Futebol Brasileirão

Por que Memphis Depay no Flamengo seria uma receita para o desastre?

A possibilidade de Memphis Depay continuar no futebol brasileiro depois do fim de seu contrato com o Corinthians ganhou força nos últimos dias, mas isso não significa que qualquer grande clube deveria correr para contratá-lo. O holandês recebeu sondagens de equipes do México, da Turquia e do Oriente Médio e também não descarta permanecer no Brasil. Até o momento, porém, não há proposta concreta de outro clube brasileiro, e rumores envolvendo Cruzeiro e Vasco já foram negados pelas próprias equipes.

O nome de Memphis naturalmente chama atenção. Trata-se de um jogador de enorme repercussão internacional, com passagem por PSV, Manchester United, Lyon, Barcelona e Atlético de Madrid, além de uma carreira importante pela seleção holandesa. No Corinthians, terminou sua passagem com 77 jogos, 20 gols e 15 assistências, além de três títulos.

Mas justamente por isso é necessário separar o tamanho do nome do tamanho da necessidade. E, no caso do Flamengo, o problema estaria aí.

O Flamengo não precisa de outro jogador para ser protagonista

O principal argumento contra a contratação de Memphis pelo Flamengo não está na qualidade do atacante. Está no contexto.

O Flamengo já possui uma estrutura ofensiva montada em torno de jogadores capazes de assumir protagonismo, criar jogadas e decidir partidas. A chegada de Memphis exigiria não apenas espaço no elenco, mas também uma adaptação do funcionamento ofensivo para acomodar um atleta que gosta de participar muito do jogo, receber nas entrelinhas e ter liberdade para sair da referência.

Memphis não é simplesmente um centroavante que fica dentro da área esperando cruzamentos. Tampouco é um ponta de velocidade para atacar constantemente a profundidade Seu melhor futebol aparece quando ele tem liberdade para se movimentar, receber, associar-se e participar da criação.

Isso funcionou em diferentes momentos de sua carreira justamente porque havia equipes construídas para potencializar essas características. No Flamengo, porém, a pergunta seria outra: quanto o time precisaria mudar para fazer Memphis funcionar?

E talvez a resposta seja: mais do que deveria.

O problema financeiro é ainda maior

Existe também uma questão que não pode ser ignorada depois do que aconteceu no Corinthians. A novela envolvendo Memphis terminou com uma situação financeira extremamente complicada para o clube paulista. Segundo informações publicadas pelo UOL, a negociação pela renovação durou 148 dias e terminou com uma dívida que chegou a ser estimada em R$ 42 milhões no acordo, podendo alcançar valores muito superiores diante de juros e implicações contratuais.

O caso é um alerta para qualquer clube brasileiro interessado no jogador. Memphis não é uma contratação convencional. Seu salário, luvas, bônus, direitos de imagem e eventuais compromissos comerciais tornam a operação muito maior do que simplesmente colocar um atacante de alto nível em campo.

O Cruzeiro, por exemplo, sequer considerou abrir negociações ao avaliar que um salário na casa de R$ 2,5 milhões mensais estaria fora da realidade financeira do clube. Para o Flamengo, evidentemente, a capacidade financeira é muito maior. Mas isso não significa que qualquer investimento seja automaticamente racional.

O clube precisa perguntar se Memphis seria capaz de entregar em campo um retorno proporcional ao custo da operação, o que não parece ser o caso dada a falta de encaixe tático.

Memphis pode atuar como centroavante, segundo atacante ou partindo de posições mais recuadas. Sua capacidade técnica permite que ele participe da construção e faça o ataque funcionar através da associação.

Mas isso também significa que ele tende a ocupar regiões que outros jogadores do Flamengo já precisam ocupar.Se atuar como nove, Memphis pode deixar a área para participar da construção. Se jogar mais recuado, será necessário encontrar alguém que ataque constantemente a profundidade. Se partir de um dos lados, o Flamengo perderia parte da amplitude e precisaria reorganizar a ocupação dos corredores.

Ou seja: não basta perguntar onde Memphis jogaria. É preciso perguntar quem perderia espaço para que ele jogasse. Esse é o tipo de problema que uma contratação midiática pode esconder.

Um jogador pode ser excelente individualmente e, ao mesmo tempo, não ser a melhor peça para determinado elenco.

A idade também pode ser uma questão a se observar. Memphis completou 32 anos e entra em uma fase da carreira em que o clube interessado precisa avaliar não apenas o rendimento imediato, mas também a capacidade de sustentá-lo durante toda a duração do contrato.

Isso não significa que o holandês esteja acabado — longe disso. Mas significa que uma eventual contratação provavelmente seria feita para entregar impacto imediato. Não existe mais a perspectiva de comprar Memphis pensando em valorização futura ou em um ciclo de cinco anos.

É uma operação de curto prazo. E contratos de curto prazo com salários elevados exigem uma margem de erro muito pequena.

