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Manchester United gastou £219 milhões em defensores, mas pode voltar à defesa de 2022; entenda

O Manchester United pode começar a temporada 2026/27 da Premier League com uma situação que poucos torcedores imaginariam há quatro anos: a mesma linha defensiva que iniciou a campanha 2022/23. Lisandro Martínez, Harry Maguire, Luke Shaw e Diogo Dalot continuam no elenco e podem ser escolhidos por Michael Carrick para a estreia contra o Hull City, neste sábado.

A coincidência chama ainda mais atenção quando lembramos o tamanho da reformulação feita pelo clube desde então. O Manchester United contratou oito defensores desde o verão de 2022, gastando cerca de £219,7 milhões no processo. Mesmo assim, quatro jogadores que estavam em campo na derrota por 2 a 1 para o Brighton ainda podem formar a defesa titular quatro anos depois.

Naquela ocasião, Erik ten Hag iniciava seu trabalho no clube e colocava Lisandro Martínez, recém-contratado por £56,7 milhões, ao lado de Maguire, Shaw e Dalot. O resultado, obviamente, não foi dos melhores. A derrota para o Brighton foi seguida por outro tropeço, um doloroso 4 a 0 para o Brentford.

Desde então, muita coisa mudou em Old Trafford. Técnicos chegaram e saíram, jogadores foram contratados, outros deixaram o clube e diferentes sistemas foram testados. Curiosamente, a defesa que parecia provisória naquela estreia ainda pode ser uma solução para Carrick quatro anos depois.

Carrick recuperou uma defesa que parecia esquecida

A combinação entre Martínez, Maguire, Shaw e Dalot não foi exatamente uma presença constante desde 2022. Na verdade, os quatro jogadores atuaram juntos apenas dez vezes nos últimos quatro anos. O mais curioso é que seis dessas partidas aconteceram sob o comando de Michael Carrick em 2026.

Quando assumiu o Manchester United, Carrick rapidamente percebeu que aquela formação poderia funcionar. Em seu primeiro jogo, o treinador escalou os quatro diante do Manchester City e viu sua equipe vencer por 2 a 0. A partir dali, voltou a utilizar a mesma defesa em outras cinco ocasiões.

O retrospecto é bastante positivo: foram cinco vitórias e um empate nas seis partidas em que Carrick apostou no quarteto. O problema é que os números defensivos não foram exatamente impecáveis. O Manchester United sofreu três gols em três dessas vitórias, todas terminadas em 3 a 2.

Ou seja, a defesa funcionou, mas não significa que tenha resolvido todos os problemas. E isso pode ser especialmente importante agora que Carrick pretende implementar um estilo de jogo mais agressivo.

Por que os quatro quase nunca jogaram juntos?

A falta de continuidade do quarteto não aconteceu por uma única razão. Lesões, decisões técnicas e mudanças de treinador fizeram com que a combinação raramente tivesse tempo para se estabelecer.

Na temporada 2022/23, Maguire perdeu espaço no início da campanha e também ficou aproximadamente um mês afastado por uma lesão muscular. Martínez e Dalot igualmente enfrentaram problemas físicos naquele período. Com isso, jogadores como Tyrell Malacia, Raphaël Varane e Victor Lindelöf passaram a aparecer regularmente na defesa.

A situação ficou ainda mais complicada nas temporadas seguintes.

Martínez passou boa parte da primeira metade de 2023/24 afastado por uma lesão no pé e, em fevereiro de 2025, sofreu uma grave lesão no joelho. O argentino só retornou aos gramados nove meses depois, em novembro.

Shaw também passou por uma sequência complicada de problemas físicos. Nas temporadas 2023/24 e 2024/25 somadas, o lateral disputou apenas 27 partidas em todas as competições. Para um jogador que pode ser importante justamente na saída de bola e na construção ofensiva, essa ausência constante representou um problema considerável para o Manchester United.

Manchester United gastou milhões, mas ainda depende dos veteranos

O mais curioso é que o clube tentou resolver a questão investindo pesado no setor.

No verão de 2024, Raphaël Varane e Aaron Wan-Bissaka deixaram Old Trafford, enquanto Leny Yoro, Noussair Mazraoui e Matthijs de Ligt chegaram. Em janeiro de 2025, Ayden Heaven e Patrick Dorgu também foram contratados.

Mesmo com tantas mudanças, a defesa nunca encontrou uma combinação realmente estável.

Parte disso pode ser explicada pela troca constante de treinadores e sistemas. Erik ten Hag deixou o cargo em outubro de 2024 e foi substituído por Ruben Amorim. O português permaneceu por cerca de 14 meses e não utilizou nenhuma vez a formação composta por Martínez, Maguire, Shaw e Dalot.

