Houve um momento em que David Alaba e Anthony Martial pareciam destinados a ocupar um lugar muito maior na história recente do futebol. O austríaco foi um dos jogadores mais completos de sua geração, campeão europeu por Bayern de Munique e Real Madrid, enquanto o francês surgiu no Monaco como uma das maiores promessas do futebol mundial e chegou ao Manchester United cercado pela expectativa de se transformar em um dos grandes atacantes de sua geração. Anos depois, os dois se encontram em uma situação muito diferente: livres no mercado e diante da necessidade de encontrar um novo caminho para suas carreiras.
A diferença é que os destinos possíveis também mostram o tamanho da transformação. Alaba, aos 34 anos, apareceu como uma possibilidade para o América do México depois de deixar o Real Madrid. Martial, de 30, foi oferecido ao Málaga após encerrar sua passagem pelo Monterrey. São movimentos que dificilmente seriam imaginados no auge dos dois jogadores, mas que fazem sentido quando se observa o ponto em que suas carreiras chegaram. Mais do que transferências curiosas, os casos representam uma tentativa de recuperar algo que ficou pelo caminho: a sensação de que ainda existe futebol suficiente para justificar a expectativa que um dia acompanhou seus nomes.
Alaba deixou de ser estrela para virar oportunidade de mercado
A história de David Alaba é particularmente curiosa porque sua queda de protagonismo não aconteceu por falta de currículo. Pelo contrário. O austríaco construiu uma carreira que poucos jogadores de sua geração conseguem igualar, com títulos nacionais, quatro Champions League e passagens por duas das maiores instituições do futebol europeu. No Real Madrid, ainda foi peça importante na conquista de títulos durante os primeiros anos, inclusive como um defensor capaz de atuar tanto como zagueiro quanto pela lateral esquerda e até no meio-campo.
O problema é que o Alaba dos últimos anos não é mais o mesmo jogador. A grave lesão no joelho sofrida em dezembro de 2023 interrompeu uma fase importante da carreira e foi seguida por outros problemas físicos. A consequência foi uma redução drástica da sequência em campo e, naturalmente, da percepção sobre sua capacidade de sustentar o nível exigido por um gigante europeu. O austríaco ainda conseguiu disputar a Copa do Mundo de 2026, mas chegou ao fim do contrato com o Real Madrid sem que o clube optasse pela renovação.
É nesse contexto que surgiu o América. O clube mexicano perdeu Sebastián Cáceres para o Celta de Vigo e precisava encontrar uma alternativa para a defesa. O nome de Alaba apareceu porque havia uma combinação tentadora: um jogador experiente, multicampeão e disponível sem necessidade de pagar uma taxa de transferência. Seu entorno entrou em contato com o América e colocou o austríaco sobre a mesa.
A dimensão do nome, porém, foi maior do que a possibilidade real do negócio. Embora algumas informações tenham apontado o América como interessado na contratação, outras reportagens mexicanas indicaram que o clube avaliou Alaba, mas não o colocou como prioridade. A idade e o histórico recente de lesões pesaram na análise.
Essa diferença é importante. Alaba já não é necessariamente um jogador que escolhe seu próximo clube; é um jogador que precisa convencer um clube de que ainda vale a pena apostar nele.
Martial vive uma queda ainda mais difícil de explicar
Se Alaba foi prejudicado principalmente pelo desgaste físico, a trajetória de Martial é mais complexa porque seu principal problema sempre pareceu estar relacionado à incapacidade de transformar talento em regularidade.
Quando apareceu no Monaco, o francês tinha características que justificavam todo o entusiasmo. Velocidade, força, habilidade individual, capacidade de atacar espaços e qualidade para atuar tanto como ponta quanto como centroavante. O Manchester United pagou uma quantia elevada para tirá-lo do futebol francês em 2015, e Martial rapidamente produziu momentos que pareciam confirmar a previsão de que havia ali um atacante especial.
O problema foi transformar esses momentos em uma carreira consistente. Martial passou nove anos no Manchester United, mas nunca conseguiu estabelecer uma sequência longa de temporadas no nível esperado. Teve períodos de grande rendimento, como na temporada 2019/20, mas também enfrentou lesões, mudanças de treinador e oscilações de confiança. Depois de deixar a Inglaterra, tentou recomeçar no Sevilla, no AEK Atenas e, mais recentemente, no Monterrey.
A passagem pelo futebol mexicano, no entanto, também não representou a recuperação imaginada. Martial deixou o Monterrey no fim de junho, depois de disputar apenas 20 partidas e marcar um gol, e agora está novamente livre.
O contraste é enorme. Um jogador que chegou ao Manchester United como uma das maiores promessas do futebol europeu agora precisa encontrar espaço em um clube que acabou de retornar à elite espanhola.
O interesse do Málaga tem uma lógica que vai muito além do nome de Martial. O clube espanhol enfrenta problemas ofensivos no começo da temporada e perdeu Julen Lobete por uma grave lesão. Nas quatro primeiras rodadas, a equipe havia marcado apenas um gol, o que tornou a necessidade de encontrar uma alternativa ofensiva ainda mais evidente.
