A primeira metade da temporada 2026 da Fórmula 1 terminou com Kimi Antonelli na liderança do campeonato, mas também deixou uma pergunta importante para a segunda parte do ano: quem mais deixou pontos pelo caminho?
Em uma temporada marcada por problemas de confiabilidade, penalidades, estratégias controversas e disputas que terminaram antes da hora, alguns pilotos poderiam estar em uma situação muito melhor na tabela.
Entre os principais candidatos, George Russell talvez seja o caso mais evidente. O britânico terminou a primeira metade do campeonato em terceiro, com 160 pontos, 59 atrás de seu companheiro de Mercedes, Antonelli. A diferença poderia ser bem menor se não fossem uma sequência de acontecimentos que tiraram do piloto resultados importantes, alguns por falhas da equipe, outros por decisões que acabaram custando caro.
E o caso de Russell fica ainda mais impressionante quando se olha para as corridas individualmente. O piloto venceu na Austrália e na Áustria, foi segundo na China, na Espanha e na Grã-Bretanha, mas também teve três provas sem marcar pontos: Canadá, Mônaco e Bélgica. Em duas delas, estava em posição de brigar pelo pódio ou pela vitória antes de abandonar ou despencar na classificação.
Russell perdeu uma vitória praticamente certa no Canadá
O maior desperdício de pontos de Russell aconteceu provavelmente no GP do Canadá. A Mercedes tinha um dos carros mais fortes do fim de semana, e o britânico chegou a liderar a corrida em meio a uma intensa disputa com Antonelli. Os dois companheiros chegaram a trocar posições e até tiveram um toque de rodas na chicane final. Russell, porém, seguia na luta pela vitória quando um problema na unidade de potência encerrou sua corrida na volta 30. Antonelli acabou vencendo, com Lewis Hamilton em segundo e Max Verstappen em terceiro.
O tamanho da oportunidade perdida fica evidente quando o próprio Russell relembrou o episódio algumas semanas depois. Segundo ele, estava liderando quando “o carro quebrou”. A possibilidade mais óbvia seria uma vitória, que renderia 25 pontos, mas mesmo um segundo lugar significaria 18. Na prática, Russell terminou com zero.
Foi um dos momentos que mais alteraram a disputa interna da Mercedes. Antonelli ganhou a corrida e aumentou sua vantagem no campeonato, enquanto Russell saiu de Montreal sem nenhum ponto em uma prova na qual tinha ritmo para disputar a vitória.
Em Mônaco, uma punição transformou pódio em zero
Se o abandono no Canadá pode ser colocado principalmente na conta da confiabilidade, Mônaco representa um caso diferente. Russell estava no caminho para terminar entre os três primeiros quando uma sequência de problemas com penalidades destruiu sua corrida. O britânico recebeu uma punição de cinco segundos por excesso de velocidade no pit lane. O problema se agravou quando a Mercedes não cumpriu corretamente a penalidade durante a parada seguinte. Como consequência, Russell recebeu um drive-through e despencou para fora da zona de pontuação.
O resultado oficial foi um 12º lugar e, novamente, zero pontos. Antes da punição, porém, Russell tinha condições de terminar em terceiro. Ele próprio resumiu a dimensão do prejuízo ao afirmar que poderia ter terminado no pódio. Um terceiro lugar teria significado 15 pontos. Somados aos 25 que poderiam ter vindo de uma vitória no Canadá, já seriam 40 pontos em duas corridas que Russell perdeu em circunstâncias bastante diferentes das de um simples desempenho ruim.
O episódio de Mônaco também é importante porque não foi apenas uma questão de pilotagem. Russell afirmou que houve um problema de software relacionado ao limitador de velocidade, enquanto a equipe também falhou na execução da punição durante o pit stop. A Mercedes chegou a pedir uma revisão do resultado, mas desistiu posteriormente.
