Aston Villa Nicolas Jackson
Futebol Premier League

Aston Villa escolhe Jackson para substituir Watkins, mas com perfil bem diferente

O Aston Villa está prestes a viver uma das mudanças mais importantes de sua equipe nos últimos anos. Nicolas Jackson foi contratado junto ao Chelsea por um acordo que pode chegar a 65 milhões de libras, enquanto Ollie Watkins está próximo de encerrar sua longa passagem pelo clube para acertar com o Al-Hilal.

A princípio, a conta parece simples: sai um centroavante, entra outro. Mas Unai Emery não está recebendo uma simples réplica de Watkins.

Nicolas Jackson tem características bem diferentes do atacante inglês e pode transformar a maneira como o Aston Villa utiliza seu camisa 9. Mais participativo na construção, mais ativo com a bola nos pés e também intenso na pressão, o senegalês chega para ocupar uma vaga importante — mas não necessariamente para fazer exatamente o que Watkins fez.

E existe um detalhe que torna a contratação ainda mais interessante: Emery conhece Jackson muito bem.

Os dois trabalharam juntos no Villarreal, e o próprio atacante já afirmou que o treinador foi fundamental para mudar sua forma de entender o futebol. Agora, alguns anos depois, eles se reencontram em um momento em que o Aston Villa precisa reconstruir parte importante de seu elenco.

Aston Villa vive grande reformulação

A contratação de Nicolas Jackson acontece em meio a uma verdadeira reformulação no Aston Villa. O clube já perdeu jogadores importantes, como Morgan Rogers, Ezri Konsa, Youri Tielemans e Lucas Digne, além de ver Watkins se aproximar de uma saída para o futebol saudita.

O tamanho da mudança ficou evidente logo na estreia da temporada. Sem Watkins à disposição e com Tammy Abraham e o jovem Brian Madjo lesionados, Unai Emery precisou improvisar Emiliano Buendia como centroavante na derrota por 4 a 0 para o Brighton.

Ou seja, a chegada de um novo camisa 9 não era apenas uma oportunidade de mercado. Era uma necessidade.

Jackson chega ao Villa como o novo recordista de contratação do clube, superando o valor investido em Johan Manzambi. Aos 25 anos, ele se junta a nomes como João Gomes, Zion Suzuki e Matteo Ruggeri na nova versão da equipe de Emery.

A missão, porém, não será pequena.

Watkins marcou 108 gols em 278 jogos durante seus seis anos no Aston Villa e se tornou um dos principais símbolos da evolução do clube. A saída do atacante inglês significa o fim de um ciclo que ajudou a recolocar os Villans entre os protagonistas do futebol europeu.

Jackson finaliza mais, mas Watkins teve muito mais minutos

Os números de Nicolas Jackson na última temporada pelo Bayern de Munique, por empréstimo, são animadores. Em 1.320 minutos disputados em todas as competições, o senegalês marcou 11 gols e deu três assistências.

Isso representa uma média de uma participação em gol a cada 90 minutos.

Watkins, por outro lado, marcou 21 vezes e deu cinco assistências em 3.837 minutos, com média de 0,6 participação por jogo completo. Jackson também finalizou mais, registrou mais chutes no alvo e apresentou um xG superior por 90 minutos.

O novo reforço do Aston Villa teve média de 3,8 finalizações por 90 minutos, contra 2,6 de Watkins. Em chutes certos, a diferença também foi grande: 2,2 contra 1,2. Mas existe uma ressalva importante.

Watkins foi titular em 43 partidas e atuou quase três vezes mais que Jackson. O senegalês começou apenas 15 dos 34 jogos que disputou, e muitos de seus números por 90 minutos foram impulsionados por uma amostra menor e por participações como reserva.

Portanto, o Aston Villa não pode simplesmente multiplicar os números de Jackson e esperar a mesma produção durante uma temporada inteira.

Ainda assim, uma tendência é bastante clara: o atacante consegue se colocar frequentemente em boas posições para finalizar.

Desde janeiro de 2020, entre jogadores com pelo menos 5 mil minutos disputados na Premier League, apenas Erling Haaland registra uma média maior de xG sem pênaltis por 90 minutos do que Nicolas Jackson.

Criar oportunidades para marcar nunca foi exatamente o problema. A grande questão está na eficiência.

Nas duas temporadas de Premier League pelo Chelsea, Jackson marcou menos gols do que seus números de gols esperados indicavam. A fama de desperdiçar chances também o acompanhou na Inglaterra, embora Watkins também tenha perdido boas oportunidades durante sua passagem pelo Aston Villa.

Na temporada passada, inclusive, as taxas de conversão dos dois foram muito parecidas.

Camisa 9 que gosta de participar do jogo

É aqui que a contratação de Jackson pode mudar o Aston Villa.

Watkins era um atacante de participação mais direta. Muito de seu jogo estava concentrado na região central do último terço e dentro da área. Ele recebia a bola para atacar o espaço, finalizar e transformar a velocidade em profundidade.

