A conquista da Copa do Mundo de 2026 colocou a Espanha novamente entre as maiores seleções da história do futebol. Dezesseis anos depois do primeiro título mundial, conquistado na África do Sul em 2010, La Roja voltou ao topo ao derrotar a Argentina na decisão e levantar sua segunda taça. Porém, o título conquistado nos Estados Unidos, México e Canadá representa apenas o início de um novo desafio.
O próximo objetivo já tem data marcada. Em 2030, a Espanha será uma das anfitriãs da Copa do Mundo ao lado de Portugal e Marrocos. Além da responsabilidade de jogar diante de sua torcida, a seleção comandada por Luis de la Fuente terá a oportunidade de buscar dois feitos extremamente raros na história do torneio: conquistar duas Copas do Mundo consecutivas e quebrar um jejum de quase três décadas sem um país-sede levantar o troféu.
A combinação desses dois desafios faz com que o ciclo da seleção espanhola possa entrar definitivamente para a história caso consiga repetir o sucesso dentro de quatro anos.
Repetir um título mundial é uma missão reservada para seleções históricas

Poucas marcas são tão difíceis no futebol quanto conquistar duas Copas do Mundo consecutivas. Em quase um século de história da competição, apenas duas seleções conseguiram manter sua hegemonia durante oito anos seguidos.
A primeira delas foi a Itália.
A geração liderada por Giuseppe Meazza conquistou os Mundiais de 1934 e 1938, tornando-se a primeira bicampeã consecutiva da competição. Além da qualidade técnica do elenco, os italianos conseguiram manter uma base sólida durante todo o ciclo, algo considerado essencial em torneios de seleções.
Foram necessários vinte anos para que alguém repetisse esse feito.
Entre 1958 e 1962 surgiu uma das maiores gerações da história do futebol. Com Pelé, Garrincha, Vavá e diversos outros craques, o Brasil dominou completamente o cenário mundial e tornou-se a segunda seleção a defender com sucesso um título da Copa do Mundo.
Desde então, nenhuma outra equipe conseguiu repetir essa façanha.
Alemanha, Argentina, França e a própria Espanha levantaram a taça em diferentes momentos, mas todas fracassaram na tentativa de conquistar dois títulos consecutivos.
Agora, a seleção espanhola chega a 2030 com essa possibilidade.
O cenário é favorável porque boa parte da base campeã em 2026 continuará em alto nível. Jogadores como Rodri, Pau Cubarsí, Lamine Yamal, Nico Williams, Dani Olmo e Pedri ainda estarão em idade competitiva, permitindo que Luis de la Fuente mantenha praticamente a mesma espinha dorsal responsável pelo título mundial.
Além da continuidade do trabalho, a Espanha também chega embalada por uma sequência impressionante de resultados. A equipe conquistou a Eurocopa de 2024 e agora voltou ao topo do futebol mundial em 2026, mostrando uma regularidade que poucas seleções conseguiram manter nas últimas décadas.
Mesmo assim, a história mostra que defender um título mundial costuma ser ainda mais difícil do que conquistá-lo pela primeira vez. A pressão aumenta, os adversários estudam mais profundamente o campeão e cada partida passa a ser encarada como uma decisão.
É justamente esse desafio que torna a missão espanhola tão grandiosa.
Jogar em casa deixou de ser vantagem nas últimas décadas

Se repetir o título mundial já representa uma missão complicada, conquistar uma Copa atuando como anfitrião também se tornou um enorme desafio.
Durante boa parte da história da competição, jogar em casa significava uma vantagem importante.
O Uruguai inaugurou essa tradição ao conquistar o primeiro Mundial da história, em 1930, diante de sua torcida. Poucos anos depois, a Itália repetiu o feito em 1934.
Na sequência vieram Inglaterra, campeã em Wembley em 1966, Alemanha Ocidental em 1974 e Argentina em 1978.
O último anfitrião a levantar a taça foi justamente a França, em 1998. Liderada por Zinedine Zidane, a equipe derrotou o Brasil na decisão disputada em Paris e conquistou seu primeiro título mundial.
Desde então, a história mudou completamente.
Coreia do Sul e Japão, em 2002, Alemanha em 2006, África do Sul em 2010, Brasil em 2014, Rússia em 2018, Catar em 2022 e Estados Unidos, México e Canadá em 2026 não conseguiram aproveitar o fator casa para levantar o troféu.
Esse longo período criou até mesmo a ideia de uma espécie de “maldição” dos anfitriões no século XXI.
Naturalmente, atuar diante da própria torcida continua oferecendo vantagens importantes, como menor desgaste com viagens, adaptação ao ambiente e apoio constante nas arquibancadas. Porém, o crescimento do equilíbrio entre as seleções fez com que esse fator deixasse de ser decisivo.
A Espanha terá a oportunidade de desafiar essa tendência em 2030.
Uma geração que pode marcar época

Mais do que tentar quebrar recordes, a Espanha possui motivos concretos para acreditar que pode chegar novamente como favorita.
O trabalho desenvolvido por Luis de la Fuente transformou a equipe em uma seleção extremamente equilibrada. Sem abrir mão da tradicional posse de bola, La Roja passou a apresentar maior intensidade na pressão, mais velocidade pelos lados e uma defesa praticamente intransponível.
Na campanha do título de 2026, por exemplo, a equipe sofreu apenas um gol durante toda a competição, reflexo da organização coletiva construída pelo treinador.
Além disso, a renovação aconteceu de maneira natural.
Lamine Yamal confirmou o enorme potencial e consolidou-se como uma das maiores estrelas do futebol mundial ainda antes dos 20 anos. Pau Cubarsí mostrou maturidade incomum para comandar a defesa. Rodri voltou ao seu melhor nível e terminou a Copa eleito o melhor jogador do torneio. Nico Williams, Pedri e Dani Olmo completaram um meio-campo e ataque capazes de controlar partidas contra qualquer adversário.
Outro fator importante é que a maioria desses atletas ainda estará vivendo o auge físico e técnico em 2030.
Isso permite que a Espanha mantenha praticamente intacta a estrutura que conquistou a Copa do Mundo, algo que poucas seleções conseguem fazer entre um ciclo e outro.
Ainda assim, a história ensina que favoritismo nunca garante títulos em Copas do Mundo.
Apenas Itália e Brasil conseguiram defender a conquista anterior. Nenhum anfitrião vence a competição desde a França de Zidane, em 1998.
São dois tabus que atravessam gerações e mostram o tamanho da missão espanhola.
Ao mesmo tempo, poucos times recentes parecem tão preparados para desafiar esses números quanto a atual seleção de Luis de la Fuente. Depois de conquistar a Eurocopa e a Copa do Mundo em sequência, a Espanha chega a 2030 não apenas para defender seu título, mas para buscar um lugar definitivo entre as maiores dinastias que o futebol já conheceu.
(Foto de capa: Juan Mabromata/AFP)