Amorim apostava fortemente no 3-4-3 e resistiu durante bastante tempo à ideia de mudar o sistema. A situação só mudou em dezembro de 2025, quando o treinador utilizou uma linha de quatro pela primeira vez contra o Newcastle. O Manchester United venceu por 1 a 0 e conseguiu uma de suas primeiras partidas sem sofrer gols em um longo período.

Pouco depois, Amorim deixou o clube e Carrick assumiu.

Nova ideia de Carrick pode mudar tudo

Existe, entretanto, uma diferença importante entre o Manchester United de Carrick no início de seu trabalho e o time que vem sendo preparado para 2026/27.

Nos primeiros meses, a equipe adotou uma postura bastante compacta, defendendo mais próxima da própria área. A prioridade era reduzir espaços e dificultar a entrada dos adversários pelo centro. Essa organização serviu de base para algumas vitórias importantes. Durante a pré-temporada, porém, o comportamento mudou.

O Manchester United passou a pressionar mais alto, tentando recuperar a bola rapidamente depois de perdê-la. A equipe também aumentou a intensidade do chamado contra-pressing, buscando impedir que o adversário tivesse tempo para organizar a saída.

É uma mudança interessante, mas que também aumenta os riscos.

Quanto mais alto o bloco defensivo, maior precisa ser a capacidade dos zagueiros e laterais de correr para trás. Um único passe bem executado pode colocar um atacante em condições de explorar o espaço às costas da defesa.

Foi justamente isso que apareceu na pré-temporada contra o Milan. O Manchester United teve problemas para executar a pressão com a precisão necessária e acabou sendo castigado. O quarto gol sofrido, em especial, nasceu de uma bola longa que encontrou espaço atrás de uma linha defensiva muito avançada.

A partida serviu como um lembrete importante para Carrick: se o time quer jogar mais agressivamente, precisará de defensores capazes de lidar com grandes espaços.

Posição que mais preocupa o Manchester United

É nesse contexto que a lateral esquerda ganha atenção especial.

Luke Shaw continua sendo uma opção tecnicamente importante, mas seu histórico recente de lesões faz com que seja difícil imaginar o jogador atuando em todos os jogos de uma temporada que ainda terá o calendário europeu.

Dorgu pode ajudar. O problema é que Carrick tem utilizado o jogador principalmente como ponta pela esquerda durante a preparação. Isso significa que o Manchester United ainda precisa encontrar uma solução definitiva para a posição, especialmente se a equipe realmente pretende manter uma linha defensiva mais alta.

A velocidade de recuperação será fundamental.

Se os laterais subirem e os zagueiros avançarem para manter o bloco compacto, os defensores precisarão ter capacidade para correr grandes distâncias em direção à própria baliza quando a pressão for quebrada. Não basta apenas defender bem dentro da área.

Idade também entra na equação

Outro ponto que merece atenção é a idade do quarteto.

Maguire e Shaw já passaram dos 30 anos, enquanto Martínez tem 28 e Dalot, 27. Nenhum deles está necessariamente fora do auge, mas o Manchester United está pedindo que seus defensores se adaptem novamente a uma maneira diferente de jogar.

Para Maguire, especialmente, jogar com uma linha mais alta exige leitura de espaço e velocidade de recuperação. Shaw também precisará administrar sua carga física, enquanto Martínez e Dalot podem ter papéis importantes na pressão e na construção.

O desafio de Carrick será encontrar o equilíbrio entre experiência e intensidade.

Quatro anos depois, a história pode se repetir

É quase engraçado pensar no caminho percorrido pelo Manchester United desde aquela derrota para o Brighton em agosto de 2022. O clube gastou centenas de milhões de libras em reforços defensivos, trocou treinadores, mudou sistemas e viu diversos jogadores entrarem e saírem do elenco.

Ainda assim, quatro anos depois, Martínez, Maguire, Shaw e Dalot continuam sendo uma possibilidade real para a primeira rodada da Premier League.

Isso não significa que o Manchester United tenha fracassado completamente na tentativa de reconstruir sua defesa. As circunstâncias mudaram diversas vezes e lesões tiveram papel importante na falta de continuidade. Mas a situação mostra que algumas peças antigas ainda possuem espaço no projeto de Carrick.

A questão agora é por quanto tempo.

Se o Manchester United mantiver a pressão alta e o contra-pressing mais agressivo vistos na pré-temporada, a defesa precisará responder a exigências diferentes das que enfrentava no início do trabalho de Carrick. E, nesse cenário, a experiência de Martínez, Maguire, Shaw e Dalot pode ser útil, mas talvez não seja suficiente para resolver todos os problemas.

Quatro anos depois, o quarteto ainda está de pé. O Manchester United, porém, terá de descobrir se essa velha defesa consegue sobreviver a uma nova ideia de futebol.

Foto: Reprodução/Sky Sports