Flamengo x Cruzeiro
Futebol Libertadores

Cruzeiro expõe grandes fragilidades no meio-campo contra o Flamengo; falta de Lucas Romero explica tudo?

O Cruzeiro encontrou no Flamengo um adversário capaz de expor uma fragilidade importante de seu meio-campo, mas reduzir o problema à ausência de Lucas Romero seria fácil demais. O argentino cumpriu suspensão ao lado de Fagner e ficou fora do empate por 1 a 1 no Mineirão, enquanto Artur Jorge precisou reorganizar o setor para enfrentar uma equipe que preparou um encaixe bastante específico para limitar as principais armas celestes.

O resultado deixou a disputa das oitavas de final da Libertadores completamente aberta para o Maracanã. O Cruzeiro saiu na frente com Arroyo, mas o Flamengo respondeu com Lucas Paquetá e buscou um empate que, diante do que aconteceu em campo, manteve o confronto vivo para a volta.

Só que, para além do placar, o duelo apresentou uma discussão interessante sobre o funcionamento do time de Artur Jorge. O Cruzeiro tentou pressionar alto, característica importante de seu jogo, mas o Flamengo encontrou maneiras de proteger seus volantes, fechar Matheus Pereira e ainda criar dúvidas na última linha celeste.

Por isso, a pergunta que fica não é simplesmente se Lucas Romero fez falta. Fez. A questão é quanto da dificuldade do Cruzeiro veio da ausência do argentino e quanto foi mérito do plano montado por Leonardo Jardim.

Flamengo escolheu não entrar em uma guerra de pressão

Leonardo Jardim não precisava transformar o jogo em uma corrida de 90 minutos. Contra um Cruzeiro agressivo na pressão, o Flamengo optou por trabalhar em um bloco médio e utilizar seus homens mais avançados para controlar os espaços centrais.

A ideia era bastante clara: Pedro e Arrascaeta poderiam subir para pressionar em determinados momentos, mas o comportamento principal passava por manter Lino, Plata, Bruno Henrique e Arrascaeta próximos o suficiente para dificultar a circulação do Cruzeiro pelo meio.

Isso permitia que Pulgar e Jorginho permanecessem mais protegidos.

Em vez de obrigar os dois volantes a saltarem constantemente para pressionar, o Flamengo utilizava os jogadores mais adiantados como uma primeira barreira. O objetivo não era necessariamente recuperar a bola imediatamente. Era, antes de tudo, impedir que o Cruzeiro encontrasse seus melhores jogadores entre as linhas.

E aí aparece Matheus Pereira.

O camisa 10 é uma peça fundamental para fazer o Cruzeiro respirar no ataque. Quando consegue receber entre o meio-campo e a defesa adversária, tem capacidade para acelerar, encontrar passes verticais e colocar os companheiros em condições de atacar a última linha.

O Flamengo tentou justamente tirar esse espaço. Se Matheus Pereira não recebe, o Cruzeiro precisa procurar outro caminho. E, contra uma equipe com a qualidade individual do Flamengo, fazer o adversário jogar por onde você quer já representa uma boa parte do trabalho.

Escolha por Bruno Henrique mudou o problema

Outro detalhe importante foi a presença de Bruno Henrique no setor ofensivo do Flamengo.

A opção dava ao time de Leonardo Jardim uma característica diferente. Em vez de ter apenas uma referência capaz de participar da construção e prender os zagueiros, o Flamengo contava com um jogador muito mais ameaçador atacando a profundidade.

Isso criava um dilema para a defesa do Cruzeiro.

Se um zagueiro abandonasse a linha para acompanhar Arrascaeta quando o uruguaio flutuasse para o meio, Lino, Plata e Bruno Henrique poderiam receber no mano a mano com espaço para atacar. Se os zagueiros permanecessem preocupados com os atacantes, Arrascaeta poderia circular com liberdade entre as linhas.

É o tipo de situação em que o defensor parece estar sempre escolhendo qual problema prefere enfrentar. E nenhum deles é particularmente agradável.

O Flamengo, portanto, não precisava colocar cinco ou seis jogadores atrás da bola para proteger o centro. A própria movimentação dos homens de frente já criava uma espécie de congestionamento, ao mesmo tempo em que mantinha a ameaça de velocidade pelos lados e nas costas da defesa.

Artur Jorge teve de lidar com um meio-campo sem Romero

Do lado do Cruzeiro, Artur Jorge precisou encontrar uma solução para a ausência de Lucas Romero. O argentino era desfalque por suspensão e sua ausência já estava prevista antes da partida. Matheus Henrique ocupou a vaga no meio-campo.

Romero é importante justamente por aquilo que muitas vezes não aparece nos melhores momentos: cobertura, leitura, posicionamento e capacidade de apagar incêndios antes que eles realmente virem incêndios.

Quando um time enfrenta um adversário que movimenta Arrascaeta entre as linhas e ainda mantém jogadores abertos, esse tipo de jogador faz diferença. Mas seria injusto dizer que o Cruzeiro jogaria automaticamente melhor apenas com Romero.

O problema foi coletivo. O Flamengo criou situações que exigiam do meio-campo celeste decisões rápidas e, em alguns momentos, o Cruzeiro não conseguiu controlar a região central como gostaria. A pressão alta funcionava em determinados momentos, mas também deixava espaços que o adversário poderia atacar caso conseguisse escapar da primeira linha.

