o meio-campista, esse número caiu para 41%. Desta forma, o clube perde justamente uma das peças que davam equilíbrio ao sistema de Emery.
A saída também ganha um peso ainda maior porque acontece ao lado da possível perda de Morgan Rogers. O Chelsea acertou um acordo de 117 milhões de libras para contratar o jogador, em uma transferência que deve superar o recorde britânico estabelecido pela ida de Elliot Anderson ao Manchester City. Desde que chegou do Middlesbrough, em janeiro de 2024, Rogers deixou de ser apenas uma promessa para assumir grande protagonismo no Villa Park. O jogador cresceu rapidamente sob o comando de Emery, chegou à seleção inglesa e se tornou uma das principais referências ofensivas da equipe.
Na última temporada, o atleta marcou 14 gols em 55 partidas. Embora sua produção ofensiva possa ser reposta com a chegada de novos jogadores, a capacidade de conduzir a bola, atacar espaços e atuar em diferentes funções deixará uma lacuna importante no time.
Ao mesmo tempo, o valor da transferência oferece ao Aston Villa uma condição bastante favorável para buscar reforços. A situação é diferente daquela vivida quando Jack Grealish deixou o clube por 100 milhões de libras para jogar no Manchester City. Atualmente, o Villa possui uma base mais competitiva, está garantido na Champions League e conta com um treinador que já provou ser capaz de reconstruir setores do elenco.
O problema é que as mudanças não estavam limitadas às vendas. Amadou Onana sofreu uma ruptura no ligamento cruzado anterior durante a disputa da Copa do Mundo pela Bélgica e pode perder toda a temporada. Antes mesmo do primeiro jogo oficial, Emery ficou sem mais um meio-campista importante.
Neste cenário, três peças que poderiam formar a base do meio-campo deixam de estar disponíveis por motivos diferentes. Tielemans foi vendido, Onana sofreu uma lesão grave e Rogers está próximo de seguir para o Chelsea. Juntos, eles representavam boa parte da força física, criatividade e qualidade técnica do Aston Villa.
Lucas Digne também aparece perto de uma saída. O Paris Saint-Germain está disposto a acionar a cláusula de rescisão de 8,5 milhões de libras presente no contrato do lateral-esquerdo. Aos 32 anos, o francês pode encerrar uma passagem iniciada em 2022, quando deixou o Everton para defender o Villa.
Digne foi uma peça segura durante seu período no clube, porém sua possível venda parece mais simples de resolver. Ian Maatsen já está no elenco e pode assumir mais espaço, enquanto o Aston Villa também iniciou conversas por Pervis Estupiñán. O defensor do Milan conhece Emery do período em que ambos trabalharam no Villarreal e poderia retornar à Premier League.
Reforços apontam para um Aston Villa mais jovem
Apesar de ter sido surpreendido por tantas perdas em um curto espaço de tempo, o Aston Villa não parece ter entrado em pânico. A velocidade das movimentações indica que o clube já considerava a possibilidade de mudanças importantes no elenco e estava preparado para buscar alternativas. Neste cenário, o primeiro grande movimento foi a contratação de Johan Manzambi. O Villa aproveitou a negociação que estava sendo conduzida pelo Newcastle e fechou com o jogador do Freiburg por 59,5 milhões de libras, estabelecendo um novo recorde de compra na história do clube.
Aos 20 anos, Manzambi foi uma das revelações da Suíça na Copa do Mundo. O meio-campista marcou dois gols e deu duas assistências antes de sofrer uma lesão que o tirou da derrota por 3 a 1 contra a Argentina, nas quartas de final.
O novo reforço oferece possibilidades diferentes para Emery. Manzambi pode atuar em uma função mais recuada no meio-campo, aparecer pelos lados ou receber mais liberdade no setor ofensivo. Sua versatilidade pode ser bastante útil para um treinador que costuma adaptar seus jogadores de acordo com as necessidades da equipe.
A chegada também reforça uma mudança no perfil do elenco. O Aston Villa teve a segunda maior média de idade da Premier League na temporada passada, com 28 anos. Desta forma, contratar um jogador de 20 anos, com margem para desenvolvimento, ajuda o clube a iniciar uma renovação que já parecia necessária. Enquanto isso, João Gomes também está próximo de reforçar a equipe. O Villa acertou um acordo de 38 milhões de libras com o Wolverhampton pelo meio-campista brasileiro de 25 anos. Com intensidade, força nos duelos e experiência no futebol inglês, o jogador pode ajudar a preencher parte do espaço deixado no setor.
Além disso, o Aston Villa disputa a contratação de João Palhinha por empréstimo. Caso consiga fechar com o português, Emery ganharia um atleta experiente, capaz de fortalecer a proteção defensiva e assumir uma função de liderança em um setor que passará por muitas mudanças.
Outro nome importante é Boubacar Kamara. O meio-campista está afastado desde janeiro por causa de uma lesão no joelho, mas pode voltar a ficar disponível. Utilizando agora a camisa 8 que pertencia a Tielemans, o francês teria um papel ainda maior na nova formação da equipe.
Com Manzambi, João Gomes, a possível chegada de Palhinha e o retorno de Kamara, o Aston Villa começa a reconstruir seu meio-campo com características diferentes. O setor pode perder parte da criatividade de Tielemans, porém ganharia intensidade, capacidade física e novas opções para Emery montar a equipe.
Ainda será necessário buscar reforços para o ataque. A transferência de Rogers deixa uma grande necessidade por um jogador capaz de atuar pelos lados e também aparecer por dentro. Com o dinheiro recebido do Chelsea, a tendência é que o Villa acelere a procura por um ponta durante o restante do mercado.
Emery já enfrentou situações parecidas desde que chegou ao clube. Jacob Ramsey, Jhon Durán, Moussa Diaby e Douglas Luiz também deixaram o Aston Villa em outros momentos, criando dúvidas sobre a capacidade da equipe de seguir competitiva. Ainda assim, o treinador encontrou soluções e conduziu o time desde a luta contra o rebaixamento até a conquista da Liga Europa.
Inclusive, a última temporada começou de maneira preocupante. O Aston Villa passou os quatro primeiros jogos da Premier League sem marcar gols e teve sua primeira finalização no campeonato apenas no empate por 1 a 1 com o Sunderland, em 21 de setembro. Naquele momento, o próprio Emery admitiu ao elenco que estava preocupado. Porém, a resposta veio durante a campanha. O time conseguiu superar o início ruim, encerrou o longo jejum de títulos e voltou a se classificar para a Champions League. Agora, o treinador terá que encontrar novamente uma maneira de fazer a equipe reagir diante das dificuldades.
Perder Tielemans e Rogers no mesmo mercado, além de não poder contar com Onana, representa um golpe pesado. Porém, as movimentações por Manzambi, João Gomes, Palhinha e Estupiñán indicam que o Aston Villa não pretende passar a temporada apenas lamentando as saídas.
O clube será diferente daquele que levantou a Liga Europa em Istambul. Neste cenário, o sucesso da reformulação dependerá da capacidade de Emery de encaixar rapidamente os novos jogadores e utilizar os recursos recebidos para completar o elenco. Após conquistar um título, o próximo passo do Villa será provar que consegue permanecer entre os principais times da Inglaterra mesmo iniciando um novo ciclo.
Créditos da foto de capa: Foto: Getty Images.