Futebol Brasileirão

Nove jogos sem vencer: chegou a hora de o São Paulo fazer uma mudança no comando técnico?

O empate por 1 a 1 com o Coritiba, no Morumbis, não foi apenas mais um resultado ruim para o São Paulo. Foi a confirmação de que a equipe entrou em um estágio de desgaste esportivo que começa a colocar em dúvida o trabalho de Dorival Júnior. São nove partidas sem vitória no Brasileirão, com quatro empates e cinco derrotas, e o problema deixou de ser exclusivamente a falta de resultados: o time também apresenta cada vez menos argumentos para justificar uma reação.

O São Paulo até começou a partida com controle territorial e posse de bola, mas novamente encontrou enorme dificuldade para transformar esse domínio em oportunidades. O problema se repete jogo após jogo. A equipe troca passes, ocupa o campo ofensivo e faz seus laterais participarem, mas não encontra soluções quando o adversário fecha os espaços. Contra o Coritiba, o cenário foi ainda mais preocupante porque o Tricolor precisava desesperadamente da vitória, jogava em casa e enfrentava um adversário que aceitou passar longos períodos sem a bola.

O São Paulo não consegue transformar posse em criação 

A principal questão talvez esteja na maneira como o time ocupa o meio-campo. Dorival utilizou três volantes e novamente recorreu a Luciano em uma função mais próxima da criação. O problema é que o atacante não possui as características ideais para organizar o jogo. Luciano é muito mais perigoso quando está próximo da área, atacando espaços, finalizando e aproveitando sobras, do que quando precisa receber de costas, girar e construir ataques.

A consequência é previsível: o São Paulo fica dependente das ações pelos lados. Lucas Ramon e Wendell tiveram liberdade para avançar, mas os cruzamentos raramente encontraram jogadores em condições favoráveis. O time chegou muitas vezes ao último terço, mas quase nunca conseguiu transformar presença em perigo.

Até o gol nasceu de uma solução individual. Pablo Maia, que não fazia uma boa partida, apareceu na entrada da área, recebeu de Victor Sá, escapou da marcação e acertou uma bela finalização. Foi um lance de qualidade isolada em uma equipe que precisava justamente do contrário: mecanismos coletivos para criar oportunidades.

Se o primeiro tempo mostrou um time previsível, a etapa final apresentou algo mais grave: desorganização. O São Paulo voltou do intervalo sem a mesma capacidade de controlar o jogo e passou a atuar sob a pressão do próprio resultado. O empate do Coritiba foi consequência de uma sequência que já indicava a fragilidade tricolor: cruzamento para a segunda trave, desatenção defensiva e uma falha de Rafael, que até então era uma das principais referências de segurança da equipe.

Depois disso, o São Paulo não conseguiu reagir de maneira organizada. Dorival tentou alterar o cenário com as entradas de Ferreirinha e Artur, buscando abrir o campo e criar situações de um contra um. A estratégia, porém, não funcionou. Os dois pontas tiveram dificuldades para produzir e o time terminou apelando para cruzamentos sucessivos, quase sempre sem encontrar um companheiro em condições de finalizar.

É justamente nesse momento que a responsabilidade do treinador aumenta.

Cinco meses de trabalho já deveriam produzir mais

Não se trata de cobrar um futebol perfeito. Todo treinador precisa de tempo para implementar ideias, especialmente em um calendário que exige partidas em sequência.

Mas o São Paulo já não está no início de um projeto. São cinco meses de trabalho, e houve inclusive uma pausa provocada pela Copa do Mundo que ofereceu uma oportunidade rara de treinamento e correção de problemas sem a necessidade de preparar o time para uma partida imediatamente.

Ainda assim, os mesmos defeitos continuam aparecendo. O time tem dificuldade para atacar defesas baixas, depende excessivamente dos lados do campo, encontra problemas para criar pelo centro e, quando sofre um gol, parece perder completamente a capacidade de executar aquilo que havia planejado. Isso torna inevitável a pergunta sobre o comando.

Uma troca de treinador não deveria acontecer simplesmente porque uma equipe atravessa uma sequência negativa. O futebol é cheio de momentos ruins, e nove jogos sem vencer podem ser revertidos com duas ou três boas atuações. O problema do São Paulo é que a sequência negativa veio acompanhada de uma deterioração do desempenho.

O empate contra o Coritiba é sintomático. O São Paulo precisava vencer, jogava diante da própria torcida e tinha um elenco tecnicamente superior. Mesmo assim, terminou a partida praticamente sem conseguir construir uma pressão consistente.

A equipe parecia mais preocupada em não perder do que convencida de que conseguiria vencer. E quando um time chega a esse estágio, a discussão sobre o treinador deixa de ser emocional e passa a ser estrutural.

Dorival ainda tem respostas?

Essa talvez seja a pergunta central para a diretoria. Dorival precisa encontrar soluções para problemas que já não são novos. Precisa definir qual é a melhor estrutura para o meio-campo, tirar Luciano de uma função que limita suas principais qualidades e encontrar maneiras mais eficientes de aproximar os atacantes da área.

Também precisa recuperar jogadores que perderam confiança e, principalmente, devolver ao São Paulo uma identidade. Porque o maior problema neste momento não é apenas estar longe da parte de cima da tabela. É não enxergar claramente como o time pretende chegar lá.

O Tricolor não precisa necessariamente trocar de treinador amanhã. Mas precisa, no mínimo, fazer uma avaliação profunda sobre o trabalho de Dorival Júnior. Se a diretoria concluir que o treinador ainda possui soluções capazes de transformar a equipe, será necessário cobrar uma reação imediata.

Caso contrário, insistir apenas porque já foram investidos cinco meses de trabalho pode significar desperdiçar ainda mais tempo. Nove jogos sem vencer não obrigam o São Paulo a mudar de treinador. Mas a ausência de evolução, sim, deveria fazer o clube começar a questionar se Dorival ainda é o homem certo para comandar essa reconstrução.

(Foto: Jota Erre/AGIF)