É aí que a ausência de Romero pesa, mas não explica tudo.

Pressão alta do Cruzeiro também abriu caminhos

O Cruzeiro tentou incomodar o Flamengo desde a saída de bola. Artur Jorge não abriu mão da agressividade, mas isso criou um efeito colateral: quanto mais jogadores avançavam para pressionar, maior era a responsabilidade daqueles que permaneciam atrás para controlar os espaços.

O Flamengo tinha peças para explorar exatamente esse cenário.

Na saída de bola, Lino, Plata e Bruno Henrique podiam ocupar a última linha e manter os defensores do Cruzeiro presos. Enquanto isso, Arrascaeta circulava pelo entrelinhas, procurando o espaço deixado pela movimentação adversária.

Se o zagueiro decidisse acompanhar o uruguaio, abria-se espaço para os atacantes. Se não acompanhasse, Arrascaeta poderia receber.

O Flamengo criou, dessa forma, uma dúvida permanente na estrutura celeste. Não era apenas uma questão de quem estava marcando quem, mas de quando cada jogador deveria saltar para pressionar.

Esse tipo de detalhe é fundamental em jogos desse nível. Uma equipe pode ter onze jogadores bem posicionados no papel e, ainda assim, ficar completamente desmontada se os movimentos acontecerem um segundo depois do necessário.

Cruzeiro também tinha uma arma: atacar depois da recuperação

O plano do Flamengo, porém, não era perfeito. O bloco médio tinha uma segunda função: induzir o Cruzeiro a circular a bola entre os zagueiros e tentar forçar passes que pudessem ser interceptados.

Quando recuperava a posse, o Flamengo tinha velocidade suficiente para transformar o lance em uma transição perigosa.

Lino, Plata e Bruno Henrique eram as principais opções para isso. A lógica era simples: congestionar o centro, tirar Matheus Pereira do jogo, esperar o Cruzeiro encontrar poucas alternativas por dentro e, quando a bola fosse recuperada, acelerar pelos espaços.

Esse comportamento também explica por que o Flamengo não precisava necessariamente dominar a posse durante todos os minutos. O controle poderia acontecer sem a bola, desde que o time conseguisse definir onde o Cruzeiro teria permissão para jogar.

Foi uma das partes mais interessantes do duelo.

E os laterais entraram na equação

Quando o Flamengo conseguia fixar os jogadores da defesa celeste mais por dentro, os corredores apareciam como alternativa.

Royal e Ayrton Lucas tinham espaço para avançar quando os jogadores ofensivos puxavam a marcação para outras zonas. A movimentação de Plata, Lino e Bruno Henrique ajudava a abrir esses corredores e fazia com que o Cruzeiro tivesse de defender uma área maior do campo.

Arrascaeta, por sua vez, funcionava como uma peça de ligação. O uruguaio não precisava ficar parado em uma posição específica. Quanto mais circulava, maior era a dificuldade do Cruzeiro para definir quem deveria acompanhá-lo.

Esse é um dos motivos pelos quais simplesmente colocar outro volante em campo nem sempre resolve uma situação desse tipo. Se o problema é a referência de marcação e a ocupação dos espaços, não adianta apenas aumentar o número de jogadores no setor.

É preciso melhorar o comportamento.

Romero faz falta, mas não pode virar álibi

É justamente por isso que Lucas Romero não pode ser transformado no bode expiatório do empate.

Sua ausência certamente diminuiu a capacidade do Cruzeiro de proteger determinadas zonas do campo. O argentino é um jogador acostumado a esse tipo de batalha e poderia oferecer ao time de Artur Jorge uma leitura diferente dos espaços.

Mas o Flamengo também fez sua parte.

Leonardo Jardim preparou uma estrutura para limitar Matheus Pereira, proteger Pulgar e Jorginho e, ao mesmo tempo, criar dúvidas na defesa celeste. O Cruzeiro, por sua vez, precisará encontrar respostas para isso no Maracanã. E existe uma boa notícia para Artur Jorge: o retorno de Romero pode ser justamente uma dessas respostas.

Com o argentino novamente disponível, o Cruzeiro terá mais uma ferramenta para equilibrar o meio-campo e proteger a equipe quando subir suas linhas. Mas isso precisará vir acompanhado de ajustes no encaixe da pressão e na maneira como Matheus Pereira será liberado para participar do jogo.

Afinal, não adianta ter Romero de volta se o Flamengo continuar encontrando o mesmo espaço entre as linhas.

O empate por 1 a 1 deixou tudo para a volta, e o cenário agora muda completamente. O Flamengo terá o Maracanã, mas o Cruzeiro chega sabendo que conseguiu sobreviver a um jogo em que seu meio-campo foi colocado à prova.

Para Artur Jorge, a missão será transformar essa experiência em aprendizado. E, se Lucas Romero realmente for a peça que faltou, o próximo jogo será a oportunidade perfeita para descobrir. Se não for, o treinador português terá de encontrar outra resposta, porque Leonardo Jardim certamente não vai facilitar a vida do Cruzeiro só porque o calendário virou a página.

Foto: Adriano Fontes/Flamengo