Com a Fórmula 1 se aproximando cada vez mais do universo da alta moda, a Alpine encontrou uma maneira de entrar de vez nesse mercado. Após fechar um acordo de patrocínio principal com a grife italiana, Gucci, a equipe passará a competir oficialmente como Gucci Racing Alpine Formula One Team. O contrato representa uma importante vitória comercial para uma equipe que tenta reconstruir sua imagem depois de temporadas marcadas por dificuldades dentro das pistas.
O acordo, porém, esteve longe de ser simples. Segundo Flavio Briatore, consultor-executivo da Alpine, a ideia de colocar a Gucci como patrocinadora principal da equipe chegou a ser considerada uma “péssima ideia” quando foi apresentada pela primeira vez. Foi necessária muita insistência, e uma visita ao GP de Mônaco, um dos GPs mais luxuosos do calendário, para transformar a rejeição inicial em um dos acordos comerciais mais importantes da história recente da equipe.
Gucci entra em uma disputa de gigantes do luxo
Para entender o tamanho do acordo, é preciso olhar para o cenário que envolve a Fórmula 1 fora das pistas. A categoria vem atraindo cada vez mais marcas de luxo, principalmente por causa de seu alcance global e da exposição proporcionada pelo paddock, tanto por pilotos, quanto por modelos convidados e esposas de pilotos, que muitas vezes são vistas pelo paddock usando marcas de luxo.
A LVMH, conglomerado francês que reúne marcas como Louis Vuitton, Moët Hennessy e TAG Heuer, tornou-se uma das principais forças nesse movimento. Agora, a chegada da Gucci coloca outro gigante do setor diretamente em um carro de Fórmula 1. A Gucci faz parte do grupo Kering, um dos principais concorrentes da LVMH no mercado de luxo.
Dessa forma, a parceria com a Alpine vai muito além de simplesmente estampar uma marca no carro: ela coloca dois dos maiores conglomerados do segmento competindo também pelo espaço e pela atenção proporcionados pela Fórmula 1. Foi justamente observando o crescimento da presença da Louis Vuitton e de outras marcas de luxo na categoria que Briatore enxergou uma oportunidade.
O dirigente procurou Luca, um antigo conhecido que já havia ocupado uma posição de liderança na Renault e posteriormente assumido um cargo importante na Gucci. A proposta era unir a grife italiana a outros parceiros da Alpine, como Eni e MSC, formando uma espécie de grupo de grandes marcas italianas com presença internacional dentro da F1. A primeira reação, entretanto, não foi positiva. “Ele me disse que era uma ideia muito ruim”, revelou Briatore.
Briatore não desistiu e levou Pinault a Mônaco
A rejeição inicial poderia ter encerrado o projeto, mas Briatore continuou insistindo. O próximo passo era convencer François-Henri Pinault, presidente e CEO da Kering, a apostar na Fórmula 1. O problema era que Pinault não tinha qualquer relação especial com a categoria. Diferentemente de executivos ligados ao setor automotivo, o empresário não acompanhava o campeonato e praticamente não conhecia o universo da F1. “Foi difícil no começo porque o senhor Pinault nunca acompanhou a Fórmula 1 e não fazia ideia do que estava acontecendo”, contou Briatore.
Nesse momento, o italiano percebeu que números de audiência ou argumentos financeiros talvez não fossem suficientes para convencer o executivo. A solução foi levá-lo ao lugar onde a Fórmula 1 consegue mostrar melhor sua força como espetáculo: Mônaco. A Alpine recebeu Pinault durante o GP de Mônaco, uma das etapas mais tradicionais e exclusivas do calendário. E, felizmente, a experiência teve o efeito esperado.
O empresário ficou impressionado com a dimensão do evento, a atmosfera e a exposição proporcionada pela corrida. O que antes parecia uma proposta sem sentido começou a ganhar outra perspectiva. “Depois disso, ele foi convencido a fazer algo com a Alpine. Tivemos a corrida de Mônaco para ele. Foi a primeira corrida. Ele ficou incrivelmente entusiasmado vendo tudo aquilo”, relatou Briatore.
Alpine ganha força comercial para 2027
A aprovação de Pinault abriu caminho para a formalização do acordo e para a entrada da Gucci em uma posição inédita dentro da Fórmula 1. A partir de 2027, a marca será o principal nome associado à Alpine, levando uma das maiores grifes de luxo do mundo para o centro da identidade da equipe. Para a Alpine, o impacto vai muito além da estética. O acordo representa uma importante injeção comercial em um momento no qual a equipe busca recuperar espaço no grid e construir uma imagem mais forte para a nova era da categoria.
A parceria também mostra como a Fórmula 1 deixou de ser apenas uma plataforma para montadoras, empresas de tecnologia e patrocinadores tradicionais. O campeonato passou a ser cada vez mais atraente para marcas de moda, entretenimento e luxo que buscam acesso a um público global.
E a disputa entre LVMH e Kering ajuda a explicar por que a F1 se tornou tão interessante para esse mercado. De um lado, a Louis Vuitton já possui forte presença ligada à categoria. Do outro, a Gucci agora terá uma equipe inteira para construir sua identidade dentro do paddock. Curiosamente, embora os dois grupos sejam franceses, executivos italianos têm desempenhado papéis importantes nessa aproximação entre luxo e Fórmula 1.
Briatore precisa entregar um carro à altura da Gucci
O acordo resolve uma parte importante dos planos da Alpine para o futuro, mas também cria uma nova responsabilidade. Uma marca como a Gucci não estará apenas no carro. A parceria coloca a Alpine ainda mais sob os holofotes e aumenta a expectativa em torno da equipe quando a nova temporada começar. Isso significa que Briatore terá outro desafio pela frente: transformar a força comercial conquistada fora das pistas em resultados dentro delas. Não adianta ter uma das grifes mais famosas do mundo estampada no carro se o monoposto não tiver desempenho para disputar posições importantes.
A Alpine agora tem uma marca de US$ 6 bilhões ao seu lado e um dos maiores acordos de patrocínio de sua história. O próximo passo será fazer com que o carro de 2027 esteja à altura do nome que carregará.
A Gucci já foi chamada de “péssima ideia”. Briatore conseguiu transformar a rejeição em um acordo histórico. Agora, resta descobrir se a Alpine conseguirá fazer na pista o mesmo sucesso que alcançou nas negociações.
Foto: (Reprodução/ Band)