O Flamengo precisa olhar para as fragilidades do elenco

Mais do que pensar no tamanho do nome de Memphis Depay, o Flamengo precisa olhar para as posições nas quais seu elenco apresenta problemas estruturais. E, nesse aspecto, a contratação do holandês parece menos urgente do que outras necessidades que vêm se tornando cada vez mais evidentes.

O principal ponto de atenção está no meio-campo. O Flamengo possui jogadores tecnicamente extraordinários, mas o setor nem sempre consegue combinar qualidade com intensidade. Jorginho, Arrascaeta e Paquetá são capazes de controlar partidas com a bola, encontrar passes decisivos e acelerar a construção, mas nenhum dos três oferece, de forma consistente, a intensidade necessária para pressionar e cobrir grandes espaços sem a bola. Pulgar ajuda nesse equilíbrio, mas sozinho não consegue compensar a falta de dinamismo do restante do setor.

O problema fica ainda mais evidente quando o Flamengo enfrenta adversários que conseguem acelerar as transições. O time pode ter superioridade técnica, mas frequentemente precisa recorrer à qualidade individual para controlar situações que poderiam ser resolvidas com maior capacidade física, pressão coordenada e cobertura dos espaços. Antes de adicionar mais uma estrela ao ataque, portanto, o clube deveria considerar se não precisa de um meio-campista capaz de dar ao setor justamente aquilo que hoje lhe falta: intensidade, mobilidade e capacidade de pressionar.

A lateral esquerda também merece atenção especial. As atuações recentes de Ayrton Lucas aumentaram a sensação de que a posição se transformou em um problema crônico do elenco. O jogador, que já foi uma das principais armas ofensivas da equipe pelo corredor, vem apresentando dificuldades defensivas e queda de rendimento, deixando o Flamengo dependente de soluções que não necessariamente oferecem o mesmo nível de segurança.

É uma situação que tende a se tornar ainda mais problemática conforme a temporada avança. Um time que pretende disputar títulos em várias frentes precisa de laterais capazes de sustentar o ritmo ofensivo sem comprometer a estrutura defensiva. No caso do Flamengo, encontrar uma alternativa confiável para o lado esquerdo parece uma necessidade muito mais concreta do que simplesmente acrescentar outro jogador de enorme peso ao setor ofensivo.

Memphis, evidentemente, seria uma contratação de impacto. Seu talento, sua experiência internacional e sua capacidade de decidir partidas fariam dele uma peça valiosa em qualquer elenco brasileiro. O problema é que o Flamengo não precisa necessariamente de mais talento para resolver seus principais problemas. Precisa de equilíbrio.

Memphis ainda pode funcionar no Brasil, mas talvez não no Flamengo

Isso não significa que o atacante não possa ter uma boa segunda passagem pelo futebol brasileiro.

Pelo contrário. O próprio Memphis não descarta permanecer no país, apesar das sondagens estrangeiras. Segundo informações recentes, ele desenvolveu boas relações no Brasil e demonstra preferência por continuar atuando por aqui.

A questão é encontrar o ambiente adequado. Um clube que tenha uma necessidade clara de um atacante criativo, capaz de jogar como referência móvel e assumir grande volume de participação ofensiva pode extrair muito mais do holandês.

No Flamengo, porém, a exigência seria diferente. Ele teria de entrar em um elenco que já possui soluções individuais, disputar espaço com jogadores importantes e justificar um investimento financeiro elevado. Tudo isso sem garantia de que sua presença melhoraria proporcionalmente o funcionamento coletivo.

E esse é exatamente o cenário em que uma grande contratação pode se transformar em um problema.

A lição do Corinthians deveria pesar

O caso Memphis deveria deixar uma lição para o futebol brasileiro. O Corinthians não necessariamente errou por contratar um jogador do tamanho de Memphis. O erro esteve muito mais relacionado à estrutura financeira e à capacidade de sustentar o compromisso assumido. O episódio da renovação expôs justamente os riscos de transformar uma operação esportiva em uma obrigação financeira que o clube não consegue administrar.

O Flamengo tem condições muito diferentes das do Corinthians. Mas justamente por ser um clube financeiramente mais estruturado, deveria ser ainda mais criterioso.

Contratar Memphis apenas porque ele está disponível seria um erro. Contratá-lo porque ele resolve uma necessidade específica, dentro de um modelo de jogo definido e por valores que façam sentido, seria outra história. Hoje, olhando para o encaixe, o Flamengo parece muito mais próximo do primeiro cenário do que do segundo.

Memphis é um grande jogador. O problema é que o Flamengo não precisa necessariamente de um grande nome, precisa da peça certa. E colocar uma estrela de R$ 2,5 milhões ou mais por mês em um elenco que já possui protagonistas pode ser exatamente o tipo de operação que parece fantástica no anúncio e problemática alguns meses depois.

Por isso, Memphis Depay no Flamengo não seria necessariamente uma contratação ruim. Seria uma contratação de risco alto, e, considerando o elenco e as necessidades do clube, um risco difícil de justificar.

(Foto: Rodrigo Coca/Ag. Corinthians)