A Fórmula 1 pode estar diante de um cenário bastante diferente para o encerramento da temporada 2026. Caso a situação no Oriente Médio impeça a realização dos GPs do Catar e de Abu Dhabi, o campeonato poderá terminar em solo europeu, algo que transformaria completamente o planejamento das últimas etapas do ano.
A possibilidade ganhou força depois que Stefano Domenicali, CEO da Fórmula 1, confirmou que a categoria já trabalha com alternativas para o caso de as duas provas finais não poderem acontecer. A decisão definitiva deve ser tomada até meados de setembro, enquanto circuitos europeus aparecem como os principais candidatos para assumir o espaço.
O problema é que substituir duas corridas no Oriente Médio por uma etapa europeia no fim de novembro ou em dezembro não é tão simples quanto escolher um circuito e montar o evento. Para Guenther Steiner, ex-chefe da Haas, existe um obstáculo particularmente difícil de contornar: o clima.
O risco de correr no fim do ano na Europa
Steiner acredita que realizar uma corrida na Europa entre novembro e dezembro seria uma aposta arriscada justamente pelas condições meteorológicas. Diferentemente de boa parte do calendário europeu, que normalmente acontece entre a primavera e o verão, uma eventual etapa final seria disputada em um período muito mais frio e instável. “Na Europa, em novembro ou dezembro, não faz sentido correr. O risco do clima é muito alto”, avaliou Steiner.
A preocupação não é apenas com chuva. Temperaturas baixas, pista molhada, neblina e até condições extremas podem afetar tanto o espetáculo quanto a operação de uma categoria que utiliza carros extremamente sensíveis às condições da pista. O calendário original previa que o GP do Catar acontecesse entre 27 e 29 de novembro, enquanto Abu Dhabi encerraria o campeonato de 4 a 6 de dezembro. Ou seja: se essas provas forem canceladas, a F1 precisará encontrar uma alternativa praticamente no inverno europeu.
Imola aparece como opção, mas não está livre de problemas
Entre os nomes considerados, Imola ganhou destaque. O circuito italiano é uma das alternativas mais conhecidas para receber a etapa final, especialmente por sua estrutura e por já fazer parte da história recente da Fórmula 1. O problema é justamente o período do ano.
Imola pode ser perfeitamente capaz de receber um Grande Prêmio em condições normais, mas uma corrida no fim de novembro ou no início de dezembro seria uma realidade completamente diferente. O frio e a possibilidade de chuva mudariam o comportamento dos pneus, a preparação dos carros e até a estratégia das equipes.
Além disso, uma prova em um circuito europeu no fim do ano exigiria uma preparação específica da Pirelli e das equipes. O asfalto frio pode dificultar o aquecimento dos pneus, enquanto uma pista molhada acrescentaria ainda mais imprevisibilidade.
Isso não significa que uma corrida nessas condições seria necessariamente ruim. Pelo contrário: uma etapa de inverno poderia produzir um espetáculo bastante diferente, principalmente se o campeonato chegasse às últimas voltas ainda indefinido. Mas, para a F1, existe uma diferença importante entre uma corrida imprevisível e uma corrida cuja realização depende demais do clima.
O calendário já mostrou que a Fórmula 1 sabe improvisar
A temporada 2026 já foi marcada pela necessidade de adaptação. Os GPs do Bahrein e da Arábia Saudita foram afetados pela instabilidade no Oriente Médio, e a Fórmula 1 encontrou uma solução para manter o campeonato em movimento. O GP do Bahrein foi transferido para o circuito de Sepang, na Malásia, entre 2 e 4 de outubro. A mudança foi oficialmente confirmada pela F1 e pela FIA como uma maneira de preservar um calendário amplo diante das circunstâncias.
A escolha mostra que a categoria está disposta a pensar fora do padrão para evitar simplesmente cancelar corridas. A questão agora é encontrar uma solução igualmente eficiente para o encerramento do campeonato. E Steiner vê um problema adicional: não basta encontrar um circuito que tenha espaço no calendário. A prova também precisa fazer sentido financeiramente para as equipes. “Você precisa ir para algum lugar que faça sentido para as equipes, onde elas não estejam apenas perdendo dinheiro. Também precisa haver receita. É um negócio”, afirmou.
Esse ponto é especialmente importante porque organizar um Grande Prêmio exige muito mais do que liberar um autódromo. Existe transporte de equipamentos, montagem de estruturas, segurança, hospedagem, logística e uma série de compromissos comerciais que precisam ser resolvidos em pouco tempo.
Fórmula 1 quer manter pelo menos 22 corridas
A situação fica ainda mais complicada porque Domenicali gostaria de manter um campeonato com pelo menos 22 etapas. Com a entrada de Sepang no lugar do Bahrein, a F1 conseguiu preservar boa parte do calendário planejado, mas ainda precisa encontrar uma solução caso Catar e Abu Dhabi sejam retirados. Para Steiner, entretanto, encontrar uma 22ª corrida no fim do ano não será tarefa fácil. “Eu acho que será difícil encontrar um 22º lugar para ir no final do ano”, comentou.
A declaração resume o dilema da Fórmula 1: a categoria quer manter um campeonato extenso, mas não pode simplesmente colocar qualquer circuito no calendário para atingir um determinado número de provas. Uma alternativa europeia precisaria reunir estrutura, capacidade logística, condições de segurança, viabilidade financeira e, principalmente, um clima minimamente aceitável para uma corrida de Fórmula 1.
E o problema não termina em 2026. Domenicali já afirmou que a categoria trabalha com planos de contingência para 2027 caso a situação no Oriente Médio continue impedindo a realização das provas na região. Mesmo assim, a intenção continua sendo manter um calendário de 24 etapas.
Um final europeu pode ser histórico mas também arriscado
Se Qatar e Abu Dhabi realmente forem retirados, a temporada 2026 poderá terminar de uma maneira que poucos imaginariam no início do ano: com uma corrida europeia disputada em pleno fim de outono ou começo de inverno. Para os fãs, a ideia pode parecer atraente. Um circuito tradicional, clima instável e uma possível disputa pelo título adicionariam um elemento diferente ao campeonato. Para as equipes, porém, a realidade é bem mais complexa.
A F1 terá de equilibrar espetáculo e segurança, tradição e logística, além de garantir que a escolha seja financeiramente sustentável. Imola é uma possibilidade, mas não está sozinha, e a categoria ainda tem algumas semanas para avaliar o cenário.
Por enquanto, a prioridade continua sendo descobrir se Catar e Abu Dhabi poderão ser realizados normalmente. Caso contrário, a Europa terá a missão de fechar a temporada e o maior adversário da Fórmula 1 poderá não ser outra equipe, mas o próprio inverno europeu.
Foto: (Reprodução/ Fórmula 1)



