Futebol Brasileirão

Para sair da crise, Fluminense deve questionar se alguns jogadores merecem a titularidade

O empate por 1 a 1 com o Botafogo, no Nilton Santos, pelo Brasileirão, não resolveu a crise que tomou conta do Fluminense após a eliminação na Copa do Brasil, mas trouxe uma informação que pode ser importante para o restante da temporada: mesmo com uma equipe formada majoritariamente por reservas, o Tricolor conseguiu competir, recuperar intensidade e, em determinados momentos, controlar o clássico fora de casa.

A escolha de preservar os titulares foi motivada pelo confronto com o Independiente Rivadavia, pelas oitavas de final da Libertadores. Apenas Fábio e Ignácio permaneceram na equipe considerada principal, este último por falta de alternativas no setor defensivo. Em circunstâncias normais, seria natural imaginar um Fluminense mais frágil diante de um Botafogo que utilizou boa parte de seus principais jogadores.

Aconteceu justamente o contrário. O resultado não deve ser interpretado como uma prova de que os reservas são melhores do que os titulares. Mas também seria um erro ignorar aquilo que a partida mostrou. Em um momento no qual o time de Luis Zubeldía precisa encontrar respostas rapidamente, alguns jogadores que tiveram oportunidade no clássico podem ter apresentado argumentos suficientes para ganhar mais espaço.

A intensidade que o Fluminense perdeu em momentos decisivos

O primeiro tempo foi equilibrado e pouco inspirado dos dois lados. O Botafogo teve mais iniciativa com a bola, mas não conseguiu transformar sua posse em domínio territorial ou em uma sequência consistente de oportunidades. O gol de Alex Telles, em uma cobrança de falta praticamente perfeita, colocou os donos da casa em vantagem sem que o Fluminense tivesse sido amplamente inferior.

A diferença apareceu principalmente depois do intervalo. O Fluminense voltou mais agressivo, pressionou a saída adversária, empurrou o Botafogo para trás e passou a controlar as ações. O empate de Ignácio foi consequência desse comportamento. Mais do que o gol, porém, chamou atenção a capacidade da equipe de manter o rival desconfortável.

Serna ainda teve duas oportunidades claras para virar a partida. E é justamente aí que surge a principal reflexão para Zubeldía. Se uma equipe formada majoritariamente por reservas conseguiu apresentar intensidade, competitividade e capacidade de pressionar o adversário, por que alguns desses jogadores não poderiam receber mais minutos entre os titulares?

A pergunta não é necessariamente sobre substituir jogadores importantes do elenco. É sobre estabelecer uma competição interna mais forte.

Alguns titulares perderam o direito à vaga cativa?

O futebol brasileiro costuma tratar escalações como estruturas quase permanentes. Quando determinado jogador conquista a confiança do treinador, passa a ser titular independentemente do momento. Em uma temporada longa, isso pode ser perigoso.

No Fluminense, a crise recente talvez exija justamente o contrário. A eliminação na Copa do Brasil expôs problemas que já vinham aparecendo anteriormente. A equipe passou a demonstrar dificuldade para manter intensidade durante os 90 minutos, perdeu capacidade de pressionar os adversários e, em alguns momentos, pareceu dependente demais de jogadores específicos para criar alguma coisa diferente.

O clássico mostrou que existe gente no elenco disposta a mudar esse cenário. Ignácio é um exemplo evidente. Sem a possibilidade de contar com todas as opções do setor defensivo, o zagueiro aproveitou a oportunidade para marcar o gol do empate e entregar uma atuação segura. Mais importante do que o gol, entretanto, foi a postura de um jogador que recebeu uma oportunidade em um contexto complicado e respondeu positivamente.

Serna também deixou uma mensagem, ainda que tenha pecado na finalização. O colombiano apareceu em posições perigosas e teve duas chances para colocar o Fluminense em vantagem. A falta de eficiência é um problema a ser corrigido, mas estar constantemente chegando ao último terço também é uma qualidade que o time precisa.

O mesmo raciocínio pode ser aplicado a outros jogadores que, até aqui, não conseguiram consolidar espaço. A concorrência precisa existir não apenas no discurso.

No entanto, o Fluminense parecia controlar o jogo no começo do segundo tempo justamente quando as substituições começaram a modificar a equipe. É importante não transformar isso em uma crítica automática a Zubeldía. O treinador tinha uma estratégia definida: preservar os principais jogadores para a Libertadores. Além disso, alterações fazem parte do jogo e não é possível afirmar que os titulares entraram e, sozinhos, foram responsáveis pela perda de intensidade.

Mas o contraste chama atenção. O time reserva entrou em campo sem a obrigação de provar que era melhor do que ninguém. Eram jogadores que precisavam aproveitar uma oportunidade. Havia, portanto, uma espécie de urgência individual que acabou se transformando em energia coletiva.

Essa pode ser uma das armas do Fluminense para sair da crise. Zubeldía precisa recuperar não apenas a confiança dos seus principais jogadores, mas também a sensação de que ninguém tem lugar garantido. Um elenco competitivo não é aquele que possui 11 titulares definidos. É aquele em que o jogador que começa no banco sabe que uma boa sequência pode levá-lo à equipe principal.

Isso aumenta a intensidade dos treinamentos, eleva o nível de competição interna e, principalmente, permite que o treinador encontre soluções diferentes quando o plano A deixa de funcionar.

A Libertadores pode mudar tudo

O momento não permite grandes experiências. O Fluminense tem pela frente uma decisão continental contra o Independiente Rivadavia e precisa apresentar uma resposta imediata depois da eliminação na Copa do Brasil.

Por isso, seria exagerado defender uma revolução na escalação. O que Zubeldía precisa fazer é observar cuidadosamente os sinais dados pelo clássico. O empate não foi suficiente para esconder os problemas do Fluminense, mas mostrou que existe material humano para tentar modificar o cenário.

A grande questão é descobrir quem realmente está disposto a assumir essa responsabilidade. O Fluminense não precisa necessariamente abandonar seus jogadores mais experientes ou aqueles que construíram crédito ao longo da temporada. Precisa, porém, abandonar a ideia de que o passado garante a titularidade no presente.

Se um reserva demonstra mais intensidade, mais disposição para pressionar, mais agressividade nas disputas ou simplesmente mais fome de jogo, isso precisa ser levado em consideração.

A crise pode ser, nesse sentido, uma oportunidade para Zubeldía reconstruir a equipe a partir da meritocracia. O clássico contra o Botafogo não entregou uma solução pronta. Entregou algo talvez mais importante: uma dúvida que o treinador precisa ter coragem de enfrentar: quem realmente merece ser titular do Fluminense neste momento?

A resposta pode definir o restante da temporada.

(Foto: Alexandre Durão)