Jackson também gosta de correr nas costas da defesa, mas participa muito mais da construção.

Na última temporada, ele registrou 46,6 toques em jogadas de bola rolando por 90 minutos, contra 29,5 de Watkins. Também completou quase o dobro de passes: 24 por 90 minutos contra 11,6 do inglês.

A diferença continua em outros números.

Jackson realizou mais conduções que terminaram em finalizações, completou mais dribles e acertou significativamente mais passes para dentro da área. Seus mapas de calor também mostram um jogador que aparece em diferentes zonas do ataque, não ficando preso apenas à região central.

Entre uma grande amostra de centroavantes das cinco principais ligas europeias na última década, Jackson aparece em percentuais muito altos em criação de chances, conduções progressivas e participação com a bola.

Watkins, por sua vez, apresenta números bem menores especialmente em envolvimento com a posse. Em outras palavras, o Aston Villa pode estar trocando um centroavante mais voltado para o gol por um atacante que ajuda a construir o caminho até ele.

Jackson também pode aumentar a intensidade sem a bola

Outro ponto importante para Emery é o trabalho defensivo.

Jackson apresentou média superior de pressões em zonas altas e também recuperou mais bolas por 90 minutos do que Watkins. A diferença é ainda mais significativa nas recuperações no terço ofensivo, aspecto importante para um treinador que gosta de equipes agressivas e organizadas.

O senegalês não chega apenas para receber a bola perto da área.

Ele pode ajudar o Aston Villa a pressionar mais alto, recuperar a posse em posições perigosas e acelerar as transições. Isso não significa que Watkins fosse pouco útil sem a bola, mas os números apontam para uma intensidade maior de Jackson nesse aspecto.

Por outro lado, Watkins oferecia mais presença no jogo aéreo e realizava mais corridas terminando dentro da área. A troca, portanto, não é perfeita. O Aston Villa ganhará algumas características e perderá outras.

Reencontro com Unai Emery pode ser a chave

A grande vantagem de Nicolas Jackson é que ele não chega para trabalhar com um treinador desconhecido.

Unai Emery comandou o atacante no Villarreal, período em que Jackson começou a entender melhor seu posicionamento e a transformar sua habilidade natural em um jogo mais estruturado.

O próprio jogador reconheceu a influência do treinador.

“Unai me ensinou tudo sobre futebol”, afirmou Jackson.

O atacante explicou anteriormente que chegou à Europa com habilidade para driblar, mas sem o mesmo entendimento sobre movimentação e posicionamento. Emery teve um papel importante em sua evolução.

Depois da saída do treinador, o desenvolvimento de Jackson continuou.

Na temporada 2022/23 da La Liga, ele apresentou números de xG e assistências esperadas por 90 minutos superiores aos de praticamente todos os jogadores da competição fora dos grandes nomes de Barcelona, Real Madrid e Atlético de Madrid.

O Chelsea percebeu o potencial e o contratou em 2023. Pelo clube inglês, Jackson marcou 30 gols e deu 12 assistências em 81 partidas antes de passar a última temporada emprestado ao Bayern de Munique.

Na Alemanha, a concorrência foi pesada.

Harry Kane seguiu saudável e marcando gols, enquanto Luis Díaz e Michael Olise também reduziram as oportunidades de Jackson. Mesmo assim, o senegalês marcou 11 gols, e apenas Kane apresentou uma média superior de gols de bola rolando por 90 minutos na Bundesliga.

Aston Villa não quer outro Watkins

O Aston Villa perderá um jogador extremamente importante caso a saída de Watkins para o Al-Hilal seja confirmada. Seus 108 gols, sua velocidade e sua regularidade dificilmente serão substituídos por um jogador que faça exatamente as mesmas coisas. Mas talvez esse nem seja o plano.

Nicolas Jackson chega cinco anos mais jovem, com potencial de evolução e um perfil que oferece mais participação na construção ofensiva. Ele pode tocar mais na bola, conduzir mais, criar para os companheiros e ajudar na pressão desde o campo de ataque.

As dúvidas sobre sua finalização continuarão existindo até que ele prove o contrário. A diferença entre ser um atacante muito promissor e se tornar um dos grandes goleadores da Premier League pode depender justamente dessa evolução.

Mas, se existe um treinador que conhece os pontos fortes e as limitações de Jackson, esse treinador é Unai Emery. O Aston Villa não está apenas mudando de centroavante. Está mudando o perfil do jogador que liderará seu ataque.

Watkins foi uma referência de velocidade, profundidade e gols em uma das fases mais marcantes da história recente do clube. Jackson chega com mais improviso, mais participação e, claro, aquele estilo capaz de fazer o torcedor levantar da cadeira, seja para comemorar uma jogada genial ou para se perguntar como uma chance tão boa não entrou.

Para Unai Emery, o desafio será transformar esse talento em regularidade. Se conseguir, o Aston Villa pode ter encontrado não apenas o substituto de Watkins, mas um novo caminho para seu ataque.

Foto: Getty Images