Martial, portanto, não aparece simplesmente como uma contratação de oportunidade. Existe uma necessidade esportiva que pode coincidir com uma oportunidade de carreira. O francês é agente livre e, por isso, pode ser contratado mesmo depois do fechamento da janela. Além disso, conhece o futebol espanhol por sua passagem pelo Sevilla e oferece uma característica importante para um clube com recursos limitados: pode jogar em diferentes posições do ataque.
O Málaga ainda precisa avaliar se a operação é financeiramente viável e se o jogador está disposto a aceitar um projeto muito diferente daqueles aos quais esteve acostumado. Mas o simples fato de seu nome estar sendo considerado mostra como a carreira mudou.
Para Martial, porém, existe uma motivação que pode ser ainda mais importante do que o salário ou o tamanho do clube: voltar a jogar regularmente.
Depois de tantos anos marcados por interrupções, poucas coisas seriam mais valiosas para o francês do que uma temporada em que seu nome aparecesse novamente nas escalações todas as semanas.
O que os dois casos têm em comum
Alaba e Martial seguiram caminhos diferentes, mas chegaram a uma encruzilhada semelhante.
Nenhum dos dois precisa provar que teve uma grande carreira. Os dois conquistaram títulos importantes, jogaram por clubes gigantes e atingiram níveis que a maioria dos jogadores profissionais jamais alcançará. O que ficou faltando foi outra coisa: transformar o enorme potencial individual em uma trajetória proporcional à expectativa que existia quando eram mais jovens.
Alaba chegou a ser considerado um dos melhores defensores do mundo. Martial chegou a ser tratado como um dos próximos grandes atacantes do futebol europeu. Mas existe uma diferença entre ter sido um grande jogador em determinados momentos e construir uma carreira consistentemente grande. É justamente essa diferença que explica por que os dois estão hoje procurando novos clubes.
Quando Alaba tinha 20 anos, a pergunta era até onde ele poderia chegar. Aos 34, a pergunta é quanto ainda consegue oferecer. Quando Martial tinha 20 anos, ninguém discutia se ele tinha talento suficiente. A discussão era sobre quando ele se tornaria uma estrela mundial. Aos 30, a questão passou a ser muito mais simples: ele ainda consegue ser decisivo de forma consistente?
Essa mudança de perspectiva é inevitável no futebol. Para jogadores jovens, um clube aceita apostar no potencial. Para jogadores experientes, a aposta precisa ser justificada pelo rendimento imediato. E é exatamente por isso que os dois precisam aceitar uma realidade que talvez fosse difícil de imaginar durante o auge: o próximo clube não será necessariamente escolhido pelo tamanho do nome, mas pela possibilidade de recuperar o jogador que um dia eles foram.
Alaba talvez encontre no futebol mexicano uma oportunidade de ser novamente protagonista em uma equipe importante, enquanto Martial pode enxergar no Málaga a possibilidade de reconstruir sua imagem na Espanha.
Nenhum dos dois destinos representa, necessariamente, um retrocesso. O futebol contemporâneo oferece diversos exemplos de jogadores que encontraram uma segunda vida longe do ambiente em que construíram sua reputação.
O problema é que, nesse estágio da carreira, não existe mais tempo infinito.
A última grande chance de mudar a narrativa
No final, Alaba não precisa voltar a ser o jogador do Bayern ou o zagueiro dominante que ajudou o Real Madrid a conquistar títulos europeus. Se conseguir permanecer saudável e oferecer experiência, qualidade técnica e versatilidade durante uma temporada inteira, já poderá considerar o recomeço bem-sucedido.
Martial também não precisa reproduzir a temporada de 2019/20 para recuperar sua carreira. Precisa simplesmente voltar a jogar, marcar gols e permanecer em campo tempo suficiente para que a percepção sobre seu futebol deixe de ser dominada pelo que ele poderia ter sido.
Talvez seja essa a parte mais cruel da trajetória de jogadores extremamente talentosos. O futebol não costuma cobrar apenas aquilo que eles fizeram. Muitas vezes, cobra também aquilo que todos acreditavam que fariam. Alaba e Martial carregaram durante anos essa expectativa.
Agora, porém, a expectativa mudou. O austríaco pode estar diante de uma mudança radical de cenário no América, enquanto o francês pode encontrar no Málaga uma tentativa de recomeço na Espanha. São destinos que simbolizam a distância entre a promessa e o presente, mas também podem representar algo diferente: a oportunidade de construir um último capítulo digno para carreiras que, apesar de vitoriosas, nunca alcançaram completamente o potencial que um dia parecia ilimitado.
Alaba e Martial já provaram que podiam chegar ao topo. O desafio agora é descobrir se ainda conseguem encontrar um caminho de volta até ele, mesmo que o topo, desta vez, seja muito diferente.



