Jurgen Klopp
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Klopp assume a Alemanha em meio à crise: salvador da pátria ou solução temporária?

Jurgen Klopp está de volta ao banco de reservas, mas desta vez o desafio é muito maior do que disputar uma Premier League ou uma Liga dos Campeões. O treinador de 59 anos foi anunciado como novo comandante da seleção da Alemanha e terá a missão de reconstruir uma das maiores potências da história do futebol mundial, que vive sua pior crise em décadas.

A eliminação para o Paraguai nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026, nos Estados Unidos, Canadá e México, foi a gota d’água para o técnico Julian Nagelsmann, que optou por deixar o cargo logo após a competição. O resultado mergulhou a Federação Alemã de Futebol (DFB) em uma busca urgente por um nome capaz de devolver identidade, confiança e competitividade ao time.

A resposta foi rápida: Klopp assinou contrato até 2030 e será o responsável por conduzir a Alemanha até a Eurocopa de 2028 e a Copa do Mundo de 2030. A estreia acontece já no dia 24 de setembro, diante da Holanda, em um clássico que promete colocar o novo projeto à prova desde os primeiros minutos.

Nome que a Alemanha queria desde o início

Dentro da DFB, praticamente não existia plano B.

Assim que Nagelsmann comunicou sua saída, a prioridade absoluta passou a ser convencer Klopp a aceitar o convite. O presidente da federação, Bernd Neuendorf, não escondeu que o treinador sempre foi a primeira opção.

Segundo o dirigente, Klopp reúne características que a seleção perdeu ao longo dos últimos anos: liderança, credibilidade e capacidade de mobilizar jogadores e torcedores.

Não é difícil entender esse pensamento.

Ao longo da carreira, Klopp transformou o Borussia Dortmund em uma potência da Bundesliga, conquistando dois títulos nacionais diante do poderoso Bayern de Munique. Depois, escreveu seu nome definitivamente na história do Liverpool ao encerrar um jejum de 30 anos sem título inglês e conquistar também a Liga dos Campeões.

Muito mais do que levantar troféus, o alemão ficou conhecido por criar equipes extremamente competitivas, intensas e emocionalmente conectadas com suas torcidas.

É justamente essa identidade que a seleção tenta recuperar.

Seleção que perdeu sua essência

A Alemanha já foi sinônimo de regularidade em grandes competições. Durante décadas, entrar em uma Copa do Mundo significava automaticamente colocar os alemães entre os favoritos ao título.

Hoje, o cenário é completamente diferente.

A eliminação precoce em 2026 marcou a terceira Copa do Mundo consecutiva em que a seleção não conseguiu sequer chegar às oitavas de final. Para um país tetracampeão mundial, trata-se de um desempenho considerado desastroso.

Mais do que os resultados, preocupa a falta de personalidade apresentada pela equipe nos últimos anos.

Jogadores talentosos continuam surgindo, mas a sensação é de que o time perdeu sua identidade competitiva, característica que durante décadas fez da Alemanha um adversário temido em qualquer competição.

É justamente aí que Klopp entra como esperança.

Sua filosofia sempre foi baseada em intensidade, pressão constante e espírito coletivo. Não por acaso, durante sua passagem pelo Liverpool, criou o famoso conceito dos “monstros da mentalidade”, jogadores capazes de competir até o último segundo independentemente das circunstâncias.

Aprovação da maioria, mas não de todos

Grande parte dos torcedores recebeu a contratação com entusiasmo.

Uma pesquisa realizada pela tradicional revista alemã Kicker apontou que aproximadamente 80% dos leitores consideram Klopp o nome ideal para assumir a seleção.

Ex-jogadores também enxergam potencial na mudança.

Stefan Effenberg acredita que o treinador pode devolver o entusiasmo ao futebol alemão, enquanto Carsten Cramer, diretor-executivo do Borussia Dortmund, foi além ao afirmar que Klopp representa valores que não fazem falta apenas ao esporte, mas também ao próprio país.

Ainda assim, nem todo mundo está convencido de que a chegada do treinador resolverá os problemas.

Polêmica envolvendo a Red Bull continua

Se durante anos Klopp foi praticamente unanimidade entre os torcedores alemães, essa imagem sofreu desgaste nos últimos tempos.

Tudo começou quando ele aceitou, em 2024, o cargo de diretor global de futebol da Red Bull.

A decisão desagradou parte da torcida porque a empresa é alvo constante de críticas na Alemanha por seu modelo de múltiplos clubes e pela forma como estrutura seus projetos esportivos, considerada por muitos uma maneira de contornar a tradicional regra do 50+1, que preserva o controle dos clubes nas mãos dos associados.

As críticas voltaram com força quando surgiram informações de que Klopp poderia continuar atuando como embaixador da Red Bull mesmo ocupando o cargo de técnico da seleção.

O ex-presidente da Federação Alemã, Theo Zwanziger, classificou essa possibilidade como “inadmissível”, enquanto grupos organizados de torcedores afirmaram que a DFB não deveria se aproximar ainda mais dos interesses comerciais da empresa.

Até mesmo parte da torcida do Borussia Dortmund, clube onde Klopp virou ídolo absoluto, demonstra hoje uma relação bem mais fria com o treinador.

Problema vai muito além do treinador

Mesmo aqueles que apoiam a contratação fazem questão de lembrar que Klopp não possui uma varinha mágica.

O ex-jogador Bastian Schweinsteiger resumiu bem esse pensamento ao afirmar que o treinador pode representar um “curativo”, mas dificilmente será capaz de resolver sozinho problemas estruturais que vêm se acumulando há anos.

As dificuldades começam na formação de atletas, passam pelo desenvolvimento técnico das categorias de base e chegam até a identidade tática do futebol alemão.

O próprio Klopp já admitiu diversas vezes que mudanças profundas serão necessárias.

Segundo ele, a reconstrução não depende apenas do treinador da seleção principal, mas exige uma reformulação ampla em todo o sistema do futebol alemão.

Essa visão reforça que seu trabalho não será limitado às convocações e aos jogos internacionais. A expectativa é que sua influência também ajude a provocar mudanças na forma como o país desenvolve novos talentos.

Primeiro desafio já tem data marcada

A nova caminhada começa oficialmente em setembro, diante da Holanda, pela Liga das Nações.

No entanto, todos sabem que a verdadeira avaliação acontecerá apenas na Eurocopa de 2028, competição que será disputada no Reino Unido e na Irlanda.

Até lá, Klopp terá tempo para implantar sua filosofia, recuperar jogadores que perderam espaço e construir uma equipe competitiva novamente.

Curiosamente, o torneio ainda pode reservar um momento especial para o treinador. Embora Anfield não seja uma das sedes da competição, existe a possibilidade de a Alemanha disputar partidas no Hill Dickinson Stadium, nova casa do Everton, na cidade de Liverpool, onde Klopp viveu os anos mais marcantes de sua carreira.

Se chegar ao torneio com uma seleção novamente forte e competitiva, o técnico poderá confirmar a fama de transformador que construiu ao longo da carreira. Caso contrário, a discussão permanecerá aberta: Jurgen Klopp foi realmente a solução para a Alemanha ou apenas o nome ideal para esconder problemas muito mais profundos do futebol do país?