Bélgica e Hungria aumentaram a conta
A situação ficou ainda pior nas corridas seguintes. Em Spa-Francorchamps, Russell largou em uma posição competitiva e terminou o sábado em quarto, sendo promovido para terceiro no grid após uma punição a Lando Norris. A Mercedes, no entanto, enfrentava problemas de velocidade de reta, e Russell perdeu terreno logo no início. O britânico acabou se envolvendo em um toque com Lewis Hamilton e foi parar na caixa de brita ainda na primeira volta. Resultado: abandono e novamente zero pontos.
É impossível atribuir um número exato de pontos desperdiçados em Spa, porque não há como saber com certeza onde Russell teria terminado. O próprio piloto, porém, deixou claro que, em condições normais, não deveria estar lutando com Hamilton naquele momento, mas sim com Antonelli e Max Verstappen.
Na Hungria, outro problema técnico apareceu logo na largada. Russell teve dificuldades com a unidade de potência e caiu para o fundo do pelotão. Conseguiu se recuperar e terminou em sétimo, marcando seis pontos, mas perdeu uma oportunidade de somar muito mais em uma Mercedes que colocou Antonelli no pódio. Com isso, Russell chegou à pausa de verão tendo acumulado três corridas sem pontuar e uma série de problemas que ajudaram a abrir a diferença para Antonelli.
Mas Russell realmente foi quem mais desperdiçou?
O caso dele é especialmente impressionante porque os principais prejuízos vieram justamente em momentos nos quais a Mercedes tinha um carro capaz de vencer. Canadá e Mônaco, sozinhos, representam potencialmente dezenas de pontos perdidos. Na Bélgica, também havia uma expectativa de resultado forte antes do abandono.
Oscar Piastri é outro nome que merece atenção. O australiano chega à pausa em sétimo, com 92 pontos, depois de uma primeira metade bastante abaixo do esperado para um piloto que terminou 2025 como um dos protagonistas da disputa pelo título. Na Hungria, Piastri chegou a disputar a liderança com Norris, mas uma colisão com Carlos Sainz e, posteriormente, uma falha no câmbio encerraram uma corrida que poderia ter terminado no pódio.
Lewis Hamilton também tem motivos para olhar para trás e imaginar uma pontuação maior. O piloto da Ferrari passou por uma sequência de resultados abaixo do esperado depois do pódio na China e admitiu dificuldades para transformar seu trabalho no simulador em desempenho na pista. Na Hungria, uma punição por impedir Piastri no qualifying o fez largar em quinto, e outra penalidade durante a corrida contribuiu para que terminasse apenas em quinto.
Ainda assim, Russell se destaca pelo volume e pelo impacto dos acontecimentos. Ele não apenas perdeu pontos em uma ou duas corridas: deixou escapar oportunidades importantes em Canadá, Mônaco e Bélgica e ainda enfrentou problemas na Hungria.
O contraste com Antonelli ajuda a explicar por que a diferença entre os dois chegou a 59 pontos. O italiano terminou a primeira metade com 219 pontos, seis vitórias e nove pódios em 11 corridas, enquanto Russell tem duas vitórias e cinco segundos lugares.
Portanto, se a pergunta for “quem poderia estar muito mais perto da liderança caso tudo tivesse acontecido de maneira diferente?”, Russell provavelmente é a resposta mais forte. O britânico não necessariamente perdeu todos esses pontos por erros próprios e essa é justamente a parte mais interessante da história. Entre falhas mecânicas, decisões da Mercedes, punições e um acidente em Spa, uma quantidade significativa de pontos escapou de suas mãos.
A segunda metade da temporada, portanto, não será apenas uma tentativa de Russell de alcançar Antonelli. Será também uma oportunidade de descobrir quanto da diferença atual entre os dois é resultado de desempenho e quanto foi construído por uma sequência de azares e oportunidades desperdiçadas.
Foto: (Reprodução/ Grande Prêmio)



